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Assistimos mais uma vez - agora com
maior repercussão por ter acontecido na cerimônia de
posse e no primeiro pronunciamento de 2007 – o
presidente Lula usar frases de tom religioso e no estilo
de auto-ajuda. Desta vez ele foi mais longe e em forma
de oração destacou: “Eu pedi força e Deus me deu
dificuldades para me fazer forte”; “Pedi
prosperidade e Deus me deu cérebro e músculos para
trabalhar”; “Eu pedi coragem e Deus me deu perigos
para superar”. Como este estilo de mensagem chama a
atenção de Lula, o coordenador da campanha à reeleição,
Marco Aurélio Garcia podia muito bem mostrar ao
Presidente o texto “Reflexões” da conterrânea gaúcha
Sara Maria Binatti dos Anjos que há meses circula na
internet e poderia até ser chamada “A prece do
povo”:
- Fui criado com princípios morais comuns. Quando criança,
ladrões tinham a aparência de ladrões e nossa única
preocupação em relação à segurança era a de que os
“lanterninhas” dos cinemas nos expulsassem devido às
batidas com os pés no chão quando uma determinada música
era tocada no início dos filmes, nas matinês de
domingo. Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos
eram autoridades presumidas, dignas de respeito e
consideração. Quanto mais próximos, e/ou mais velhos,
mais afeto. Inimaginável responder deseducadamente a
policiais, mestres, aos mais idosos e autoridades. Confiávamos
nos adultos porque todos eram pais e mães de todas as
crianças da rua, do bairro, da cidade. Tínhamos medo
apenas do escuro, de sapos, de filmes de terror.
Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo que perdemos, por
tudo que meus filhos um dia temerão, pelo medo no olhar
de crianças, jovens, velhos e adultos. Matar os pais,
os avós, violentar crianças, seqüestrar, roubar,
enganar, passar a perna, tudo virou banalidade de notícias
policiais, esquecidas após o primeiro intervalo
comercial. Agentes de trânsito multando infratores são
exploradores funcionários de indústrias de multas.
Policiais em blitz é abuso de autoridade. Regalias em
presídios é matéria votada
em reuniões. Direitos
humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos
honestos. Não levar vantagem é ser otário. Pagar dívidas
em dia é bancar o bobo, anistia para os caloteiros de
plantão. Ladrões de terno e gravata, assassinos com
cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos.
O que aconteceu conosco? Professores surrados em salas de
aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em
nossas janelas e portas. Crianças morrendo de fome.
Que valores são esses? Carros que valem mais que
abraço; filhos querendo-os como brindes por passar de
ano. Celulares nas mochilas dos recém saídos das
fraldas. TV, DVD, vídeo-game, o que vai querer em troca
desse abraço, meu filho? Mais vale um Armani
do que um diploma. Mais vale um telão do que um
papo. Mais vale um baseado do que um sorvete. Mais valem
dois vinténs do que um gosto. Que lares são esses?
Jovens ausentes, pais ausentes, droga presente e o
presente um droga. O que é aquilo? Uma árvore, uma
galinha, uma estrela, uma flor... Quando foi que tudo
sumiu ou virou ridículo? Quando foi que esqueci o nome
do meu vizinho? Quando foi que olhei nos olhos de quem
me pede roupa, comida, calçado sem sentir medo? Quando
foi que me fechei?
Quero de volta a minha dignidade, a minha paz. Quero de volta
a lei e a ordem, a liberdade com segurança. Quero tirar
as grades da minha janela para tocar as flores. Quero
sentar na calçada e ter a porta aberta nas noites de
verão. Quero a honestidade como motivo de orgulho.
Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olho no
olho. Quero a vergonha, a solidariedade. Quero a esperança,
a alegria. Teto para todos, comida na mesa, saúde... Não
quero listas de animais
em extinção. Não
quero clone de gente, quero cópia das letras de músicas,
cultura e ciência. Eu quero voltar a ser feliz! Quero
dizer basta a esta inversão de valores e ideais. Quero
calar a boca de quem diz: “a nível de”, “enquanto
pessoa”. Abaixo o “ter”, viva o “ser”!
E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de
chuva, limpa como um céu de abril, leve como a brisa da
manhã! E definitivamente comum como eu. Adoro o meu
mundo simples e comum. Vamos voltar a ser “gente”?
Ter o amor, a solidariedade, a fraternidade como base. A
indignação diante da falta de ética, de moral, de
respeito... Discordar do absurdo. Construir sempre um
mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas
respeitem as pessoas. Utopia? Não... Se você e eu
fizermos nossa parte e contaminarmos mais pessoas, e
essas pessoas contaminarem mais pessoas... Quem sabe?...
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