OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

CARROÇA E MEIO AMBIENTE

            Wellington Medeiros*

 

A tolerância aliada à falta de melhor alternativa de sobrevivência faz com que as carroças de tração animal sejam mantidas circulando e na maioria das vezes atrapalhando ainda mais o já caótico trânsito de Natal. Nas horas de rush são visíveis os engarrafamentos provocados pela presença desses monstrengos. Nem mesmo a Prefeitura sabe o número de pessoas envolvidas nessa atividade que não obedece a qualquer regulamentação e é exercida por homens muitas vezes acompanhados de mulheres e até crianças que colocam essas e outras vidas em risco por conduzirem esses veículos até mesmo embriagados, não raro maltratando os animais.

É sob o pretexto de organizar essa atividade que a Prefeitura anunciou neste início de ano a continuidade do cadastramento dos carroceiros, ao tempo em que elabora um Decreto Municipal que deverá entrar em vigor nos próximos meses. Já era tempo de se tratar com mais seriedade e firmeza uma atividade exercida no trânsito sem obedecer a qualquer das suas regras, além de jogar lixo e entulhos no primeiro terreno baldio que encontram. Não se trata de proibir as carroças, mas buscar o mínimo de disciplina e fazer valer as leis vigentes.

Para que essa atenção fosse dada, foi preciso que o Ministério Público, através da Promotoria de Defesa do Meio Ambiente interviesse na questão. O cadastramento ora em andamento atende em parte ao Termo de Ajustamento de Conduta firmado com a Companhia de Serviços Urbanos (Urbana). E o decreto deverá estabelecer as normas para o funcionamento dessa atividade e os requisitos que irão adequar os carroceiros à realidade atual, diante da necessidade de se fazer cumprir a Lei Federal dos Crimes Ambientais que ao proteger o meio ambiente inclui o trato com os animais.

Atento ao problema, desde o ano passado o Conselho Regional de Medicina Veterinária incluiu no Plano de Trabalho para 2008 a reativação da Comissão Assessora de Bem-Estar Animal para tratar entre outros, dos animais utilizados pelos carroceiros de Natal. Para o presidente do CRMV-RN, médico veterinário Francisco Ferreira Lima, a Lei Federal dos Crimes Ambientais 9.605/98, prevê no Art. 32 a detenção de três meses a um ano de prisão a quem praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos.

O Conselho pretende realizar audiências, encontros e seminários para tratar da questão unicamente do bem-estar animal. Entende que um animal saudável, bem alimentado e recebendo tratamento adequado pode render melhor para o seu proprietário, sem causar o impacto - misto de comoção e revolta - nas pessoas diante de cenas desagradáveis. São os animais puxando peso em excesso, outros visivelmente feridos e para completar alguns sendo maltratados pelos proprietários que transformam o colaborador em vítima, indiferentes à Lei dos crimes ambientais. Foi essa Lei que provocou a criação de uma Delegacia Especializada de Proteção ao Meio-Ambiente – DEPREMA.

Há poucos dias, o Delegado Robson Celso Aranha dizia ao jornal institucional “Centauro”, dos médicos veterinários, que são muitas as queixas apresentadas envolvendo maus tratos a animais, algumas delas chegando à aplicação de prisão e processo na Justiça, como ocorreu na Zona Norte de Natal onde um carroceiro embriagado decepou a orelha de um burro. Muitas denúncias também são formuladas pelas Organizações Não-Governamentais que cuidam da defesa dos animais. A DEPREMA que funciona na Central do Cidadão do Praia Shopping, em Ponta Negra, enfrenta uma dificuldade, os laudos que ainda não são elaborados pelo ITEP, fazendo com que a Delegacia recorra a médicos veterinários voluntários.

É através dessas ações que se espera o cumprimento das leis que atualmente protegem o cidadão e os animais e fazem lembrar esta frase: “O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo”. A frase está na “Carta do Índio” – resposta dada pelo Chefe Seatle à proposta feita em 1854 pelo presidente dos Estados Unidos para comprar grande parte de suas terras. Posteriormente foi distribuída pela ONU e é considerada um dos mais belos e profundos pronunciamentos já feitos a respeito do Meio Ambiente.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 07.01.2008

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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