OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

DE TEMPOS E TEMPOS

            Wellington Medeiros*

 

Pelo tema, dá para perceber que se trata de mais uma hora da saudade ou de reencontro. Tanto faz, pois para lembrar o exercício do jornalismo nos anos 70/80 - eram somente jornal, rádio e começo das assessorias de imprensa – pode muito bem ser encaixada uma frase cuja beleza está até mesmo na sua redundância: “foi um tempo ao mesmo tempo triste – pela situação do país – e belo, pela amizade maravilhosa que tínhamos entre nós”.

A frase é da jornalista Maria do Carmo, paranaense de Pato Branco - hoje assessora de Imprensa na Prefeitura de Curitiba - que nos reencontrou através de um desses nossos artigos espalhados também na internet e resolveu exato na semana marcada pelo Dia Internacional da Mulher - 8 de março – nos escrever em busca do endereço no qual morou em Natal naquele período em que trabalhou como repórter no jornal Tribuna do Norte.

Como pauteiro e copidesque do jornal naquela época, não foi difícil rebobinar o filme, lembrar das dificuldades e até dos riscos a que estávamos expostos - embora em outro nível respondessem pelo jornal Agnelo Alves, Ticiano Duarte, Francisco Macedo e Woden Madruga. E algumas cenas que eram trágicas e a gente transformava em cômicas, como a dos agentes federais entrando na redação com os telex – na época o meio mais rápido e moderno de troca de mensagens - proibindo a divulgação de notícias que pudessem daqui derrubar o regime militar.

Dá para recordar o semblante de Maria do Carmo – alva, meiga e com aquele sotaque bem parecido com o do gaúcho Dunga, atual treinador da seleção – quando os agentes entravam na redação fazendo questão de mostrar o lado autoritário da repressão.. Com handtalks (o celular de hoje), comunicavam ostensivamente aos superiores o cumprimento da missão, isto é, haviam dado ciência que tal notícia não podia ser divulgada e confirmando que não deixara cópia. O editor tomava conhecimento e não podia sequer copiar na íntegra.

Embora a frase da jornalista - uma das mais competentes que passaram pelas redações em Natal – nos remetesse para esse lado do jornalismo nos chamados anos de chumbo, as reportagens eminentemente políticas não constavam pelo menos como rotina na pauta dela. Mesmo assim, era responsável por dar desdobramento a alguns temas políticos quando o pauteiro achava que poderia render - naquele tempo havia o jornalismo investigativo - e os repórteres da área consideravam o tema exaurido. Ela encontrava outro ângulo e mantinha o assunto em evidência.

Mas, foi em reportagens especiais envolvendo assuntos de cidade – matérias de página inteira, quase diárias – que Do Carmo mostrou possuir um dos melhores feelings para a profissão.. Bastava falar o tema e algumas coordenadas e era só aguardar o texto bem elaborado – redondo como é costume se dizer nas redações. Naquele tempo havia vibração com o trabalho em equipe e até um torcendo pelo sucesso do outro.

Daí, no e-mail, deixar registrado que foi muito feliz na TN – jornal que está completando 57 anos de fundação - e tinha paixão pelo trabalho e pela convivência franca e solidária. Tão solidária que lembra um dos almoços de domingo lá em casa no fim dos anos 70, dia em que o Corinthians – deve ser corintiana – sagrou-se campeão depois de algumas décadas. E dos colegas Walter, Braga, Norma, Graça e Ivanete e diz não arriscar a citar tantos outros por falta de espaço.

Mas, o gancho mesmo desse reencontro pela web, era a descoberta do endereço onde morou e onde nasceu o filho Camilo - já sabe que foi na Rua Professor Zuza, próximo à antiga Escola Industrial/TV-U. Ele estaria vindo a Natal e deseja conhecer o endereço onde morou até um ano de idade com os pais Carlos Prado e Do Carmo.

E para completar a sessão nostalgia, vale lembrar que no mesmo período veio morar em Natal e ilustrar na Tribuna o cartunista e humorista Henfil, de quem copiamos - em homenagem a Maria do Carmo – também por ter sido uma das pioneiras da presença da mulher nas redações de jornais em Natal, o trecho final do poema “A lição do rio”. Muito lembrado nesta quinta-feira, 22, Dia Mundial da Água, termina assim: "Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente.".

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 19.03.2007

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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