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Deve-se a um norte-rio-grandense a
instituição, há exatos 54 anos, do Dia do Comerciante,
desde então celebrado no dia 16 de julho. Trata-se do
então presidente do Senado Federal, João Café Filho –
naquele tempo o vice-presidente da República exercia a
presidência do Congresso e do Senado sem ter sido eleito
senador. Promulgou a lei que constituía uma homenagem a
José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairú, político
baiano e senador do Império que exerceu grande
influência junto ao príncipe regente português D. João
VI para que os portos brasileiros fossem abertos para o
comércio com as nações amigas, em 1808.
A partir de então, mesmo sem ser
feriado - não há interesse dos próprios homenageados – a
data é lembrada de uma forma ou de outra, dada a
importância dessa atividade. Na teoria o exercício do
comércio é a troca de bens – mercadorias – e serviços
por dinheiro e, em alguns casos, por outras mercadorias
e o seu desenvolvimento está intimamente ligado à
atuação do comerciante seja na mais modesta bodega ao
luxuoso shopping.
Está entre as atividades que mais de
perto acompanham a evolução e as mudanças econômicas e
sociais. Uma delas, talvez a mais importante, a
automação comercial ocorrida nas duas últimas décadas.
Vai desde a Nota Fiscal Eletrônica, Transferência
Eletrônica de Fundos, Emissor de Cupom Fiscal, comércio
via Internet – o chamado E-commerce – cartões
inteligentes entre tantas outras, tendo como segmento
precursor os supermercados que em Natal só chegaram no
início dos anos 70 com o grupo pernambucano “Minipreço”,
seguindo-se o da terra “Nordestão”.
É também a que sofre com mais
freqüência os efeitos das mazelas sociais e da
impotência do poder público que – olimpicamente ágil na
cobrança de impostos, taxas e contribuições provisórias
que se tornam permanentes - a CPMF, por exemplo - não
consegue dar o mesmo ritmo aos serviços essenciais,
dever do Estado, como a segurança pública. Daí, qualquer
pesquisa sobre os principais problemas que enfrentam no
dia-a-dia apontar a insegurança como a grande
preocupação de dez de cada dez comerciantes consultados.
São assaltos, golpes, trambiques,
dinheiro falsificado, cartões clonados, cheques sem
fundos, fiscais inescrupulosos, transformando muitos
estabelecimentos comerciais em estressante atividade de
risco pela natural facilidade de acesso. Isso vem
fazendo com que muitos desistam no meio do caminho,
outros onerem os custos no item segurança nem sempre tão
seguro assim, enquanto outros chegam a assistir
impotentes, filmagens de assaltos pelas próprias câmeras
que mandam instalar nos seus estabelecimentos.
Há muito tempo – e as entidades da
classe mostram isso – a concorrência pura e simples
deixou de ser a preocupação central nessa atividade
abraçada por verdadeiros heróis. Para isso, recorrem a
visuais modernos, vendedores bem mais especializados e
treinados, campanhas de propaganda bem elaboradas. Nem
mesmo a inflação e até os juros – em boa hora contidos
pelo Real – ou a carga tributária pesada, mas está
embutida no preço final dos produtos consegue superar a
preocupação com a violência endêmica e o crime
organizado.
Neste dia do comerciante, ainda vale
lembrar que passou o tempo em que se entrava na
atividade por intuição, aptidão inata e o comércio era
visto como uma atividade menor desenvolvida por pessoas
sem instrução – estudo, no caso – enquanto a ascensão
social era para os que estudavam e conseguiam um emprego
público, num banco e até nas indústrias. Mesmo sem
observar por esse ângulo, revelo que desde cedo sonhava
com a segunda opção, até mesmo por ter sofrido uma
frustração como comerciante.
Início dos anos 60 e nas folgas,
férias e fins-de-semana era um dos pequenos –
literalmente – vendedores e compradores de revistas no
Cine São Pedro, no Alecrim. Corria frouxo, isto é, não
havia a repressão dos “Comissários de Menores” existente
em outros cinemas. Certo dia, entendo de após fazer
negócios no São Pedro, assistir o filme no São Luiz,
localizado a um quarteirão. Não deu outra. Um comissário
tomou-me as revistas a maioria tendo na capa os caubóis
Rock Lane, Rex Allen, Roy Rogers, Buck Jones, Hopalong
Cassidy, Gene Autry, Mandrake, Capitão Marvel – e um
quadradinho num canto com a inscrição censura 14 anos.
Tinha 13 e alguns meses e de nada adiantaram os apelos.
Exerci como amador o jornalismo investigativo. Descobri
que os comissários as vendiam ou levavam para eles e os
filhos lerem em casa. Tempos depois, já como jornalista
assistindo a outros filmes vim a acreditar que as
semelhanças não são meras coincidências.
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