OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

O DIREITO E O TEMPO

            Wellington Medeiros*

 

Agora não resta mais dúvida de que o Poder Judiciário decidiu enfrentar para valer a queixa que viu propagada ao longo do tempo e se tornou quase uma unanimidade: a lentidão da Justiça. Além de algumas medidas que vinham sendo adotadas nos últimos anos, percebe-se que o Judiciário norte-rio-grandense, seguindo uma tendência nacional, está determinado a se utilizar da rapidez da informatização, implantando o Processo Judicial Digital. O Projudi é um programa de computador que pode ser utilizado através da Internet (www.tjrn.gov.br) e permite a completa substituição do papel por autos processuais digitais.

O processo virtual, regulamentado em lei, permite a tramitação eletrônica e assim agilizando o processo. Especialistas do Conselho Nacional de Justiça, que estiveram em Natal no final de semana para o lançamento do Juizado Virtual, o segundo do Brasil – o primeiro foi o estado de Roraima – explicaram a necessidade de uma mudança de hábito e atitude para abandonar o papel. De início, serão eliminadas oito etapas manuais de um processo antes realizadas nos cartórios, como autenticação, numeração de folhas, registro em livro, emissão de carta para o autor, enfim grande parte da burocracia, representando economia para as partes e maior celeridade para as decisões.

Deve-se reconhecer igualmente o pioneirismo do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte com o programa “pauta zero” em segunda instância - isto é, na alçada dos desembargadores - enquanto o exemplo já começa a ser seguido pelos juizes das comarcas do interior. Agora, com o Juizado Virtual, as primeiras avaliações mostram que a Justiça terá 500% de ganho no avanço processual, uma vez que 70% do tempo gasto em um processo devem-se ao trâmite de peças processuais como citações, intimações e petições emitidas de forma tradicional.

Se todas essas iniciativas têm um único objetivo - o bem comum – sabe-se que existe uma barreira que também deve merecer atenção, pois embora legal, muitas vezes é intencionalmente colocada para retardar as decisões da justiça. Foi esta barreira que há exatos três anos me fez iniciar essa série de artigos nesta página. Hoje ainda mantenho todos os termos e até as vírgulas. E contando com a tolerância da direção e editores – transcrevo o primeiro artigo - “Parecer, vírus a corroer paciência”  - para complementar este que é o de número 150, aqui publicado às segundas-feiras desde o dia 23 de março de 2004.

­­­­­- Existe um instrumento na administração pública que deve ter sido instituído para protelar o andamento dos processos, dá o que fazer a alguns burocratas desocupados e infernizar a vida dos outros. Trata-se do famoso parecer. Ele está em todos os setores, ronda todas as salas, enquanto a administração muitas vezes vai sendo emperrada por conta desse verdadeiro vírus incrustado na maioria dos papéis públicos.

O parecer, que em alguns casos, deveria ser uma opinião definitiva, emitido com autoridade, ética e zelo, muitas vezes reflete o humor do (da) “parecerista”, o próprio ambiente de trabalho e algumas vezes a preguiça em analisar a questão e daí, muita gente conhece a repetição de frases e opiniões dos outros em pareceres que deveriam ser individuais.

Já se disse até que parecer é parecer. A questão que para uns é legítima, para outros pode parecer exatamente o contrário. Mas, o pior de tudo é ficar dependendo de parecer. A questão é tão complexa, que se indagarmos algo de uma pessoa e esta vem com a expressão “parece que”...  a dúvida se estabelece e a resposta não se completa. E o interessado gastando solado de sapato e por coincidência enfrentando essa “meia-sola” processual.

No Estado, após a Constituição de 1989 e o Regime Jurídico Único, de 1994, o servidor público que buscou algum direito garantido nesses documentos, viu-se cercado de dúvidas, incertezas, má-vontade, louvando-se as exceções. Sobre um mesmo tema – incorporação – conheço pareceres divergentes de pelo menos três ex-Consultores Gerais do Estado. De procuradores, perdi a conta. Para esse quadro, contribuiu o Governo pós-94, que não se ocupou em outra coisa, a não ser tentar desmanchar o que se transformara em leis.

Daí, até hoje, muitos servidores estarem sendo prejudicados, com direitos colocados em discussões penosas e intermináveis e que na maioria das vezes termina por onde deveria ter começado: a Justiça, onde também se discute, argumenta se estabelece o contraditório, mas onde pelo menos não se fica à mercê de pequenas questões internas, o humor das pessoas, ao sabor de pequenas picuinhas de repartição pública.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 02.04.2007

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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