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Há exatos quatro anos, no artigo “A
história de ladeira abaixo”, lamentava o estado de
abandono e deterioração do prédio da antiga Escola
Industrial de Natal, na Avenida Rio Branco, 743, centro
de Natal. Sabia que estava defendendo não só um
patrimônio público, mas um símbolo na memória de muitas
gerações. Tudo começou com a transferência em meados dos
anos 60 para a entrada Sul da cidade – um quarteirão,
esquina das avenidas Salgado Filho com Bernardo Vieira –
o hoje Centro Federal de Educação Tecnológica-Cefet-RN.
O prédio ainda serviu de sede para a TV Universitária e
com a saída da emissora para o campus universitário,
começava a deterioração.
Instalada há cerca de 30 anos numa
das salas, a Associação dos Veteranos da FEB – Força
Expedicionária Brasileira - não podia arcar com a
manutenção de toda estrutura e ainda assistiu a chegada
de 28 grupos de teatro, uma escola de circo, cooperativa
de artesanato, pelo visto tudo à moda do slogan de
sabonete – sempre cabendo mais um. O veterano Cleantho
Siqueira, um dos 43 remanescentes dos 301 fundadores da
Associação, chegou a conseguir do Exército uma reforma
na sala, uma vez que o forro ameaçava cair. Agora, junto
com outros sobreviventes da guerra, enfrenta outra
batalha – pelo visto também vitoriosa – a de encontrar
um novo local mais seguro e digno para a Associação dos
Veteranos de Guerra.
Tanto a Associação como os artistas
que atualmente ocupam o local em ruínas têm prazo até
esta semana para a desocupação do prédio que irá passar
por uma recuperação e restauração para abrigar o Centro
Cultural Liceu das Artes de Formação Profissional. O
Juiz Federal Magnus Delgado, titular da 1ª Vara Federal,
atendeu a Ação de Reintegração de Posse movida pelo
Cefet. Os artistas, embora soubessem desde o final do
ano que teriam de deixar o local, somente hoje é que
estão buscando uma saída junto ao Governo do Estado,
através da Fundação José Augusto. Será numa reunião na
Procuradoria Geral de Justiça e que deverá contar com
representantes do Cefet, Universidade e OAB.
Nesses últimos quatro anos escrevi
outros sete artigos, todos retratando o agravamento do
quadro de deterioração, com o prédio se transformando
num verdadeiro mostrengo. Como ex-aluno, fui apenas mais
um a chamar a atenção dos responsáveis pela imagem de
abandono e, sobretudo, para a necessidade de uma
intervenção. O que foi e está sendo feito. Projeto
elaborado, recursos – R$ 1,2 milhão – empenhados, agora
falta o que deveria ser o mais simples - a desocupação.
Os artistas certamente estariam sendo aplaudidos se ao
receberem a notificação judicial tivessem feito a
entrega de outra correspondência endereçada à
Universidade ou ao Cefet agradecendo pelo tempo em que
ali permaneceram, embora precariamente. E para completar
o cenário pedissem desculpas por não terem saído há mais
tempo.
Tanto é assim que na Ação de
Reintegração de Posse, o juiz federal Magnus Delgado é
objetivo: “Não é possível crer, ainda, que a Associação
República das Artes e os artistas que ela arregimentou
para ocuparem irregularmente o imóvel em questão não
entendam quão desarrazoada e temerária é essa sua
conduta de querer permanecer sediados em edifício
público que está sob risco de desabamento iminente”. E
destaca ainda que “a conduta da Associação de não sair
do imóvel, hoje em avançado estado de deterioração,
coloca em risco não só o patrimônio histórico, mas
também a integridade física dos pedestres que passam
pelo local”.
Vê-se, então, que se trata de uma
questão de tempo - podendo ser 24 horas, alguns poucos
dias – mas o certo é que o prédio da antiga Escola
Industrial vai, afinal, começar a ser restaurado. A obra
de recuperação do edifício que está em vias de desabar –
depois da restauração da Estação Rodoviária da Ribeira
não tem mais sequer com que comparar - deverá constar
da programação que em 2009 irá assinalar o centenário da
criação do ensino profissionalizante no Brasil. Foi o
presidente Nilo Peçanha que no dia 23 de setembro de
1909 ao assinar o decreto que criava em cada estado
brasileiro uma Escola Industrial, deixou para a história
a frase: “O Brasil de ontem saiu das Academias, o de
amanhã sairá das Oficinas”. Um século depois, a
assertiva ia mais longe do que ele imaginava.
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