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A frase “Valei-me meu
professor Saturnino!” soou durante anos em Natal
como um pedido de socorro, mas, pelo estilo do
suplicante todos percebiam que era mais uma forma de
homenagear ao consagrado mestre da língua portuguesa.
Era assim que João Cláudio de Vasconcelos Machado
pontuava algumas vezes os comentários esportivos no rádio,
atividade que o imortalizou através da colocação do
seu nome no maior estádio de futebol do Rio Grande do
Norte – o Machadão.
Sempre que surgia alguma dúvida
gramatical, lá estava chamando pelo professor Saturnino
de Paiva, fundador de um externato com o próprio nome
que funcionava ao lado da Igreja de São Pedro, no
Alecrim, administrado por ele e pela filha, professora
Ione. Sou de uma das gerações que por lá passaram e
vibravam quando João Machado invocava o mestre. Uma das
marcas do professor Saturnino era a de ministrar as
aulas usando camisa branca e gravata e ser exigente na
disciplina, em especial na dissertação.
Os cenários foram
mudando, a tecnologia avançando e hoje, diferentemente
de pouco mais de uma década, o socorro está cada vez
mais ao alcance da mão. Ao invés de recorrerem aos
professores Saturnino, Francisco das Chagas Pereira,
Arnaldo Arsênio, Alvamar Furtado, Crisan Siminéia,
Miriam Coeli, Eulício Farias ou José Melquíades -
como fizeram muitas gerações - acessam o corretor
ortográfico também chamado de professor Word e até o
Google, apontado como a enciclopédia eletrônica na
internet.
É a partir de então que
começa a se estabelecer a polêmica português x
internetês. Debate natural, mas que somente deveria
causar maior preocupação caso na grande rede somente
existissem chats, flogs e blogs muitos transformando a
linguagem abreviada em códigos chatos que nada têm a
ver com a gramática, ortografia e às vezes a própria
semântica. A exemplo dos “emotions”, as caretinnhas
e personagens que são usados para expressar as emoções
de quem está teclando.
Basta lembrar que mesmo
existindo excelentes educadores a transmitir os
ensinamentos da língua portuguesa - anualmente os
vestibulares a colocam como matéria eliminatória,
incluindo gramática, literatura e a temida redação
– os estudantes tiveram ao longo do tempo acesso a
outro tipo de mensagem. As cifradas – o Morse, por
exemplo – à taquigrafia, até poucos anos ministrada
no curso de Comunicação Social, pelo professor Othon
Oliveira – e até hoje utilizada no Congresso Nacional
- sem falar nos criptogramas incorporados ao uso diário,
como $ (dinheiro), % (percentagem) e atualmente @ (que
quer dizer “em algum provedor”).
Deveu-se à evolução
tecnológica o desaparecimento dos radiotelegrafistas,
teletipos e até mesmo o revisor nas redações dos
jornais. De todos, este último é a ausência mais
sentida, diante de erros observados nos jornais, uma vez
que nem sempre a ferramenta tecnológica – corretor
ortográfico – resolve dúvidas que o antigo revisor
solucionava.
Para tanto, contava na
maioria das vezes com a ajuda do Aurélio – sinônimo
de dicionário – e ainda Caldas Aulete, Francisco
Borba e mais recentemente o Houaiss e o Michaelis. É
comum se usar “mau” em lugar de “mal” e o
corretor não acusar. É que as duas palavras estão no
dicionário do computador e, assim, ambas são
reconhecidas.
O Word, com o seu corretor
ortográfico e a internet com volume nunca imaginado de
informações ao alcance da mão, hoje servem de socorro
para quem foge da área de humanas para não estudar língua
portuguesa. O corretor ortográfico vai corrigir caso
alguém escreva fazem 10 anos
- façam o teste - mas certamente pode deixar
escapar algumas aberrações. Daí já ter sido
desenvolvido o Redator Windows para aqueles que desejam
uma ferramenta mais completa de correção de textos,
pois desenvolvida pela Itautec em parceria com a USP e
Unicamp.
É de se reconhecer a
existência de uma reação negativa diante do novo. Foi
assim com o fogão a gás, a garrafa térmica, o
alimento congelado ou o forno microondas. Com a internet
não podia ser diferente, apesar de grande parte da
população ser (aqui, por exemplo,
o Word sugere de a população ser) considerada
de “analfabetos eletrônicos”, isto é, muitos não
sabem sequer manipular um controle remoto de TV ou
acessar um telefone celular.
Afinal, era sabido que o professor Saturnino
reagia com esportividade e bom humor às súplicas de João
Machado. Mas, não se tem conhecimento da reação dele
ao receber um telegrama do filho Ivanildo Correia de
Paiva que estudava em Recife e, muito espirituoso, ao
ser reprovado passou o seguinte telegrama:
“PROFESSORES ENTUSIASMADOS MEUS EXAMES. PEDIRAM
BIS”.
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