OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

ÁLCOOL É POLÍTICA

            Wellington Medeiros*

 

Pedir para trocar a embalagem de cigarros devido ao conteúdo da ilustração é uma cena corriqueira desde que uma lei tornou obrigatória a colocação de fotos acompanhadas de frases com alertas sobre os danos do tabagismo à saúde dos fumantes e até das crianças. Na maioria das vezes, o fumante pede para trocar a do homem com as pernas amputadas, do câncer de boca ou de pulmão pela da impotência, considerada a menos agressiva - ao mostrar um cigarro com a cinza em posição decadente - fato que muitos preferem levar na brincadeira.

A exemplo do tabagismo é possível que nos próximos dias frases como esta estejam presentes na mídia: “O Ministério da Saúde adverte: o álcool em excesso causa inúmeras doenças como câncer de fígado e lesões cerebrais”. Deverão substituir a advertência “Beba com moderação”, na propaganda de bebidas alcoólicas com mais de 0,5% (ou 0,5 graus Gay-Lussac), como cerveja, vinho e champanhe. Faz parte da Política Nacional sobre o Álcool, lançado pelo governo federal na última quarta-feira, visando desacelerar o consumo abusivo.

O objetivo da política é enfrentar problemas como dependência e doenças físicas relacionadas ao consumo abusivo do álcool. Faz sentido: 11,9% das internações realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), entre a população masculina na faixa etária de 15 a 29 anos é provocada por doenças no aparelho digestivo. Entre homens com 30 a 59 anos, as doenças digestivas representam a primeira causa de internação (15,3% dos casos). Relatório da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) mostra que entre as principais doenças que integram essa classificação está a cirrose causada por hepatite ou uso abusivo do álcool..

A outra área de atuação é a associação entre o álcool, acidentes de trânsito e violência. Grande parte dos acidentes de trânsito com vítimas – 61% - está associada ao uso de bebidas alcoólicas pelo condutor do veículo ou pelo pedestre vítima do atropelamento. O país gasta R$ 24 bilhões em todo o contexto dos acidentes de trânsito que envolve também o uso do álcool. Consta do conjunto de providências: fortalecer a fiscalização das medidas previstas em lei que visam coibir a direção sob o efeito do álcool que provoca mais da metade das 37.500 mortes anuais no trânsito. 

As estatísticas são assustadoras: de cada 100 vítimas que chegam aos Institutos Médicos Legais para estudo cadavérico, 95 têm álcool no sangue; mais de 50% dos casos de assalto e assassinato são motivados pelo alcoolismo e mais de 2/3 dos casos de violência contra crianças causadas pelos pais são decorrentes do envolvimento com o álcool. Nesse caso, basta acompanhar as resenhas policiais no rádio e televisão onde está toda a essência do uso descontrolado da bebida alcoólica.

Como na campanha antitabagista, a política visando coibir o uso abusivo do álcool já causa polêmica. Começou quando o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, chamou de patética a participação do artista em comerciais de cerveja: “Sou admirador do Zeca Pagodinho, mas ele tem que parar de fazer essa propaganda. Chega a ser patético. A questão do álcool é dramática”. Pagodinho – em meio a um contrato com uma fábrica de bebidas – claro que reagiu: ”Aqui em casa eu sempre bebi. Meu filho mais velho bebe. E o do meio não bebe e aí, como é que isso? argumentou o cantor – hoje ídolo dos biriteiros.

O disciplinamento da propaganda é o item principal de uma série de medidas sugeridas pela Organização Mundial de Saúde. A OMS identifica os brasileiros entre os que teriam mais anos de vida afetados por incapacidade devido ao abuso do álcool. Observa-se que a Política Nacional sobre o Álcool - decretada pelo presidente Lula, mesmo sendo um dos seus notáveis consumidores – não proíbe o uso de bebida nem estabelece cruzadas moralistas contra o seu consumo. Visa, sim, combater os efeitos que o abuso do álcool vem causando à economia, à sociedade e ampliando às estatísticas da violência doméstica, das prisões, hospitais e cemitérios.

E faz lembrar o psicanalista, comunicador e deputado federal Eduardo Mascarenhas, falecido há exatos dez anos (29/04/1997), que num dos seus livros cita a frase de um grande poeta brasileiro: “O melhor amigo do homem não é o cachorro, é o uísque”. E aduzia: Claro, para quem pode pagar, talvez até seja verdade. Isto, porém, é verdade para 87% dos bebedores. Contudo, para 13%, se puderem, é bem melhor terem um cachorro. Se não – por conta do uso abusivo da bebida - viverão uma existência de cão.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 28.04.2007

 

 

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