OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

O BENEFÍCIO DA DÚVIDA

            Wellington Medeiros*

 

Ao declarar a inconstitucionalidade de dispositivos do Estatuto do Desarmamento, entre eles o que proibia a concessão de liberdade, mediante o pagamento de fiança, no caso de porte ilegal de arma - parágrafo único do artigo 14 da Lei 10.826/03 - o Supremo Tribunal Federal agiu como se os seus ministros estivessem nas ruas ouvindo os reclamos do povo. Desde dezembro de 2003 e o último dia 2 de maio, o cidadão brasileiro - além dos problemas diários que já enfrenta - se transformou de vez em alvo fácil da bandidagem depois que todos – no caso as pessoas de bem – estavam desarmados com medo também da lei em vigor. Afora as admissibilidades contidas no Estatuto, andar armado passara a ser privilégio dos fora-da-lei, sem temor de serem mandados para onde já deveriam estar: as grades.

O dispositivo do Estatuto que não oferecia alternativa ao cidadão - flagrado com arma ia preso e sem direito a fiança – fazia a festa dos marginais. A certeza de que a população estava totalmente indefesa, gerava – ainda gera – uma onda de assaltos jamais imaginada. E a maioria deles sem chegar sequer aos registros policiais. Mercadinhos, casas lotéricas, postos de combustíveis, cigarreiras, ônibus, alternativos, são os que ainda chegam ao conhecimento da imprensa. E o dos automóveis nos semáforos, estudantes indefesos na saída das escolas, mulheres, residências que não possuem cães ou cerca elétrica e até igrejas que passado o susto e o prejuízo material, desistem de fazer parte das estatísticas da violência. Não há um só segmento que tenha escapado incólume da ação da bandidagem nesses últimos três anos em Natal.

Quem quer que converse com qualquer pessoa ou responsável por estabelecimento violado, a conclusão é uma só: agiram assim porque sabiam que as vítimas estavam desarmadas. Não havia sequer o benefício da dúvida. Qual o cidadão de bem que ia se arriscar a usar uma arma, sabendo que em caso de flagrante não tinha qualquer alternativa. Iria ficar preso... Diante desse desarmamento geral, a população passou a ser presa fácil dos criminosos e alguns exemplos estão chocando a sociedade: o assalto a céu aberto a um bar em Mirassol, o arrastão a um condomínio de luxo no Tirol e a dezenas de casas lotéricas por uma jovem recentemente detida.

Tive a oportunidade de conversar com uma das testemunhas de um dos assaltos praticados pela jovem Gleice Kelly - Kelly Pitbull - numa lotérica de Neópolis. Cerca de dez pessoas numa fila, ela entra puxa o revólver e fica balançando como quem segura uma mangueira para aguar um jardim. Apenas dizia não querer nada das pessoas e sim o dinheiro da loteria. Assim era feito. Ninguém reagia. Até porque todos estavam desarmados. De outra feita, o proprietário de um mercadinho assaltado quatro vezes no período de um ano – sempre por motoqueiros – revelava que diante da facilidade, já tinha o dinheiro dos bandidos separado num determinado local.

Neste fim-de-semana, o cúmulo do absurdo aconteceu. A diretora de um curso de inglês – novamente no bairro do Tirol -  interromper uma aula para, calma e resignadamente, informar aos alunos: “Caros alunos, isso é um assalto. Este homem que está aqui quer que vocês entreguem todos os seus pertences”. Ela saiu de sala em sala, pedindo que todos “colaborassem e ficassem calmos, pois nada de mal aconteceria”. Acontecia, sim: uma aula de impunidade. Não dá mais para tolerar essa certeza que os bandidos têm de que as pessoas estão desarmadas, indefesas, amedrontadas e ainda conformadas pela “bondade” deles em deixá-las ilesas. Conformismo que não existia nem no tempo de Lampião e Mossoró é um exemplo disso.

A sábia decisão do STF - cuja presidente ministra Ellen Gracie chegou a ser vítima de bandidos no Rio de Janeiro – não se trata de liberou geral. O Estatuto do Desarmamento continua em vigor. Contudo, serve para tirar dos marginais a certeza – absoluta – que a totalidade dos cidadãos comuns está desarmada e sem qualquer poder de reação. Agora, em dúvida, pensarão duas vezes antes de invadir um bar, saquear ônibus, festa de aniversário ou escola. Nas esquinas, temerão que o condutor possa estar prevenido - mesmo correndo o risco de pagar fiança - e não vão mais enfiar uma arma pela porta, pedir para que abra o vidro para assaltar com a mesma facilidade que um adulto tira o confeito de uma criança. Nos últimos dias, um bairro comercial de Natal deu exemplo de que ali bandido não tem moleza: o Alecrim. O jogo lá está 2 a 0 para os comerciantes.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 14.04.2007

 

 

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