OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

      DOS MALES, OS PIORES

            Wellington Medeiros 

 

Passado o carnaval, como vem ocorrendo há anos acabou também neste domingo o horário de verão, iniciado no dia 5 de novembro. Se o carnaval é bom para a maioria - uns brincando, outros ganhando dinheiro e muitos simplesmente descansando - o horário de verão consegue quase unanimidade. Contra. Onde o HV é adotado - regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste - muitos reclamam de ter que acordar de madrugada – “com as galinhas” ou “para tirar leite” como se diz por aqui – mas onde não é implantando oficialmente cá estão horários literalmente confusos, como ocorre  com as redes de rádio e televisão, planos de vôos ou viagens interestaduais também com os horários de bancos que abrem e fecham mais cedo. E para citar meios mais modernos igualmente afetados, os e-mails que eram transmitidos em horas diferentes, às vezes gerando dúvidas nos internautas mais distraídos.

Se este foi sem deixar saudades, o carnaval passou deixando as suas marcas - boas ou más -, mas ambos serviram para fazer com que o ano comece a fluir normalmente, agora sem a manjada desculpa. Pausa agora, somente na primeira semana de abril - a semana santa - cujo feriado religioso tem que cair obrigatoriamente na sexta-feira, 6. Como é da nossa cultura que o ano comece pra valer somente após o carnaval, passa-se a viver a expectativa do período bom ou não de inverno - os meteorologistas garantem que não haverá seca - que os governantes comecem a cumprir as promessas feitas na campanha recente, bem viva na memória do povo. Tanto é verdade, que algumas categorias profissionais começam a cobrar com firmeza o cumprimento de acordos - uns até assinados solenemente - como é o caso da Polícia Militar. Os médicos lembram que estão prontos para tratar até casos crônicos de amnésia.

Para quem faz exercício de memória de forma permanente - como nós jornalistas, por exemplo – não é difícil fazer comparativos entre a política - especialmente durante as campanhas - e o carnaval. Se candidatos, no agito dos palanques ou no imprensado das caminhadas se derretem em sorrisos e promessas, alguns foliões em meio à farra oficializada também assumem compromissos, muitos deles tomados como sérios por quem não se adverte de dar o desconto da euforia provocada não raro pelo consumo de bebida alcoólica. Daí, o descrédito contra o qual se debate a classe política. Ou a chamada ressaca moral que se apossa de muitos foliões durante semanas, meses e até anos. A diferença está apenas nos cenários.

Mesmo assim, nem a política nem o carnaval estão entre as piores invenções humanas, pelo menos de acordo com pesquisa realizada pela revista “Focus”, da BBC de Londres. Ouvidas mais de quatro mil pessoas sobre qual a pior invenção humana, a arma está em primeiro lugar, com 37%. Engloba aí armas de fogo, explosivos, bombas nucleares e armas biológicas. Em segundo lugar, com 17%, está – para surpresa de muita gente - o telefone celular, surgindo em terceiro com 9% as usinas nucleares e a televisão. A lista das piores invenções tem ainda os automóveis e os cigarros (6% dos votos), comidas fast food (3%), câmeras digitais (3%) e religião (2%). Outras invenções citadas na pesquisa foram computador, dinheiro, internet, bebidas alcoólicas e publicidade. O editor da revista afirma que acha fascinante descobrir o que realmente irrita as pessoas.

A propósito, se ao invés de invenções humanas, me perguntassem se haveria coisa pior, responderia de pronto: bursite. Meu ombro direito - até ser atendido numa clínica de ortopedia - chega a pesar uma tonelada, como ocorreu agora depois de uma trégua de quase vinte anos. É uma dor burra, que dói, dói mesmo, e vai doendo, como descreve Rubem Braga num de seus artigos “Amor e outros males”. Quanto à dor do amor, segundo RB, tem de repente uma doçura, um instante de sonho, que mesmo sabendo que não se tem esperança alguma a gente fica sonhando, como um menino bobo que vai andando distraído e de repente dá uma topada numa pedra. E a angústia lenta de quem parece que está morrendo afogado no ar, e o humilde sentimento do ridículo e da impotência, e o desânimo que às vezes invade o corpo e a alma, e a “vontade de chorar e de morrer” de que fala o samba. Bursite provoca tudo isso aí...

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 26.02.2007

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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