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Passado
o carnaval, como vem ocorrendo há anos acabou também
neste domingo o horário de verão, iniciado no dia 5 de
novembro. Se o carnaval é bom para a maioria - uns
brincando, outros ganhando dinheiro e muitos
simplesmente descansando - o horário de verão consegue
quase unanimidade. Contra. Onde o HV é adotado - regiões
Sul, Sudeste e Centro-Oeste - muitos reclamam de ter que
acordar de madrugada – “com as galinhas” ou
“para tirar leite” como se diz por aqui – mas onde
não é implantando oficialmente cá estão horários
literalmente confusos, como ocorre com as redes de rádio e televisão, planos de vôos ou
viagens interestaduais também com os horários de
bancos que abrem e fecham mais cedo. E para citar meios
mais modernos igualmente afetados, os e-mails que eram
transmitidos em horas diferentes, às vezes gerando dúvidas
nos internautas mais distraídos.
Se
este foi sem deixar saudades, o carnaval passou deixando
as suas marcas - boas ou más -, mas ambos serviram para
fazer com que o ano comece a fluir normalmente, agora
sem a manjada desculpa. Pausa agora, somente na primeira
semana de abril - a semana santa - cujo feriado
religioso tem que cair obrigatoriamente na sexta-feira,
6. Como é da nossa cultura que o ano comece pra valer
somente após o carnaval, passa-se a viver a expectativa
do período bom ou não de inverno - os meteorologistas
garantem que não haverá seca - que os governantes
comecem a cumprir as promessas feitas na campanha
recente, bem viva na memória do povo. Tanto é verdade,
que algumas categorias profissionais começam a cobrar
com firmeza o cumprimento de acordos - uns até
assinados solenemente - como é o caso da Polícia
Militar. Os médicos lembram que estão prontos para
tratar até casos crônicos de amnésia.
Para
quem faz exercício de memória de forma permanente -
como nós jornalistas, por exemplo – não é difícil
fazer comparativos entre a política - especialmente
durante as campanhas - e o carnaval. Se candidatos, no
agito dos palanques ou no imprensado das caminhadas se
derretem em sorrisos e promessas, alguns foliões em
meio à farra oficializada também assumem compromissos,
muitos deles tomados como sérios por quem não se
adverte de dar o desconto da euforia provocada não raro
pelo consumo de bebida alcoólica. Daí, o descrédito
contra o qual se debate a classe política. Ou a chamada
ressaca moral que se apossa de muitos foliões durante
semanas, meses e até anos. A diferença está apenas
nos cenários.
Mesmo
assim, nem a política nem o carnaval estão entre as
piores invenções humanas, pelo menos de acordo com
pesquisa realizada pela revista “Focus”,
da BBC de Londres. Ouvidas mais de quatro mil pessoas
sobre qual a pior invenção humana, a arma está em
primeiro lugar, com 37%. Engloba aí armas de fogo,
explosivos, bombas nucleares e armas biológicas. Em
segundo lugar, com 17%, está – para surpresa de muita
gente - o telefone celular, surgindo em terceiro com 9%
as usinas nucleares e a televisão. A lista das piores
invenções tem ainda os automóveis e os cigarros (6%
dos votos), comidas fast food (3%), câmeras digitais
(3%) e religião (2%). Outras invenções citadas na
pesquisa foram computador, dinheiro, internet, bebidas
alcoólicas e publicidade. O editor da revista afirma
que acha fascinante descobrir o que realmente irrita as
pessoas.
A
propósito, se ao invés de invenções humanas, me
perguntassem se haveria coisa pior, responderia de
pronto: bursite. Meu ombro direito - até ser atendido
numa clínica de ortopedia - chega a pesar uma tonelada,
como ocorreu agora depois de uma trégua de quase vinte
anos. É uma dor burra, que dói, dói mesmo, e vai
doendo, como descreve Rubem Braga num de seus artigos
“Amor e outros males”. Quanto à dor do amor,
segundo RB, tem de repente uma doçura, um instante de
sonho, que mesmo sabendo que não se tem esperança
alguma a gente fica sonhando, como um menino bobo que
vai andando distraído e de repente dá uma topada numa
pedra. E a angústia lenta de quem parece que está
morrendo afogado no ar, e o humilde sentimento do ridículo
e da impotência, e o desânimo que às vezes invade o
corpo e a alma, e a “vontade de chorar e de morrer”
de que fala o samba. Bursite provoca tudo isso aí...
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