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A semana começa sob a expectativa de um feriadão a
começar na sexta-feira provocado pelo Dia de Finados e
que, diferente dos demais, sempre foi marcado pela
reflexão e até pela tristeza, mas ao longo dos anos
passou a ser visto como um feriado qualquer, com direito
ao estímulo de promoções, em especial na área do
turismo. É por isso que os hotéis já comemoram um
aumento significativo nas reservas, tendo ainda como
forte aliado o tempo em Natal que vem se mantendo firme
nos últimos dias.
O comércio não deixa por menos e alguns segmentos
crescem o faturamento até sexta-feira 02/11, como o de
arranjos de flores, velas, tintas e até lanches, pois
muitos aproveitam a data para pequenos reparos e limpeza
dos túmulos. Este ano, a Prefeitura foi além da limpeza
e pequenos consertos na iluminação, promoveu a elevação
nas ruas, no muro e melhorou a segurança, tendo ainda
pintado painéis com flores nas proximidades da entrada
do cemitério do Alecrim – o mais conhecido e visitado da
capital.
Enquanto a Prefeitura pinta por fora, por dentro uma
constatação: não há vagas. Os cemitérios públicos de
Natal estão numa situação delicada, pela inexistência de
espaços para novos enterros. Hoje, quando se anuncia um
sepultamento no Alecrim, com certeza restos mortais
serão removidos para o ossuário – dependência no próprio
túmulo – muitos deles com até mais de uma dezena de
inquilinos, sempre pessoas de uma mesma família. O
próximo cemitério público está sendo construído no
bairro Planalto, numa área de
600 hectares, com cerca de três
mil vagas.
Até a conclusão – e a inauguração à qual ninguém se
habilita – o slogan do sabonete vai sendo emprestado à
Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, administradora
dos cemitérios e a quem compete atender a procura da
população. É que mesmo assim todos os mortos são
enterrados, embora para isso as próprias ruas dos
cemitérios que deveriam servir de passagem para os vivos
– no do Bom Pastor, por exemplo - há muito tempo são
usadas para os homenageados deste dia 2 de novembro. A
tradição de reverenciar os mortos vem, oficialmente,
desde o século X, quando o Dia de Finados foi instituído
oficialmente pelo Papa.
Por isso, a Igreja reserva um lugar importante aos
mortos durante a missa. Trata-se do memento – não
confundir com momento. Memento (significa lembrança) é
aquele momento em que se reza pelos falecidos e no dia
de finados os padres celebram até três missas em
sufrágio da alma dos falecidos. Outras religiões também
aproveitam o feriado para visitar os cemitérios, a
exemplo dos protestantes e espíritas, estes promovendo a
distribuição de panfletos, explicando que Finados não
deve ser um dia triste. Para eles é um momento de
esperança. Afirmam sentir a separação, mas acreditam que
a vida não acaba aqui, no plano material. Contrariando o
pensador Epicuro: “A morte não nos importa. Enquanto
existimos, a morte não existe, e quando ela chega, não
existimos nós”.
“Pensando bem – já dizia o filósofo pessimista Arthur
Shopenhauer (1788-1860) – parece ridículo que a gente se
preocupe com um espaço de tempo tão curto. Temer tanto,
quando nossa vida ou a de outra pessoa se encontra em
perigo, ou situar na tragédia o terror dramático causado
pela morte, é uma coisa pouco séria”. Como brinca a
ex-chacrete e estrela do filme “Rita Cadillac, a Lady do
Povo”: “Quero ser enterrada de bruços para que o povo me
reconheça”.
Na sua obra “O Mundo Como Vontade de Representação”,
Shopenhauer disse a certa altura “Admito que se o terror
da morte se deve à idéia que temos do “não-ser”, igual
terror nos deveria dominar ao pensarmos na época em que
ainda não existíamos, pois não há dúvida de que o
“não-ser” que se segue à morte não pode ser diferente do
“não-ser” que precede a vida e, portanto, não pode ser
mais temível”.
E mais: “Enquanto não existíamos, a eternidade seguia
seu curso. Isto, porém, não nos assusta. O que achamos
cruel e insuportável é o pensamento de que depois do
curto interregno desta existência efêmera, deve vir uma
segunda eternidade, durante a qual também não
existimos”.
Portanto, nesse interregno o ideal é viver intensamente
– hoje em reverência, reflexão, orações ou até mesmo se
divertindo num programa elaborado para o feriadão – mas
de alguma forma cultuando a memória daqueles que foram
antes de nós.
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