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Pedir para trocar a embalagem de
cigarros devido ao conteúdo da ilustração é uma cena
corriqueira desde que uma lei tornou obrigatória a
colocação de fotos acompanhadas de frases com alertas
sobre os danos do tabagismo à saúde dos fumantes e até
das crianças. Na maioria das vezes, o fumante pede para
trocar a do homem com as pernas amputadas, do câncer de
boca ou de pulmão pela da impotência, considerada a
menos agressiva - ao mostrar um cigarro com a cinza em
posição decadente - fato que muitos preferem levar na
brincadeira.
A exemplo do tabagismo é possível que
nos próximos dias frases como esta estejam presentes na
mídia: “O Ministério da Saúde adverte: o álcool em
excesso causa inúmeras doenças como câncer de fígado e
lesões cerebrais”. Deverão substituir a advertência
“Beba com moderação”, na propaganda de bebidas
alcoólicas com mais de 0,5% (ou 0,5 graus Gay-Lussac),
como cerveja, vinho e champanhe. Faz parte da Política
Nacional sobre o Álcool, lançado pelo governo federal na
última quarta-feira, visando desacelerar o consumo
abusivo.
O objetivo da política é enfrentar
problemas como dependência e doenças físicas
relacionadas ao consumo abusivo do álcool. Faz sentido:
11,9% das internações realizadas pelo Sistema Único de
Saúde (SUS), entre a população masculina na faixa etária
de 15 a 29 anos é provocada por doenças no aparelho
digestivo. Entre homens com 30 a 59 anos, as doenças
digestivas representam a primeira causa de internação
(15,3% dos casos). Relatório da Organização
Pan-Americana de Saúde (OPAS) mostra que entre as
principais doenças que integram essa classificação está
a cirrose causada por hepatite ou uso abusivo do
álcool..
A outra área de atuação é a
associação entre o álcool, acidentes de trânsito e
violência. Grande parte dos acidentes de trânsito com
vítimas – 61% - está associada ao uso de bebidas
alcoólicas pelo condutor do veículo ou pelo pedestre
vítima do atropelamento. O país gasta R$ 24 bilhões em
todo o contexto dos acidentes de trânsito que envolve
também o uso do álcool. Consta do conjunto de
providências: fortalecer a fiscalização das medidas
previstas em lei que visam coibir a direção sob o efeito
do álcool que provoca mais da metade das 37.500 mortes
anuais no trânsito.
As estatísticas são assustadoras: de
cada 100 vítimas que chegam aos Institutos Médicos
Legais para estudo cadavérico, 95 têm álcool no sangue;
mais de 50% dos casos de assalto e assassinato são
motivados pelo alcoolismo e mais de 2/3 dos casos de
violência contra crianças causadas pelos pais são
decorrentes do envolvimento com o álcool. Nesse caso,
basta acompanhar as resenhas policiais no rádio e
televisão onde está toda a essência do uso descontrolado
da bebida alcoólica.
Como na campanha antitabagista, a
política visando coibir o uso abusivo do álcool já causa
polêmica. Começou quando o ministro da Saúde, José Gomes
Temporão, chamou de patética a participação do artista
em comerciais de cerveja: “Sou admirador do Zeca
Pagodinho, mas ele tem que parar de fazer essa
propaganda. Chega a ser patético. A questão do álcool é
dramática”. Pagodinho – em meio a um contrato com uma
fábrica de bebidas – claro que reagiu: ”Aqui em casa eu
sempre bebi. Meu filho mais velho bebe. E o do meio não
bebe e aí, como é que isso? argumentou o cantor – hoje
ídolo dos biriteiros.
O disciplinamento da propaganda é o
item principal de uma série de medidas sugeridas pela
Organização Mundial de Saúde. A OMS identifica os
brasileiros entre os que teriam mais anos de vida
afetados por incapacidade devido ao abuso do álcool.
Observa-se que a Política Nacional sobre o Álcool -
decretada pelo presidente Lula, mesmo sendo um dos seus
notáveis consumidores – não proíbe o uso de bebida nem
estabelece cruzadas moralistas contra o seu consumo.
Visa, sim, combater os efeitos que o abuso do álcool vem
causando à economia, à sociedade e ampliando às
estatísticas da violência doméstica, das prisões,
hospitais e cemitérios.
E faz lembrar o psicanalista,
comunicador e deputado federal Eduardo Mascarenhas,
falecido há exatos dez anos (29/04/1997), que num dos
seus livros cita a frase de um grande poeta brasileiro:
“O melhor amigo do homem não é o cachorro, é o uísque”.
E aduzia: Claro, para quem pode pagar, talvez até seja
verdade. Isto, porém, é verdade para 87% dos bebedores.
Contudo, para 13%, se puderem, é bem melhor terem um
cachorro. Se não – por conta do uso abusivo da bebida -
viverão uma existência de cão.
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