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Na
década de 70 atribuía-se o espantoso progresso japonês
ao uso intenso da espionagem industrial. Claro que tudo
foi resultado da firme determinação daquele povo em
superar adversidades, mas este deve ter sido um dos seus
componentes. Um exemplo disso testemunhei de perto ao
cobrir passo-a-passo para jornal e rádio as obras de
instalação das fábricas Seridó, Sparta e Incarton na
Zona Norte – hoje Coteminas. Antes de se associar ao
grupo UEB - União de Empresas Brasileiras – o grupo
japonês Ataka enviava emissários regularmente para
observar o andamento das obras. Todos, sem exceção,
tinham a tiracolo uma máquina fotográfica. Uns
chamavam de documentação, outros preferiam taxar de
espionagem, mas era um trabalho de diagnóstico cuja
evolução em relação aos dias atuais só é comparável
à do coroinha Joseph Ratzinger para o Papa Bento XVI.
Se
antes eram as empresas que lutavam para manter os seus
“segredos” - justificando muitas vezes o nome de
empresa privada – hoje é o cidadão que trata, muitas
vezes sem êxito, de manter a sua privacidade. São os
sigilos telefônico, bancário, fiscal e agora o virtual
violados de forma criminosa, enquanto outros são
quebrados diariamente em casa, na rua ou em qualquer
lugar em nome da modernidade. Basta a pessoa recordar,
no final do dia, quantas vezes foi filmada ou
fotografada: no trabalho, na loja de conveniência, no
banco, nas repartições, agora até nas ruas e não
somente os automóveis quando ultrapassam a velocidade
nos sinais eletrônicos. Enquanto nas ruas de Natal a
primeira experiência está sendo realizada na praia de
Ponta Negra, vale lembrar que nos Estados Unidos e
Europa os governos já trabalham com projeto de câmeras
inteligentes.
Para
se ter uma idéia, as câmeras inteligentes serão
capazes de identificar rostos e julgar se as pessoas estão
nervosas, alegres, tristes, pensativas ou indiferentes.
Enfim, ler as expressões emocionais. Em Londres, a
coisa avança ainda mais. Através de um sistema de câmeras
públicas, a pessoa pode ser achada na rua em até dez
minutos, após a sua foto ser lida em uma central. O
sistema britânico varre os traços básicos dos rostos
que estão nas ruas, nos metrôs, nos aeroportos e fazem
a sua localização. Por aqui, em alguns locais onde o
cidadão é vigiado, ainda se lê o aviso “Sorria, você
está sendo filmado!”. Toda essa invasão de
privacidade somente está sendo possível diante da
alegação das autoridades de que é para a segurança
da própria população. Se nos Estados Unidos o ícone
é o 11 de setembro de 2001, quando morreram 2.983
pessoas no Word Trade Center, na Inglaterra é o
atentado ao metrô de Londres com 56 mortos e 700
feridos.
Enquanto
assistimos à distância - embora muitas vezes ao vivo -
tragédias como a do WTC e do metrô de Londres, mais
perto a violência urbana se alastrado em São Paulo,
Rio de Janeiro e Espírito Santo, estamos vendo aos
poucos o chamado crime organizado espalhando os seus
tentáculos, embora ainda à distância, como os crimes
perpetrados via internet - através de hacker, ou
piratas de computador – violando contas bancárias ou
cadastros comerciais, clonando telefones e já com
alguma freqüência intentando seqüestros virtuais. Na
semana passada foram dois, envolvendo um comerciante do
centro de Natal e familiares de um jornalista.
Coincidentemente, pessoas que lidam com o público. Por
isso mesmo, muitas vezes expostas até involuntariamente
à quebra de sigilo telefônico – o do celular, pelo
menos – porque o fixo já não tem mais qualquer
privacidade. Basta procurar na internet “Lista
On-line”, digitar o nome da pessoa e lá está nome,
telefone, endereço, só faltando mesmo informar o CEP,
facilmente obtido mediante o endereço no site nos
Correios.
Diante
do progresso tecnológico - o última é o celular
perfumado – e a esta altura a irreversível quebra de
privacidade, algumas constatações devem ser feitas.
Quem vibrou com a facilidade em possuir um telefone, então
se prepare para perder o sossego no lar. O conforto e o
status do automóvel individual? Prepare-se para cidades
cada vez mais engarrafadas, poluídas e violentas. Que a
Internet é um poderoso e confortável meio de comunicação
instantânea em rede e prestador de serviços, ninguém
duvida. Mas, sabe que é entrando na casa de cada um que
acarreta os riscos naturais dos quais nem os santos
escapam. Vejo agora num site sobre os perigos da
internet que a paróquia de Santa Edwiges (a padroeira
dos endividados), em São Paulo, teve R$ 18 mil
desviados de sua conta corrente por piratas virtuais. A
TV Globo, achando pouco, acaba de criar um quadro
denominado “invasão de domicílio”, no programa do
Faustão. Com certeza, são fatos assim que fazem o
cidadão muitas vezes ao invés de sorrir ter vontade
mesmo é de chorar.
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