OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

O LIVRO DE AGNELO

            Wellington Medeiros*

 

Durante a minha passagem pela Tribuna do Norte, nos anos 70, uma das tarefas como copidesque era revisar, entre outros, os textos de Agnelo Alves, o veterano jornalista que acaba de lançar o seu primeiro livro, “Crônicas de Outros Tempos e Circunstâncias”. É uma seleção de 94 das centenas publicadas nesses últimos sete anos, portanto produzidas num cenário soft se comparado ao antigo - hard - em que opinião rimava com subversão, perseguição, agressão e até prisão. Daí, ser pertinente a observação feita pelo editor também jornalista Osair Vasconcelos ao pinçar, no prefácio, uma declaração feita anos depois pelo autor: “do que mais me arrependo é de ter feito inimigos, brigado com algumas pessoas”.

Na verdade, tais brigas - nenhuma inserida no livro - pelas circunstâncias em que ocorreram, não eram somente de Agnelo, o repórter - como gosta de ser chamado, mas dos que ao lado dele trabalhavam tanto na TN como na rádio Cabugi e, por extensão, de grande parte da sociedade norte-rio-grandense que percebia, sem quase nada poder fazer - a não ser expressar solidariedade a um grupo político perseguido quase à exaustão pelo regime militar. Se um dia, Agnelo prosseguir na carreira de escritor e abrir os arquivos da Tribuna do Norte, irá resgatar um capítulo - talvez o mais importante - da resistência e da luta pela redemocratização no Rio Grande do Norte.

E quem folhear a Tribuna daquele outro tempo, irá encontrar pelo menos três colunas pelas quais fui responsável, todas elas idéia de Agnelo e o aprovo do secretário de redação, jornalista Francisco Macedo: “Perspectivas”, sobre economia; “Medicina & Saúde”, que contava com a parceria do jornalista José Aécio Costa e, finalmente, “TN Tudo”. Nesta última escrevia sobre de tudo, mas não lembro ter me enxerido como crítico literário, embora tenha feito a divulgação de muitos livros lançados na época. Não era minha praia, diante de tantas sumidades que dominavam o cenário intelectual, entre eles o maior de todos, Luís da Câmara Cascudo.

Mesmo assim, resolvi analisar o convite do autor, de que gostaria que “os colegas se puderem e quiserem façam alguma crítica”. Embora saiba que a crítica literária tem um sentido mais ameno do que sugere o termo, ao invés de criticar prefiro lembrar a presença do autor no rádio onde, apesar da censura, também desempenhou importante papel naquelas circunstâncias, quer seja através de um comentário que fazia diariamente dentro do Jornal de Integração Estadual, da rádio Cabugi – ainda timidamente – depois no Panorama Político, onde literalmente se soltou. Era o encarregado de acordá-lo, diariamente, para os cinco minutos de prosa pelo telefone e que além da repercussão gerava a expectativa de um chamado pelos censores de plantão.

No livro, a crônica sob o título “A Mesma Mixórdia”, página 79, retrata fielmente o papel do copidesque, obrigado a recorrer ao Dicionário para saber o que danado é mixórdia, palavra que quer dizer confusão, embrulhada, intriga. E foi uma dessas palavras usadas por Agnelo, num texto que recomendava para manchete da Tribuna, que confesso, até hoje não encontrei em lugar algum. Acho que Edílson Braga recorda que ficamos cheio de dedos, mas ele insistia em usar. A palavra era “Despalderado”. Esgotados os adjetivos ele inventava e com certeza não era para elogiar.

Elogio que, aliás, recebi dele num momento difícil. Foi há 20 anos, na edição da Tribuna de 14 de março de 1987, num texto sobre alternância do poder: “Quem sobe e quem desce com os ventos fortes dos novos tempos”. Sobre “A República”, escreveu: Quem sobe é o jornalista Paulo Tarcísio Cavalcanti que alia a sensibilidade e a coragem política à vocação de jornalista. Quem desce é o jornalista Wellington Medeiros. Ocupa o cargo desde o segundo Governo dos Maia, o de Lavoisier. Sempre pautou sua atuação pela discrição. Leal ao governo sem ser desleal com os adversários. Um cara decente.

São exageros desse tipo que ele cometia mesmo depois de uma campanha das mais disputadas e na qual estivéramos em lados opostos. Nunca tive oportunidade de agradecer. Pois hoje aproveito para fazer as duas coisas - e de público. A segunda – criticar o livro – confesso que não sei. Nem quero aprender. Basta a sua leitura para sentir saudade do tempo de copidesque, função que os novos tempos transferiram para o computador. Como diria J. Epifânio: Escrever é fácil. Difícil é escrever com a emoção, humor e paixão como faz Agnelo Alves. A prova está nas 272 páginas de “Crônicas de Outros Tempos e Circunstâncias”.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 12.11.2007

 

 

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