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- “Cadê o grande Gibson?!”. Esta foi, durante
algum tempo, a frase que substituía ao bom dia no Palácio
Potengi, atual Palácio da Cultura. Partia do então
secretário para Assuntos de Governo, advogado Paulo
Lopo Saraiva, no governo Lavoisier Maia, início dos
anos 80. Foi no período em que passei a exercer a
presidência da Imprensa Oficial, sendo substituído no
cargo de assessor de Imprensa pelo jornalista Gibson
Antunes. Era a senha para a reunião que fazíamos
diariamente para elaborar a pauta diária na área de
comunicação, uma vez que na época também circulava o
jornal “A República”.
Conhecera Gibson – cearense de Crato, que faleceu em
Natal nesta sexta-feira da Paixão, vítima de problemas
cardíacos - quando ele, editor de Economia do Diário
de Natal, procurava a assessoria em busca de notícias
dessa área. No dia seguinte, lá estava a reportagem
retratando com fidelidade as informações que lhes eram
transmitidas, complementadas com outras fontes e do próprio
arquivo pessoal dele. Tinha o completo domínio de temas
econômicos. E fazia sentido. Antes de ingressar no
jornalismo, foi funcionário do Banco do Brasil – no
tempo em que ainda era um dos empregos mais cobiçados
– chegando, por merecimento, a assumir cargos
gerenciais.
Tanto o emprego, mas, sobretudo a área preferida no
jornalismo foi abrindo portas para uma vocação que,
segundo testemunho do seu filho Marcelo Antunes, era
inata: a de enfrentar desafios, isto é, o campo
empresarial, onde atuou inicialmente no ramo de
alimentos, móveis e, por último, na construção
civil. O estilo empreendedor o acompanhou até mesmo
durante o tratamento de saúde. Estava coordenando em
parceria com o médico que o assistia, cardiologista
Sylton Arruda de Melo, a criação da Fundação de Cardíacos
Dependentes do Sistema Único de Saúde. Usando
marca-passo e desfibrilador não se conformava com a
dificuldade dos pacientes em terem acesso às próteses
cardíacas.
A participação do médico Sylton Arruda tem uma
explicação. Especializado em Arritmia e Marca-passo,
é um dos críticos da limitação imposta pelo Sus na
liberação desses “salva vidas” - apenas dois por mês.
Este médico chegou a ser notícia ao implantar num
paciente um marca-passo provisório de sua propriedade
particular. O paciente do Santa Catarina tinha bloqueio
cardíaco – baixo ritmo de batimentos – e para salvá-lo
implantou o marca-passo emergencial, uma vez que o
hospital público não dispunha. A recomendação era a
de que em cinco dias fosse implantando o marca-passo
definitivo. Sem receber o material recomendado, o
paciente faleceu. E este é só um dos casos envolvendo
pacientes que necessitam do Sus.
Vê-se, assim, que nem mesmo a doença afastou Gibson
do empreendedorismo. O jornalismo local e,
especialmente, o cearense, perdeu um de seus ícones. Se
em Natal, pontificou na editoria de Economia, no Ceará
era tratado como professor pelos mais jovens, graças ao
desempenho em diferentes funções, destacando-se como
jornalista, ombudsman, organizador em 1998 do Guia de
Redação e Estilo do jornal O Povo – 328 páginas - e
até controller. Entre outras tarefas, compete ao
controller – ironicamente, apesar do modismo do nome
em inglês – detectar e prevenir os erros de português
cometidos eventualmente pelos redatores.
Daí a frase “Feliz desta geração que teve o
Gibson como companheiro de redação”, dita pela
ombudswoman emérita do jornal, Adísia Sá, numa ampla
reportagem publicada nesta quinta-feira. “Ele era um
repórter. Não tinha preguiça de ir atrás da notícia”.
A declaração de Regina Ribeiro, editor-executiva do Núcleo
de Comportamento do jornal, lembrando que com mais de 60
anos Gibson apurava, ligava para checar informações..
“Ele se tornou uma espécie de professor de jornalismo
para colegas mais novos”, reconhecem outros.
Depois dessa última passagem pelo O Povo, retornou a
Natal onde além de escrever já aos 73 anos, colaborava
como revisor de textos em trabalhos especializados
elaborados pela Terceirize, empresa de editoração
eletrônica - pioneira nessa atividade em Natal - do
filho Marcelo Antunes. Foi lá onde o encontrei pela última
vez já administrando problemas de saúde, mas sempre
disposto a conversar sobre os assuntos da atualidade. E
foi também na Terceirize onde diversas vezes pude
indagar dos filhos Marcelo e Maurifran, lembrando a
nossa convivência nos anos 80: “Cadê o grande Gibson
?!”.
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