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Se o aplauso e a vaia são
manifestações extremamente opostas e a convergência é
simbolizada pelo abraço coletivo, no Rio Grande do Norte
outra forma se tornou conhecida pelo inusitado - o grito
- que embora possa lembrar um episódio do Brasil
colonial, nos últimos anos foi uma marca inseparável do
recém falecido deputado federal Nélio Dias, mentor do
“Grito da Seca” cujo objetivo era chamar atenção para a
grave situação do homem do campo no Rio Grande do Norte.
Tanto é que o movimento liderado pelo parlamentar
agropecuarista quando ainda era o presidente da
Associação dos Criadores de Ovinos e Caprinos do Sertão
do Cabugi – Acosc - está sendo lembrado em todas as
homenagens que lhes são prestadas.
Todas essas expressões populares
estiveram presentes em fatos recentes, a começar pelos
Jogos Pan-americanos, abertos com uma sonora vaia no
presidente Lula, seguindo-se por dias sucessivos de
aplausos aos atletas brasileiros que bateram o recorde
em medalhas - 161. Em seguida, o abraço ao rio Potengi,
com dezenas de pessoas dando-se as mãos em protesto
unânime pelo maior desastre ecológico já ocorrido no
Estado. Por último, o grito da cidadania, numa marcha
que reuniu centenas de pessoas para manifestar a
indignação da sociedade com os fatos apurados pela
Polícia Civil e Ministério Público na “Operação
Impacto”, envolvendo vereadores natalenses na suspeita
da prática de corrupção.
Quem se aprofundar um pouco mais em
qualquer um desses fatos, irá observar que em todos, sem
exceção, está presente o que se poderá chamar o grito
que incomoda: é o trabalho incansável e diuturno de uma
instituição chamada Ministério Público. Se o presidente
Lula tem hoje a imagem arranhada e desgastada deve-se,
entre outros fatores, ao trabalho vigilante do
Ministério Público na apuração de fatos que chocam a
opinião pública - o apagão aéreo, por exemplo - e ele
sempre insiste em dizer nada saber. O rio Potengi, esse
nem se fala. E se falar, não se pode esquecer o trabalho
da Promotora Rossana Sudário e os famosos ajustamentos
de conduta para os poluidores. E por último, o impacto
que causou na sociedade ao começar a ver aberta a caixa
preta de uma tragédia, ou o caixa-voto na Câmara de
Vereadores.
Um antigo provérbio – “por falta de
um grito se perde uma boiada” – se por um lado pode ter
inspirado o “Grito da Seca”, com certeza é o que também
começa a mover o Ministério Público do Rio Grande do
Norte em apoiar de forma decisiva o Conselho Regional de
Medicina Veterinária na ação que visa à melhoria dos
matadouros públicos, na sua grande maioria funcionando
de forma precária. Esses matadouros representam sério
risco à saúde pública – mais de 30 doenças são
transmissíveis via carne contaminada, pelos cálculos dos
veterinários – e são ameaças permanentes ao meio
ambiente, uma vez que os dejetos são atirados nos rios e
córregos próximos à região em que estão instalados ou
simplesmente deixados para apodrecer ao ar livre, sem
qualquer tipo de tratamento.
Há uma semana, o Procurador Geral de
Justiça, José Augusto Peres Filho, fez uma visita de
cortesia ao presidente do CRMV-RN, médico veterinário
Francisco Ferreira Lima, após tomar conhecimento de uma
vistoria feita a matadouros públicos de diversas regiões
do Estado. Tinha razão de ser. Antes, como Promotor de
Defesa do Consumidor, o atual Procurador fora testemunha
e parceiro do trabalho do Conselho dos Veterinários
nessa linha e as dificuldades relatadas. Agora, à frente
da PGJ chegou a externar numa entrevista à repórter
Érika Zuza, da TV Tropical, que nesse trabalho o
Conselho terá o total apoio do Ministério Público.
A questão dos matadouros públicos
vem-se constituindo em alerta permanente do CRMV-RN, a
partir de Natal, onde uma Comissão Especial formada na
Câmara Municipal constatou que “a sorte nossa é que 70%
da carne aqui consumida vêm de fora”. Os 30% restantes
são oriundos do “frigomatos”, responsáveis pela
disseminação de inúmeras doenças. Os alertas estão
feitos. O grito está dado. As zoonoses, doenças como a
tuberculose, brucelose, raiva, cisticercose – uma fase
intermediária da “solitária” que se instala no cérebro
das pessoas provocando cegueira, surdez e outros
distúrbios neurológicos - podem ser transmitidas pela
carne. Aliás, não duvidemos se alguns desses distúrbios
já não estiverem instalados cabeça de muitos políticos.
E a cisticercose provoca, entre outras zoonoses,
alteração do comportamento humano. Faz sentido.
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