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O gancho ou pretexto para o artigo desta semana teve
origem nos preparativos para um trabalho acadêmico
produzido pelos alunos do 5º período de Comunicação
Social da Universidade Potiguar – UnP – sob o título
acima. De início, Andréa Lemos – assessorada por Túlio
Lemos – buscando pontes para chegar ao jornalista
Eugênio Netto, esse sim assíduo freqüentador e, sem
favor - pelo menos do nosso meio - a melhor fonte para
falar sobre o antigo Café São Luiz. Depois, a intimação
apresentada por Ney Lopes Júnior - advogado e se
formando em Comunicação - para que eu também falasse
sobre aquele ponto de encontro, cujas maiores
referências são na verdade Eugênio e o padre José Luiz
Silva, já falecido, autor do livro “Na calçada do Café
São Luiz”.
I-pod - gravador moderno do tamanho de um isqueiro –
ligado, não me restou alternativa senão lembrar os
tempos em que, mesmo trabalhando em Palácio nos anos 70,
ia com freqüência ao cafezinho da Rua Princesa Isabel, a
apenas três quarteirões. As conversas, algumas
exaltadas, serviam de termômetro sobre o momento
político. Em rádio ou jornal, muitas vezes a pauta era
uma enquete ou para saber a repercussão de determinado
assunto junto aos freqüentadores: políticos,
intelectuais, jornalistas, aposentados e muitas figuras
que escreveram a história do humor, da irreverência e da
ousadia natalense e que lá eram bem recebidas, ouvidas
com igual atenção e respeito.
O Café São Luiz sempre foi - para lembrar João Machado -
um dos departamentos da “Universidade do Grande Ponto”,
à qual se referia com bom humor nos programas e
comentários de rádio e artigos de jornal. Para Eugênio
Netto, ainda hoje freqüentador diário, batendo o ponto
regularmente, o local é também conhecido como a boca
maldita do Rio Grande do Norte e foi de lá que muitas
vezes saiu para os estúdios da então rádio Nordeste e
depois da Trairy (hoje CBN), com notícias e especulações
atualmente na sua maioria inseridas em pequenas notas
nos blogs dos jornalistas. Não é sem razão que Eugênio
sempre foi um dos jornalistas – depois político com
mandatos de vereador e deputado estadual – mais bem
informado da cidade.
Nas campanhas eleitorais ocorridas nas três últimas
décadas, o São Luiz serviu de “batismo de fogo” para os
candidatos testarem a popularidade, tendo sido o atual
senador José Agripino, o primeiro a correr o risco.
Deixara a Prefeitura de Natal para se candidatar ao
Governo do Estado em 1982 e lá se submeteu ao primeiro
teste, obtendo aprovação dos circunstantes. De lá saiam
diariamente para os jornais e emissoras de rádio prévias
eleitorais com resultados os mais discrepantes, mas
serviam para manter aceso o clima da disputa. Foi
naquele ano em que o padre José Luiz - autor do livro
“Na calçada do Café São Luiz” - chegou certo dia
enaltecendo o trabalho de uma equipe que havia
conseguido escrever as letras JA no Pico do Cabugi,
cerca de 600 metros de altura. Descrevia o perigo,
verdadeira aventura para a pintura das iniciais do
candidato José Agripino e que começavam a ser difundidas
em todo o Estado. Poucos dias depois surgia outra
inscrição assim: Para Deputado Estadual Rui Barbosa. Ele
não dava o braço a torcer, e continuava exaltando o
pioneirismo dos amigos assuenses.
No livro, Zéluiz escreveu: “A calçada do Café São Luiz”
é o território livre dos potiguares. Antes, bem muito
antes da Abertura - numa referência ao regime de 64 – a
liberdade era (embora cochichadamente) exercida em puro
estado de graça. E Eugênio Netto, em artigo de
apresentação do mesmo livro, afirma que a calçada do
Café São Luiz é um verdadeiro estado de espírito. Lugar
cosmopolita, onde se discute de tudo, se fala de tudo,
menos da vida alheia. Ele sublinha a parte final, como a
dizer: “se o alheio estiver próximo...”.
Esses e muitos outros fatos devem ter proporcionado aos
estudantes da UnP a produção de um trabalho que
resgata para os mais jovens parte da memória de um dos
points mais freqüentados de Natal e que hoje se mantém –
mesmo com o desaparecimento da marca do café que lhe deu
origem – o São Luiz. Hoje é Santa Clara. O primeiro é
padroeiro dos jovens. A santa é a protetora da
televisão. Tudo a ver com o trabalho de Andréa Lemos,
Ney Júnior e a turma coordenada por Andréa Mousinho .
Afinal, estabeleceu-se o consenso e a paz, aliás,
cenário desses novos tempos: por dentro é Santa Clara,
com a propaganda cercando as fotos dos fundadores,
inaugurando o então Café São Luiz. Que ficou mesmo na
fachada, na memória e na calçada.
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