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Na sessão memória viva, em recente
conversa com o engenheiro Carlos Theodorico de Carvalho
Bezerra, diretor-geral do Detran, terminávamos por
lembrar o majó Theodorico Bezerra, avô dele e
proprietário do primeiro veículo de comunicação em que
trabalhei – o Jornal do Comércio (só com um “m” uma vez
que em meados dos anos 60, já existia também o Jornal do
Commercio do Recife). É que por pouco não cheguei a ser
promovido na época a secretário do Majó, substituindo a
João Bosco que enfrentava problemas de saúde.
Durante a conversa que tive com o
Majó, encaminhado pelo diretor do jornal, Adauto Sá
Leitão coloquei um empecilho que deve ter pesado - além
da pouca idade – o de estar dividindo o trabalho no
jornal com o estudo de Técnico em Mineração, na primeira
turma da Escola Técnica Federal. Por coincidência,
Carlos Theodorico tem na sala de trabalho dele uma
fotografia tirada durante um evento do Programa
Educacional de Resistência às Drogas e à Violência e que
é coordenado na Polícia Militar por uma militar
graduada, filha de João Bosco, já falecido.
Hoje, 23 de julho, se vivo fosse, o
Majó Theodorico Bezerra estaria completando 104 anos de
idade. Falecido em 04 de setembro de 1994, aos 93 anos,
durante muitos anos dividiu as atenções entre a política
– era deputado federal e presidente do PSD – o Grande
Hotel, a Fazenda Irapuru, no município de Tangará e os
veículos de comunicação rádio Trairy e Jornal do
Comércio, a primeira funcionando no Grande Ponto
(esquina da Praça Kennedy) e o jornal na Ribeira,
esquina com o hotel. Na rádio só fazia uma exigência:
que a programação fosse aberta apresentando o canto de
pássaros – havia um LP especial que gorjeava diariamente
durante meia hora - e no jornal a cobertura aos amigos e
correligionários pessedistas.
Anualmente, era praxe o Majó oferecer
um jantar de confraternização ao pessoal do jornal - do
diretor ao contínuo – na Peixada da Comadre, ainda nas
proximidades do Canto do Mangue. O jornal tinha
aniversário no dia 25 de agosto - Dia de Caxias – e
conseguia produzir uma edição com cerca de cem páginas,
um marco naquela época, graças ao apoio do comércio que
o jornal ostentava no próprio título. Embora ainda não
existissem as agências de publicidade, havia um
corretor, José Gomes que valia por uma dezena delas.
José Gomes, depois se dedicou também com sucesso ao
mercado imobiliário.
O Majó ainda deixou grande parte da
vida gravada em filme, através do vídeo “Theodorico, o
Imperador do Sertão”, produção do Globo Repórter de 1978
com a duração de 48 minutos e também no livro “Resgate
da memória política”, de João Batista Machado e
“Dicionário Político do RN Contemporâneo”, de François
Silvestre. Ambos devem ter testemunhado muitos fatos da
vida do Majó, mas certamente não participaram já nos
anos 77/78 dos cafés-da-manhã no Grande Hotel. Era o que
fazíamos eu e o locutor José Carlos Oliveira, depois do
jornal da manhã da rádio Cabugi. E lá encontrávamos
muitas vezes o Majó na cozinha orientando os cozinheiros
e garçons para em seguida se dirigir às mesas para
cumprimentar hóspedes e usuários.
Determinado, não tinha meias palavras
para tomar posição sobre qualquer tema. O programa de
emergência - o bolsa família de hoje – era um exemplo.
Foi severo crítico, pois avaliava que além de viciar o
homem do campo, muitos recebendo dinheiro sem trabalhar,
ainda complicava a vida dos fazendeiros, uma vez que a
mão-de-obra estava “empregada”, isto é, os trabalhadores
rurais temiam aceitar trabalho nas fazendas e serem
cortados da chamada emergência. Avesso à preguiça, um
dos mandamentos dos seus moradores: É proibido inventar
doença para não trabalhar.
E entre os ensinamentos que deixou
como filósofo sertanejo aconselhava os amigos - na sua
maioria pessoas influentes – a aproveitarem a vida
enquanto pudessem. E vaticinava: “Quando se morre,
muitos vão ao enterro e uns até choram. Já na missa de
7º dia estão lá a família, os amigos e alguns deles
ficam conversando na calçada e na de 30º dia ainda vai a
viúva, alguns familiares, muito poucos amigos e a partir
daí esquecem da gente...”. O Majó aproveitou bem a vida,
inclusive em diversas viagens ao exterior e que na volta
documentava em longas entrevistas à rádio Trairy e
fotografias mostradas nas colunas sociais. E é lembrado,
embora para isso tenha que ser promovido – por
merecimento - como o mais importante coronel da política
do Rio Grande do Norte.
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