OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

O JOVEM E O TRÂNSITO

            Wellington Medeiros*

 

Quem passou neste sábado logo cedo pelo início do viaduto do Quarto Centenário, no sentido Parnamirim/Natal - fui um deles - presenciou o que deve ter sido o maior engavetamento de veículos já ocorrido naquele trecho da BR-101. Foram sete automóveis das mais diversas marcas, enganchados e nas mais diferentes posições, enquanto alguns rapazes, sempre com os celulares nos ouvidos, estiravam a mão tentando “orientar o trânsito”, que começou o dia com enorme engarrafamento devido à operação para separar os veículos acidentados. Antes de chegar a este engavetamento, outro acidente em menores proporções, poucos metros antes, no início da subida, na saída da marginal após o Via Direta já alertava os motoristas.

Os dois acidentes, envolvendo uma dezena de veículos, no mesmo trecho da BR numa hora de reduzido movimento, demonstram o excesso de velocidade e os riscos a que estão sujeitas as pessoas que nada têm a ver e nem contribuem para esse tipo de transtorno. Isso ocorre no momento em que começa a ser intensificada a campanha publicitária do Ministério da Saúde para conscientizar a sociedade sobre os riscos do consumo excessivo de bebidas alcoólicas. São três propagandas enfocando o uso cada vez maior de álcool entre adolescentes e a relação direta entre bebida alcoólica, violência e acidentes de trânsito. A campanha se encaixa no tema da Semana Nacional de Trânsito, daqui a um mês e que elegeu o tema “O jovem e o trânsito” e que terá o slogan “jovem: paz e amor no trânsito”.

A campanha, além do alerta serve também de contraponto às propagandas de automóveis também exibidas na televisão até com mais intensidade, com estímulos fortes à velocidade nas ruas e à imprudência ao volante. Tais peças promocionais induzem a pelo menos uma infração gravíssima de trânsito: “Utilizar-se de veículo para, em via publica, demonstrar ou exibir manobra perigosa, arrancada brusca, derrapagem ou frenagem com deslizamento ou arrastamento de pneus” (Art. 175 do Código de Trânsito). Enquanto o ato de dirigir requer segurança, conscientização, responsabilidade e autocontrole emocional, os veículos são mostrados como aventura, modo de usufruir tudo que o status ou a potência do carro oferecem. Uma dessas peças que estão por aí mostram simplesmente a direção e um velocímetro registrando 220 km por hora.

Os jovens de todo o mundo, daí a preocupação da ONU - Organização das Nações Unidas e da Organização Mundial de Saúde, compõem o grupo mais vulnerável e de maior exposição ao risco de mortes e acidentes de trânsito, uma vez que circulam como pedestres, ciclistas, motociclistas, condutores e principalmente passageiros. E de acordo com especialistas, as condições emocionais específicas da adolescência, como a necessidade de auto-afirmação, competitividade, exibicionismo, onipotência, busca de intensas e prazerosas sensações, em conjunto com a bebida alcoólica, fazem do jovem um forte candidato ao grupo de risco de acidentados no trânsito. As altas velocidades e especialmente os “rachas” são um exemplo desse comportamento.

A BR-101, na travessia de Natal - local das batidas - recebeu desde o final do ano uma moderna sinalização rodoviária. Placas de películas refletivas de alta intensidade, pórticos, painéis eletrônicos com mensagens educativas, além de fiscalização ostensiva com radares móveis para tentar reverter os altos índices de acidentes. No trecho considerado mais perigoso, que começa ao lado do Machadão e termina no viaduto de Parnamirim, via-se a presença ostensiva dos patrulheiros rodoviários federais com os radares móveis. Os motoristas obedeciam aos limites de 60 km para caminhões e ônibus e 80 km para automóveis. Percebendo que os radares desapareceram, virou rotina alguns motoristas apontarem para as placas enquanto outros tentam ultrapassagens com velocidades bem maiores.

Até agora está provado que as campanhas educativas de trânsito bem elaboradas surtem efeito somente durante a execução. Depois, caem no esquecimento e até que surja outra, volta tudo a correr frouxo. Apesar das multas pesadas, é rotina para quem entra no trânsito logo cedo, enfrentar pessoas embriagadas dirigindo e acidentes que colocam em risco a vida de pedestres e também de outros motoristas. Os acidentes deste sábado vieram provar mais uma vez que a BR-101 entre Natal e Parnamirim é a rodovia federal mais perigosa do Estado. E não se trata de rodovia velha e esburacada, de traçado perigoso, estreita ou má sinalizada. Nem porque estamos em agosto. É porque vivemos no país da impunidade.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 20.08.2007

 

 

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