OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

EM SEARA ALHEIA

            Wellington Medeiros*

 

Faz um ano que neste mesmo espaço, na esteira do lançamento do livro “Memórias Póstumas do Cemitério do Alecrim” e ainda de uma seqüência de falecimentos de pessoas conhecidas, arrisquei falar sobre o tema que, por lembrar morte, somente vejo abordado com naturalidade pelo professor Juarez Chagas, do Centro de Biociências da UFRN. Dois fatos e cá estou de volta. Os 12 anos da morte do meu pai (25/09/1918 - 02/07/1995), notificado na segunda-feira logo cedo por Walter Medeiros que insere estes artigos toda semana no seu www.rnsites.com.br, onde os mantém em arquivo, no link para “Observando”. É que o ex-combatente José Firmino de Medeiros - hoje morando na paz do Cemitério do Alecrim - teve a vida dedicada ao Serviço Público, tema do último artigo. O outro, a notícia sobre a construção de um novo cemitério em Natal.

Após divulgar na rádio CBN a nota sobre a obra da Prefeitura ora em andamento no loteamento Leningrado – zona oeste da cidade – com a construção da capela, centro de velórios, restando os acessos, não consegui segurar e chamei atenção para a expectativa em torno da sua inauguração. Coincidentemente, no dia seguinte, o âncora do “Jornal da CBN”, Heródoto Barbeiro inseria para ilustrar um comentário sobre a crise no Senado, a voz do prefeito Odorico Paraguaçu, personagem interpretada pelo ator Paulo Gracindo, na série “O Bem Amado”, sátira de Dias Gomes aos políticos corruptos produzida nos anos 80 e que tinha como cenário a pacata cidade de Sucupira. A principal obra de Odorico Paraguaçu fora um cemitério que ele não conseguia inaugurar por falta de candidato.

O tema, embora delicado, está no portfólio da agência Armação Propaganda, do publicitário Jener Tinoco que tem como um dos seus cases um cemitério, o Morada da Paz – o primeiro empreendimento privado do setor. É que o Grupo Vila, cerca de meio século de experiência no ramo funerário e proprietário da obra, enfrentava um problema inesperado: o desinteresse dos clientes, apesar da superlotação dos cemitérios públicos de Natal. Seis meses lançado e nenhum lote vendido. A agência procurou um diferencial, apostando num slogan poético – “um jardim para cultivar saudade” e sugeriu que o cemitério fosse tratado como lançamento imobiliário. O resultado foi sucesso de vendas, através da imobiliária Abreu Imóveis, permanecendo até hoje como investimento para o futuro.

Não pretendo enveredar pela Tanatologia - a ciência que estuda a morte – até porque já contamos com um especialista que semanalmente discorre sobre o assunto com profundidade, abordando todos os aspectos biológicos, sociais, psicológicos, emocionais, legais e éticos. Mas, de passagem rápida nesta seara alheia, já percebo, com otimismo, que a duração da vida humana atualmente já é de cerca de 120 anos. Em Natal conheço uma senhora com 103 anos. A professora caicoense aposentada Olívia Pereira Rodrigues, nascida dia 7 de maio de 1904. E alguns centros científicos dedicados ao estudo dos mecanismos de morte trabalham com uma expectativa de levar a vida até os 400 anos. É que alguns trabalhos científicos começam a demonstrar que o processo de envelhecimento que leva à morte não é um processo passivo, mas sim ativo e programado. Nesse tema a ciência vai longe. Ainda bem.

Quando é irreversível, pode ser tratada com bom humor, como fez o americano Patrick Brian Knight, 39 anos, condenado à morte e que às vésperas de ser executado pediu, através de amigos, que enviassem a ele brincadeiras pela Internet, porque queria morrer sorrindo. Condenado pelo seqüestro e assassinato de dois vizinhos em 1991, Knigth foi executado no último dia 26 de junho, no Texas, contando as três melhores piadas: “A morte me libertou. Esta é a melhor piada. A mereço”. A segunda: “Eu não sou Patrick Bryan Knigth, assim devem parar a execução” e a outra, em tom mais sério e dirigindo-se aos responsáveis pela execução: “Em frente. Terminei...”.

Pode até estar nas páginas de um livro que fala da vida, da natureza, da beleza e da arte e fortemente das pessoas que encontra e os amigos que tem por todo o mundo. Trata-se de um texto atribuído a Pablo Neruda, intitulado “Quem Morre?” e inserido no livro “Batendo Asas – onde e como”, de autoria do médico Tarcísio Gurgel de Souza, lançado neste final de semana e que já deve estar nas livrarias. Tarcísio relata a visita que fez em 40 anos a 33 países e, do Chile lembra entre outras coisas o texto de Neruda: “Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo”. Mas, mostra a vacina. O próprio livro “Batendo Asas – onde e como”. E que é  acompanhado de um CD.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 09.07.2007

 

 

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