OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

GRITO QUE INCOMODA

            Wellington Medeiros*

 

Se o aplauso e a vaia são manifestações extremamente opostas e a convergência é simbolizada pelo abraço coletivo, no Rio Grande do Norte outra forma se tornou conhecida pelo inusitado - o grito - que embora possa lembrar um episódio do Brasil colonial, nos últimos anos foi uma marca inseparável do recém falecido deputado federal Nélio Dias, mentor do “Grito da Seca” cujo objetivo era chamar atenção para a grave situação do homem do campo no Rio Grande do Norte. Tanto é que o movimento liderado pelo parlamentar agropecuarista quando ainda era o presidente da Associação dos Criadores de Ovinos e Caprinos do Sertão do Cabugi – Acosc - está sendo lembrado em todas as homenagens que lhes são prestadas.

Todas essas expressões populares estiveram presentes em fatos recentes, a começar pelos Jogos Pan-americanos, abertos com uma sonora vaia no presidente Lula, seguindo-se por dias sucessivos de aplausos aos atletas brasileiros que bateram o recorde em medalhas - 161. Em seguida, o abraço ao rio Potengi, com dezenas de pessoas dando-se as mãos em protesto unânime pelo maior desastre ecológico já ocorrido no Estado. Por último, o grito da cidadania, numa marcha que reuniu centenas de pessoas para manifestar a indignação da sociedade com os fatos apurados pela Polícia Civil e Ministério Público na “Operação Impacto”, envolvendo vereadores natalenses na suspeita da prática de corrupção.

Quem se aprofundar um pouco mais em qualquer um desses fatos, irá observar que em todos, sem exceção, está presente o que se poderá chamar o grito que incomoda: é o trabalho incansável e diuturno de uma instituição chamada Ministério Público. Se o presidente Lula tem hoje a imagem arranhada e desgastada deve-se, entre outros fatores, ao trabalho vigilante do Ministério Público na apuração de fatos que chocam a opinião pública - o apagão aéreo, por exemplo - e ele sempre insiste em dizer nada saber. O rio Potengi, esse nem se fala. E se falar, não se pode esquecer o trabalho da Promotora Rossana Sudário e os famosos ajustamentos de conduta para os poluidores. E por último, o impacto que causou na sociedade ao começar a ver aberta a caixa preta de uma tragédia, ou o caixa-voto na Câmara de Vereadores.

Um antigo provérbio – “por falta de um grito se perde uma boiada” – se por um lado pode ter inspirado o “Grito da Seca”, com certeza é o que também começa a mover o Ministério Público do Rio Grande do Norte em apoiar de forma decisiva o Conselho Regional de Medicina Veterinária na ação que visa à melhoria dos matadouros públicos, na sua grande maioria funcionando de forma precária. Esses matadouros representam sério risco à saúde pública – mais de 30 doenças são transmissíveis via carne contaminada, pelos cálculos dos veterinários – e são ameaças permanentes ao meio ambiente, uma vez que os dejetos são atirados nos rios e córregos próximos à região em que estão instalados ou simplesmente deixados para apodrecer ao ar livre, sem qualquer tipo de tratamento.

Há uma semana, o Procurador Geral de Justiça, José Augusto Peres Filho, fez uma visita de cortesia ao presidente do CRMV-RN, médico veterinário Francisco Ferreira Lima, após tomar conhecimento de uma vistoria feita a matadouros públicos de diversas regiões do Estado. Tinha razão de ser. Antes, como Promotor de Defesa do Consumidor, o atual Procurador fora testemunha e parceiro do trabalho do Conselho dos Veterinários nessa linha e as dificuldades relatadas. Agora, à frente da PGJ chegou a externar numa entrevista à repórter Érika Zuza, da TV Tropical, que nesse trabalho o Conselho terá o total apoio do Ministério Público.

A questão dos matadouros públicos vem-se constituindo em alerta permanente do CRMV-RN, a partir de Natal, onde uma Comissão Especial formada na Câmara Municipal constatou que “a sorte nossa é que 70% da carne aqui consumida vêm de fora”. Os 30% restantes são oriundos do “frigomatos”, responsáveis pela disseminação de inúmeras doenças. Os alertas estão feitos. O grito está dado. As zoonoses, doenças como a tuberculose, brucelose, raiva, cisticercose – uma fase intermediária da “solitária” que se instala no cérebro das pessoas provocando cegueira, surdez e outros distúrbios neurológicos - podem ser transmitidas pela carne. Aliás, não duvidemos se alguns desses distúrbios já não estiverem instalados cabeça de muitos políticos. E a cisticercose provoca, entre outras zoonoses, alteração do comportamento humano. Faz sentido.  

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 06.08.2007

 

 

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