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O título nada tem a ver com a raiva
dos políticos, embora estes possam ter os seus motivos -
vão da prisão-surpresa, poucas homenagens durante as
vibrações no corredor do Carnatal e até por falta de
convite para um jantar oferecido a um ex-presidenciável
- conforme mostram as colunas sociais. Nem com a
indignação da torcida do rebaixado América que neste
final de semana perdeu até a Copa RN, deixando ABC e
Baraúnas como os representantes do Estado na Copa do
Brasil 2008. É que a duas semanas do Natal, o clima que
passa a predominar torna este tema à primeira vista
extemporâneo, não fosse o objetivo de chamar atenção
para um tipo de raiva - a transmitida pelo morcego
hematófago – que, apesar de atingir mais diretamente os
animais, pode também vitimar as pessoas, como já ocorreu
há 15 anos no interior do Estado.
A advertência é feita pelo médico
veterinário Flávio de Araújo Gorgônio, especialista no
assunto, em artigo que elaborou para o jornal
institucional “Centauro”, do Conselho Regional de
Medicina Veterinária, edição deste mês. O texto
produzido pelo expert, residente
em
São João do Sabugi e há 30 anos
estudioso e envolvido no assunto, surge no momento em
que algumas entidades, entre estas a Sociedade de
Espeleológica Potiguar (SEP), discutem a preservação das
mais de 200 cavernas existentes no Rio Grande do Norte,
visando transformá-las em atração turística com a
criação de um Parque Ecológico de Preservação de
Cavernas. É que essas grutas, segundo Flávio Gorgônio
são abrigos naturais dos morcegos vampiros que até o ano
passado eram monitorados através de um trabalho de campo
que foi interrompido.
Aposentado desde 1998 como médico
veterinário dos quadros da Secretaria de Agricultura,
Flávio Gorgônio que também é músico, cantor, poeta e
conhecedor dos costumes e tradições nordestinas, decidiu
em 2003 continuar em atividade como prestador de
serviço. Ocorreu quando várias reclamações foram
dirigidas ao governo do Estado, davam conta de que os
morcegos estavam novamente fora de controle. Havia
mortandade de animais de produção nas regiões do Trairy
e Seridó, especialmente. Lembra até que a praga de
morcegos no Trairy ganhou repercussão maior quando se
descobriu que a maior parte dos animais doentes ou que
vinham a falecer de raiva tinha a carne trazida para
consumo em Natal e municípios vizinhos.
Daí o alerta que faz sobre a
necessidade da existência do trabalho de campo,
paralisado a partir deste ano quando expirou o contrato.
Defende a formação de equipes permanentes, bastando
equipar o pessoal existente com experiência com raiva,
incentivo salarial pela atividade insalubre e perigosa.
“Chego a pensar como será o quadro da história da Raiva
no Rio Grande do Norte nos próximos anos se uma
providência urgente e permanente não for tomada, pois
sem a continuação dos trabalhos realizados até 2006, o
Vampiro vai se deslocar novamente para todas as regiões
potiguares, tanto pela entrada através das fronteiras
com a Paraíba e Ceará, como com o quadro já existente na
região de Mossoró, onde há tempos vêm ocorrendo casos de
Raiva”.
No artigo “A História da Raiva no
Estado do Rio Grande do Norte”, Flávio Gorgônio afirma
que lidar com morcego – o que faz desde 1976 - tem que
passar noites mal dormidas longe de casa, correr o risco
de se contagiar com inúmeras outras doenças que podem
ser transmitidas com o manuseio dos quirópteros ou com o
seu habitat natural. Para ele, quem tem experiência de
campo, trabalhar com essa doença é preciso também ter
vocação profissional ou bastante prática no assunto.
Hoje – segundo revela – não existe no Estado nenhuma
equipe especializada para tais trabalhos.
Como quem tem raiva da raiva,
Gorgônio encerrou o trabalho afirmando ser um soldado da
reserva a espera de um dia ser convocado novamente para
lutar contra esse mal que tanto tem dado prejuízos aos
criadores e a economia do Estado. Li e achei merecedor
de registro o trabalho de oito páginas – 260 linhas –
realizado por este médico veterinário seridoense, exato
no momento em que se fala em transformar cavernas em
atração turística pelo interior. Sem os devidos
cuidados, é a mesma coisa que sugerir a um turista em
Natal para se banhar no rio Potengi, de preferência nas
proximidades do Distrito de Mangabeira; tomar água da
Caern tirada torneira; em caso de necessidade procurar
um posto de saúde ou caminhar, despreocupadamente, à
noite na via Costeira e calçadão da praia do Meio.
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