OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

LICEU DAS ARTES

            Wellington Medeiros*

 

 “Centro de Cultura e Criatividade Liceu das Artes”. Esta poderia ser a denominação de uma obra pública federal, estadual ou até mesmo de uma Ong para a preservação do nosso patrimônio histórico, mas não é. Trata-se de um trabalho acadêmico desenvolvido no curso de Arquitetura e Urbanismo do Departamento de Arquitetura do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Assinado pela doutoranda Dinara Regina Azevedo Gadelha foi elaborado como atividade final em nível de graduação para a obtenção este ano do título de arquiteta e urbanista. São 112 páginas e a maquete da proposta de restauração do prédio da antiga Escola Industrial, monumento histórico há mais de uma década abandonado em pleno centro de Natal.

A monografia da nova arquiteta apresentada à disciplina de Trabalho Final de Graduação, ministrada pelo professor Jefferson de Souza e com a orientação do professor Paulo Heider Forte Feijó obteve a nota máxima da banca julgadora. Não conheço pessoalmente nenhum dos três, mas recebi e-mail sobre o trabalho e percebi a necessidade cada vez maior de se dar divulgação - a UFRN tem meios para tanto – a atividades desse nível que a autora ainda chama de anteprojeto do “Liceu das Artes”. Para mim, não se trata de uma monografia acadêmica ou de anteprojeto. Trata-se, sim, do projeto pronto e acabado para a restauração do prédio que entre outras denominações foi Escola de Aprendizes Artífices, Liceu Industrial e Escola Industrial de Natal – hoje Cefet – Centro Federal de Educação Tecnológica, desde 1967 em seu novo endereço, na Salgado Filho/Bernardo Vieira.

Foi através de um dos três artigos que escrevi neste JH - “A história de ladeira abaixo” – maio de 2004; “Escola Industrial” - maio de 2005 e “Do Liceu ao Cefet” - setembro do ano passado – que a arquiteta Dinara Regina imaginou ter encontrado uma boa fonte para informações sobre a antiga Escola. O que consegui lembrar estava escrito - expliquei através de e-mail – e reconhecia que informações mais precisas em termos de datas, estrutura, a história de forma mais didática poderiam ser obtidas através de outros meios. Os artigos têm mais o sentido de alerta e sentimento de tristeza pelo abandono à qual foi relegado o prédio que nos anos 60 fez parte da minha juventude, competindo em imagem de eficiência com o Atheneu e o Marista que aí estão constituindo motivos de orgulho para os seus ex-alunos, enquanto sentimos vergonha de passar pela avenida Rio Branco, 743,  centro da capital.

Pelo visto, isso foi feito por ela, resultando no trabalho composto por dois volumes, sendo o primeiro dividido em duas partes. Na primeira, faz um histórico da questão preservacionista no Brasil e no mundo, avalia a sua importância; detalha usos e atividades desenvolvidas no prédio ao longo dos anos, as modificações sofridas e  mostra – literalmente, através de farta ilustração - estudos de casos assemelhados. Na segunda, apresenta a proposta de uso, descrevendo a intervenção e expondo soluções para forros, pisos, entre outros. No outro volume, as pranchas contendo o levantamento arquitetônico. É um  trabalho com o antes, o durante (fase atual) e o depois, isto é, o Liceu das Artes em projeção, ou é perspectiva?...

Somente quem estudou ali pode avaliar o esmero e a competência com que essa monografia foi elaborada. Desde as famosas fotografias dos alunos no pátio, na aula de educação física, exposições ou nos preparativos para os desfiles do 7 de setembro, até o atual estado de deterioração.Os objetivos do trabalho foram atingidos pela nova arquiteta, na medida em que propõe uma intervenção que visa a preservação da edificação, conciliando com a criação de um espaço que propicie alternativas de lazer cultural à população. E ela diz esperar que o trabalho venha colaborar com a discussão sobre a preservação do patrimônio histórico da cidade, além de contribuir com o registro documental de um conjunto arquitetônico que hoje se encontra desamparado e que não se sabe até quando irá existir caso continue nesta situação.

Contribuiu e muito, sim. A arquiteta Dinara Regina Azevedo Gadelha resgatou um período importante da nossa história. E me fez lembrar um  jornalista que certa vez entrevistava Madre Teresa de Calcutá. Disse-lhe que, embora admirasse o seu trabalho junto aos pobres e enfermos, considerava que o que ela fazia, diante da imensa necessidade, era como uma gota d´água no oceano. Aquela pequena e sábia-mulher, lhe respondeu: “Sim, meu filho, mas sem essa gota d´água o oceano seria menor”. Assim, quando se falar em restaurar o prédio da antiga Escola Industrial – enquanto ainda é tempo – uma etapa estará vencida: o projeto está pronto nos arquivos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade. Uma gota d´água num oceano de descaso para com um patrimônio da cidade.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 25.06.2007

 

 

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