OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

FAÇA-SE JUSTIÇA

 

 

O ano de 2007 está sendo desenhado como o ano da Justiça.  Depreende-se da movimentação dos órgãos do Poder Judiciário – em níveis local e nacional – mostrando trabalho já neste início de ano, apesar do recesso. É que este será o ano em que entrará em vigor um dos instrumentos mais polêmico dos últimos anos e transformado na Lei no 11.417, de 19 de dezembro passado: a súmula vinculante, a vigorar em março. No Estado, a posse do novo presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Osvaldo Soares Cruz - 60 anos, metade deles dedicados à magistratura – é a garantia de que serão levados adiante os avanços alcançados pelo menos nas duas últimas administrações, à frente os desembargadores Aécio Sampaio Marinho e Amaury de Moura Sobrinho.

Se nesses dois últimos mandatos o TJ passou a dispor de um site na internet – www.tjrn.gov.br – onde os processos são acompanhados em tempo real e mais recentemente a adoção da “pauta zero”, além do ônibus para a Justiça itinerante e o plantão jurisdicional de desembargadores, entre outros avanços – faça-se justiça - o novo presidente vai mais além: “usando a informação e a comunicação como parceiras vamos fazer a Justiça chegar ao povo”. Nessa linha é que nos próximos dias começará a ser utilizado o sistema de gravação das audiências. Em áudio e vídeo, além de facilitar o trabalho de cada juiz, irá evitar distorções nos depoimentos, isto é, um réu ou testemunha afirmar uma coisa e dias depois tentar negar o que disse.

Em Brasília, o novo sistema integrado de informática da Justiça do Trabalho foi apresentado esta semana ao presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Raphael de Barros Monteiro Filho. O “e-Recurso”, implantado nos 24 Tribunais Regionais do Trabalho do país, permite a digitalização das peças processuais indispensáveis ao exame de recursos pelo TST. “Assim, um recurso que hoje leva seis anos para ser examinado levará apenas alguns dias”, espera o presidente do TST, ministro Ronaldo Lopes Leal. São essas medidas, aliadas à súmula vinculante, que poderão fazer deste ano o diferencial que possa começar a apagar a imagem cristalizada ao longo do tempo da morosidade da justiça.

Não é sem razão que o Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, vem adotando o slogan “O Tribunal da Cidadania”. E um dos seus membros, o ministro norte-rio-grandense José Augusto Delgado, chegou a escrever em um dos seus artigos que “a demora do processo provoca insatisfação em meu espírito. Ela produz inquietação, ela irrita. Ela é dolorosa para as partes e, muito mais, para o Juiz. A sociedade não mais suporta”.  Contudo, enquanto a justiça procura voltar-se para o cidadão, os governos agem na contramão. A constatação é feita pela Presidente da OAB de Brasília, a advogada norte-rio-grandense Estefânia Viveiros. Para ela, o governo se utiliza de inúmeros recursos jurídicos para deixar de pagar suas obrigações, afetando com isso a credibilidade da Justiça. Segundo a advogada, filha do ex-deputado federal Augusto Viveiros, “o governo recorre indefinidamente, até que a parte interessada morra ou desista de tanto esperar uma decisão”. Para ela, “é um artifício legal, mas não moral, utilizado em grande escala pelo Poder Executivo”.

Com a súmula vinculante “O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, editar enunciado de súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública”. De todas as opiniões autorizadas que li sobre o assunto, selecionei a do juiz federal Ivan Lira de Carvalho – articulista deste JH -  no texto “Decisões vinculantes”, publicado na revista “Jus Navigandi:  “Na atual conjuntura experimentada pelo Judiciário do Brasil, a edição da súmula vinculante constitui sério instrumento para imprimir maior velocidade e melhor racionalização na atividade jurisdicional, sem que isso macule a independência e a capacidade criativa dos juizes subordinados aos tribunais editores, principalmente se forem adotados mecanismos de revisão ágeis e democráticos”.

            É inegável que o Judiciário enfrenta uma crise de credibilidade perante a sociedade brasileira, em fase do retardamento com que entrega a prestação jurisdicional. Uso esse trecho do artigo do professor Ivan Lira de Carvalho para lembrar um debate que assisti num canal de televisão de Brasília entre a presidente da OAB-DF, Estefânia Viveiros e o juiz João Fisher Dias, da 9ª Vara Cível de Brasília. Envolvia a súmula e outros assuntos do Direito quando ele disparou uma frase que gerou concordância, risos e por isso guardei: “Na justiça o problema não é entrar. O problema é sair”.

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 22.01.2007

 

 

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