OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

PROGRAMA DE FINADOS

            Wellington Medeiros*

 

A semana começa sob a expectativa de um feriadão a começar na sexta-feira provocado pelo Dia de Finados e que, diferente dos demais, sempre foi marcado pela reflexão e até pela tristeza, mas ao longo dos anos passou a ser visto como um feriado qualquer, com direito ao estímulo de promoções, em especial na área do turismo. É por isso que os hotéis já comemoram um aumento significativo nas reservas, tendo ainda como forte aliado o tempo em Natal que vem se mantendo firme nos últimos dias.

O comércio não deixa por menos e alguns segmentos crescem o faturamento até sexta-feira 02/11, como o de arranjos de flores, velas, tintas e até lanches, pois muitos aproveitam a data para pequenos reparos e limpeza dos túmulos. Este ano, a Prefeitura foi além da limpeza e pequenos consertos na iluminação, promoveu a elevação nas ruas, no muro e melhorou a segurança, tendo ainda pintado painéis com flores nas proximidades da entrada do cemitério do Alecrim – o mais conhecido e visitado da capital.

Enquanto a Prefeitura pinta por fora, por dentro uma constatação: não há vagas. Os cemitérios públicos de Natal estão numa situação delicada, pela inexistência de espaços para novos enterros. Hoje, quando se anuncia um sepultamento no Alecrim, com certeza restos mortais serão removidos para o ossuário – dependência no próprio túmulo – muitos deles com até mais de uma dezena de inquilinos, sempre pessoas de uma mesma família. O próximo cemitério público está sendo construído no bairro Planalto, numa área de 600 hectares, com cerca de três mil vagas.

Até a conclusão – e a inauguração à qual ninguém se habilita – o slogan do sabonete vai sendo emprestado à Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, administradora dos cemitérios e a quem compete atender a procura da população. É que mesmo assim todos os mortos são enterrados, embora para isso as próprias ruas dos cemitérios que deveriam servir de passagem para os vivos – no do Bom Pastor, por exemplo - há muito tempo são usadas para os homenageados deste dia 2 de novembro. A tradição de reverenciar os mortos vem, oficialmente, desde o século X, quando o Dia de Finados foi instituído oficialmente pelo Papa.

Por isso, a Igreja reserva um lugar importante aos mortos durante a missa. Trata-se do memento – não confundir com momento. Memento (significa lembrança) é aquele momento em que se reza pelos falecidos e no dia de finados os padres celebram até três missas em sufrágio da alma dos falecidos. Outras religiões também aproveitam o feriado para visitar os cemitérios, a exemplo dos protestantes e espíritas, estes promovendo a distribuição de panfletos, explicando que Finados não deve ser um dia triste. Para eles é um momento de esperança. Afirmam sentir a separação, mas acreditam que a vida não acaba aqui, no plano material. Contrariando o pensador Epicuro: “A morte não nos importa. Enquanto existimos, a morte não existe, e quando ela chega, não existimos nós”.

“Pensando bem – já dizia o filósofo pessimista Arthur Shopenhauer (1788-1860) – parece ridículo que a gente se preocupe com um espaço de tempo tão curto. Temer tanto, quando nossa vida ou a de outra pessoa se encontra em perigo, ou situar na tragédia o terror dramático causado pela morte, é uma coisa pouco séria”. Como brinca a ex-chacrete e estrela do filme “Rita Cadillac, a Lady do Povo”: “Quero ser enterrada de bruços para que o povo me reconheça”.

Na sua obra “O Mundo Como Vontade de Representação”, Shopenhauer disse a certa altura “Admito que se o terror da morte se deve à idéia que temos do “não-ser”, igual terror nos deveria dominar ao pensarmos na época em que ainda não existíamos, pois não há dúvida de que o “não-ser” que se segue à morte não pode ser diferente do “não-ser” que precede a vida e, portanto, não pode ser mais temível”.

E mais: “Enquanto não existíamos, a eternidade seguia seu curso. Isto, porém, não nos assusta. O que achamos cruel e insuportável é o pensamento de que depois do curto interregno desta existência efêmera, deve vir uma segunda eternidade, durante a qual também não existimos”.

Portanto, nesse interregno o ideal é viver intensamente – hoje em reverência, reflexão, orações ou até mesmo se divertindo num programa elaborado para o feriadão – mas de alguma forma cultuando a memória daqueles que foram antes de nós.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 29.10.2007

 

 

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