OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

OS ANIMAIS E A POLÍTICA

            Wellington Medeiros*

 

A passagem ontem, 9 de setembro, do Dia do Médico Veterinário encerrou uma semana em que os animais nunca estiveram tão em evidência. De um lado os veterinários, comemorando o seu dia amparados no slogan “Deus criou... Noé protegeu... o Médico Veterinário multiplicou.”, de outro a discussão na Comissão de Ética do Senado sobre a prodigiosa atividade de pecuarista do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), acumulando nos últimos quatro anos R$ 1,9 milhão em rendimentos com vendas de gado. E de quebra, o presidente Lula cunhando mais uma frase, desta feita falando em “aves de mau agouro”.

No Senado, em dado momento, a discussão em torno do processo do senador alagoano, mais parecia uma conversa de porteira de fazenda, quando o colega e escudeiro Almeida Lima (PMDB-SE) descrevia com detalhes a questão das GTAs - guias de trânsito animal – em plena Comissão de Ética da casa. Só não conseguia explicação para o rendimento exorbitante auferido pelos rebanhos do Dr. Renan que, de acordo com especialistas, foram vendidos por valores capazes de fazer inveja aos campeões de produtividade nessa área. Talvez essa lucratividade tenha levado o publicitário Marcos Valério a também mudar de ramo: agora é fazendeiro em Minas Gerais.

Que os animais fossem lembrados pelos médicos veterinários tudo muito natural. São esses profissionais que cuidam de todos eles e fizeram registrar no seu dia que são também responsáveis pelo crescimento do agronegócio, pela garantia da qualidade dos alimentos de origem animal e sempre presentes na defesa do meio ambiente - a questão dos matadouros públicos é um exemplo. Mas, o gado bovino ganhou uma superexposição – as notícias e as charges estão estampadas em quase todos os jornais - notoriedade que anteriormente não chegou sequer a credenciá-lo para ilustrar as cédulas do Real que, por coincidência, têm tudo a ver com o mundo animal.

Basta mexer no bolso ou na carteira para se encontrar no anverso das cédulas a Garoupa (R$ 100,00); Onça Pintada (R$ 50,00); Mico-leão-dourado (R$ 20,00); Arara ( 10,00);Garça (R$ 5,00); Tartaruga de pente (R$ 2,00) e o Beija-Flor (R$1,00). Esta última semi-desaparecida - tanto o pássaro como a cédula - recolhida pelo Banco Central para substituição por moedas. A decisão do BC de substituir as notas de R$ 1 por moedas do mesmo valor não tem como motivação apenas a redução de custos. Também é uma questão de saúde, diz o chefe do Departamento do Meio Circulante do BC, João Sidney Figueiredo Filho. Como se desgastam demais e os hábitos de higiene da população não são os mais desejáveis, as notas acabam se transformando em depósitos de bactérias e focos de transmissão de doenças. As moedas, por sua vez, minimizam esses riscos, pois os metais têm atividade antimicrobiana.

Ao lembrar “aves de mau agouro”, exato na semana dos médicos veterinários, o presidente Lula tentava atingir a oposição, mas faltou lembrar a ele que os similares desses animais que emporcalham o cenário político são, na verdade, os seus correligionários do PT, muitos já semi-enjaulados pelo Supremo Tribunal Federal e todos foram – para plagiar o slogan dos veterinários – criados, protegidos e multiplicados nesses últimos quatro anos e meio. Não se conhece um só processo envolvendo essa quadrilha – a qualificação foi dada pelo Supremo – que tenha sido produzido pela oposição. Todos nasceram, cresceram e viraram aves de rapina sob o manto protetor da “Arca do Lula”.

Para completar a semana dos médicos veterinários, ocorreu o lançamento do filme “Vira-lata” (Underdog em inglês), comédia da Disney que conta a história de um cachorro com superpoderes. É inspirado em um desenho animado da televisão norte-americana dos anos 60. Depois de um acidente no misterioso laboratório de um cientista maníaco, um cachorro comum inesperadamente adquire poderes inigualáveis e a capacidade de falar e voar. Sempre vestindo uma blusinha vermelha e uma capa azul o “Vira-Lata” promete proteger os cidadãos em perigo de Capitol City. Qualquer semelhança com o Super-Homem não é coincidência, é gozação mesmo, diz a sinopse do filme. Se demorar muito em cartaz, o título poderá até ser usado como apelido por algum candidato preocupado em melhorar o nível e a imagem da política brasileira. E o slogan pode ser o mesmo do filme: “O mal será lambido”.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 10.09.2007

 

 

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