OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

NOVO RUMO

            Wellington Medeiros*

 

Em meio à seqüência quase diária de fatos negativos que envolvem a área da saúde, custa acreditar – excetuando-se os hospitais da rede privada – que algo possa ser encontrado e classificado no patamar de excelência e mais ainda, envolvendo a doença chamada câncer e para completar em crianças. Pois existe. Nem é do setor público, nem tem fins lucrativos e funciona na Rua Clementino Câmara, 234 – Barro Vermelho, em Natal. Trata-se da Casa Durval Paiva de Apoio à Criança com Câncer - CACC. Sem cobrar nada, hospeda, transporta, alimenta, doa roupas, calçados e brinquedos, cestas básicas, auxílio para aquisição de medicamentos, passagens e próteses e também tratamento odontológico, psicológico, atividades sócio-educativas e de lazer.

Foi nesse endereço que no final de semana o diretor fundador Rilder Campos reuniu a equipe multidisciplinar – assistentes sociais, psicólogo, dentista, nutricionista, professora – além de funcionários e voluntários dedicados à causa, para anunciar a criação do projeto Novo Rumo. É o resultado de uma parceria com a empresa de cosméticos Avon, representada pela gerente de vendas Fabiene de Araújo Dantas, que entre 600 projetos de todo o país, escolheu três a serem financiados através do fundo Viva o Amanhã. O Novo Rumo vai oferecer vagas para 270 mães, capacitando-as para a geração de renda, conciliando com o tratamento do filho e minimizando situações de carência.

É natural que a mãe seja o ente mais envolvido, física e emocionalmente, no enfrentamento de caso de câncer em se tratando de paciente ainda criança. Durante o tratamento são muitas as mudanças físicas e emocionais, as dúvidas acerca da possibilidade de cura, enfim inseguranças que causam traumas físicos e psicológicos. Daí, a atenção também se voltar para minimizar o estresse não só da criança, mas através da humanização no atendimento ao familiar mais próximo. O Novo Rumo é, segundo Rilder Campos, mais uma vitória nesses 12 anos da CACC, hoje amparando cerca de 500 crianças e adolescentes carentes portadores de câncer. O incentivo promovido pela Avon vai se somar à Petrobras, Banco do Brasil e Banco do Nordeste que ao lado do grupo de 200 voluntários mantém a Casa.

A estrutura, que foi detalhadamente mostrada a mim, ao jornalista Walter Medeiros e ao locutor Betânio Bezerra pela gerente, a assistente social Neide Maria Filha, atesta porque a instituição preencheu todos os critérios para a seleção da exigente Avon. Dependências amplas e bem cuidadas a partir dos alojamentos, salas do Serviço Social – primeiro contato com o “hóspede”, onde é feita a entrevista inicial – de Psicologia, Odontológico, Pedagógico, de Arte, Recanto Cultural “Viva a Leitura”, Sala de Informática, Refeitório, além de Auditório e lojinha para a venda de camisetas e artigos manuais produzidos na Oficina de Artes. Embrião do projeto Novo Rumo, a Oficina surgiu como atividade atenuante ao estresse ocasionado pela realidade cotidiana: exames, diagnósticos, esperas, hospitais, internações... Mas, me chamou atenção um trecho do site da CACC, no qual um artigo sobre Passeio Terapia, onde a pedagoga Andréia Gomes da Silva conclui que acontece uma grande interação entre eles. Brincam, jogam, conversam e aprendem uns com os outros e os responsáveis também e percebe-se que eles compartilham suas experiências de vida e se solidarizam.

Dão exemplo como o dessa história: Há alguns anos, nas olimpíadas especiais de Seattle, também chamada de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental ou física, alinharam-se para a largada da corrida dos 100 metros rasos. Ao sinal, todos partiram não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar. Todos, exceto um garoto que tropeçou no piso, caiu rolando e começou a chorar. Os outros oito ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás.. Viram o garoto no chão, pararam e voltaram. Todos eles!

Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou-se, deu um beijo no garoto e disse: "pronto, agora vai sarar". E todos os nove competidores se deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. O estádio inteiro levantou e não tinha um único par de olhos secos. E os aplausos duraram longos minutos. As pessoas que estavam ali, naquele dia, repetem essa história até hoje. Por quê? Porque, lá no fundo, nós sabemos: o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho, é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir o passo e mudar de curso.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 24.09.2007

 

 

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