OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

IMPÉRIO DA LEI

            Wellington Medeiros*

 

Em janeiro, ao escrever que “2007 está sendo desenhado como o ano da Justiça”, não esperava tanto em tão pouco tempo. Argumentava com fatos concretos - a entrada em vigor da súmula vinculante em nível nacional e o pauta zero do Judiciário estadual, entre outros. Duas decisões adotadas no final de agosto e na semana passada pelo Supremo Tribunal Federal bastaram para dar os contornos desse desenho ao mostrar - ao vivo e em cores - a decência e a ética se sobrepondo ao quadro lambuzado pela corrupção e até então pela impunidade. Dia 29 de agosto, após cinco sessões consecutivas, a presidente do STF, ministra Ellen Gracie, anunciava o recebimento das denúncias contra os 40 acusados do “mensalão”, todos agora transformados em réus. Na semana passada, a mesma Corte decidiu pela fidelidade partidária, isto é, acabando com o troca-troca de partidos pelos atores políticos. Tudo sob o império da lei.

As decisões do Supremo Tribunal Federal direcionadas aos outros dois poderes mostraram a força da Justiça. Na primeira, ao Executivo e ao Partido dos Trabalhadores agora respondendo, de fato e de direito, por corrupção ativa, passiva, gestão fraudulenta de instituição financeira, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha e peculato, no maior escândalo da história do Brasil. Na outra, ao Legislativo, com a imagem desgastada pelo descrédito generalizado, conforme recente pesquisa da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), mostrando que 81% da população não confiam em seus representantes. Quanto às instituições, 80%, por exemplo, não confiam no Senado sob a presidência de Renan Calheiros. Em meio à decepção e ao desencanto, as Forças Armadas estão entre as instituições melhor avaliadas, com 74,7%, vindo em primeiro a Polícia Federal, com 75,5%. Nesse caso, é a credibilidade da justiça da força.

Se tudo isso ocorreu num curto espaço, levando-se em conta os parâmetros históricos, deve-se à vigilância de outros segmentos sempre bem avaliados em todas as pesquisas de opinião: o Ministério Público e a Imprensa. Ambos têm contribuído de forma decisiva na luta contra a corrupção e a impunidade. É certo que todos, indistintamente, têm contado com um novo fator: a evolução tecnológica. São os tempos do computador ao invés da máquina de datilografia; da mensagem - e-mail - em tempo real, no lugar do telegrama; do telefone celular, das tele audiências e da digitalização dos processos. Mesmo assim, a Justiça é morosa e chega a ser associada a uma tartaruga. Essa constatação foi feita em outra pesquisa, também para a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e feita pelo Ibope.

Outras ferramentas também dão mais transparência aos poderes Judiciários e Legislativos: a televisão e a internet. As transmissões em tempo real das sessões do Supremo Tribunal Federal, do Tribunal Superior Eleitoral e dos tribunais estaduais, os sites com os cidadãos tendo acesso à movimentação - ou a paralisação - dos seus processos. As TVs Senado, Câmara Federal, Assembléia Legislativa e Câmara Municipal, a exibir parte – o plenário - do trabalho legislativo têm servido para que o povo avalie melhor o desempenho dos seus parlamentares – os formuladores das leis – e dos magistrados, os responsáveis por fazê-las cumprir. Estes, muitas vezes acusados de lentidão, fato que atribuem às brechas da lei, entre estas os embargos que transformam os processos em verdadeiros monstrengos jurídicos.

Recentemente, ao ser indagado sobre “Qual a causa da morosidade da Justiça”, o ex-ministro Maurício Corrêa, não vacilou e respondeu:  - “O governo. Pelo menos 80% das causas são provocadas pelo poder público, que contesta com recursos infindáveis, direitos de empresas e cidadãos que já estão mais que assegurados. Tem advogado que faz 50 recursos de uma causa que já perdeu”. Nessa mesma linha, o ministro José Augusto Delgado, norte-rio-grandense e membro do Superior Tribunal de Justiça, STJ, em entrevista à revista jurídica Consulex, acredita que “a melhora do sistema recursal brasileiro só se concretizará quando for assentada uma mentalidade jurídica de que o processo deve servir ao cidadão”. Nos sites da Justiça, incluindo o do STJ, o cidadão é estimulado a procurar os seus direitos, embora não tenham explicações para quem procurou e se vê diante de uma conhecida frase: “Na justiça o problema não é entrar. O problema é sair”.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 08.10.2007

 

 

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