OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

A SEMANA DAS MÃES

            Wellington Medeiros*

 

Para o comércio está iniciada a semana das mães, cujo Dia, domingo próximo, 13 - o segundo de maio - em termos de vendas perde apenas para o Natal. As lojas expõem presentes para todos os gostos, gastos e estilos, as vitrines estão mais enfeitadas e a mídia em geral usa o tema para sugerir presentes que vão de vestuário, jóias, bijuterias, perfumaria até eletro-eletrônicos, passando pelo hoje popular telefone celular ao automóvel.

Muitas serão as merecidas homenagens às mães. Presentes, flores, mensagens, cafés-da-manhã, almoços, passeios e até mesmo para aquelas que se foram antes de nós, uma visita aos cemitérios. Contudo, entre tantas mães de lares ditos constituídos - festejando a data cercada de marido e filhos - existe outro tipo de mãe, a solteira que muitas vezes tem que exercer também o papel de pai em meio à discriminação que ao longo do tempo vai perdendo sentido.

A Constituição de 1988 repete que a família é a base da sociedade, mas já enumera três tipos de famílias que merecem proteção jurídica e do Estado: as advindas do casamento, da união estável e das relações de um dos pais com seu filho, ou seja, a família monoparental. O fato de a lei reconhecer duas pessoas como uma família faz diferença, por exemplo, no reconhecimento do bem de família.

O imóvel onde reside é um bem de família que deve ser preservado e não pode ser penhorado, exceção quando a pessoa é fiadora em contrato de locação. Assim, as famílias formadas por mães solteiras precisam saber que perante a lei não existe diferença entre famílias constituídas pelo casamento e a delas. O aumento no número de mães solteiras adolescentes é uma realidade, apesar das campanhas de esclarecimento e até de prevenção.

Nesta semana que antecede ao Dia das Mães, decidi pesquisar o assunto. Mas, ao invés de buscar estudos dos professores das universidades americanas de Harvard (Massachussets) ou Stanford (Califórnia) – nada contra, até porque hoje os computadores se encarregam de fazer a tradução - lembrei uma crônica escrita no início dos anos 80 pelo padre José Luiz e que está no livro “Na Calçada do Café São Luiz” e que retratava o cenário da época.

Hoje, reproduzo trechos da “Homenagem à mãe solteira”, título da crônica publicada na página 34 e que obteve repercussão na época pelas verdades ditas com todas as letras pelo padre José Luiz.

- “Eu tenho uma profunda admiração pela mãe solteira. Ela teve a coragem ímpar de assumir sua condição de mãe. Seu filho vai receber dela uma duplicidade de afeto e heroísmo. Contra ela quase sempre se postaram a sociedade e a família. Ficou somente ela, agarrada com o futuro, porque o futuro reside nos seus braços.

Como tantas, ela poderia ter deixado seu filho nas portas das residências abastadas, mas não o fez. Poderia ter apelado para o aborto enganando os circunstantes, mas não o fez. Preferiu ficar sozinha. Sem ter um marido para apoiá-la nas horas difíceis.

Numa cidade como Natal, onde a paternidade irresponsável conseguiu ultrapassar os limites da imaginação, faz-se necessário que a gente pare para refletir com mais seriedade no número incontável de recém-nascidos, abandonados nas portas das residências, como se fosse um grito de desespero misturado de esperança, gesto de leviandade habitado de afeto.

É com tristeza também que hoje eu penso que há mães misturadas de culpas e revoltas, mas cujos maridos duraram somente uma noite e cujo amor foi mesclado de promessas e miragens. Mães dormidas em motéis de luxo e acordadas em casebres. Mães engravidadas com vinho, mas cuja caminhada foi feita de fome. Mães adormecidas no sonho e acordadas na desilusão. Mães - por terem sido mães - expulsas de casa, odiadas pelos irmãos, transtornadas por terem um filho nos braços, acompanhando seus passos, crescendo no seu sorriso”.

Zéluis não viveu para acompanhar a evolução ocorrida a partir de então, com a quebra de tabus até chegarmos hoje à chamada “produção independente” como o assunto passou a ser tratado até em novelas de televisão. A mulher foi ocupando espaços e hoje, embora muitas ainda enfrentem preconceitos, são tratadas como mães de fato e de direito. Sobretudo, com mais respeito e menos farisaísmo.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 07.05.2007

 

 

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