OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

REFLEXÕES EM CLIMA DE FÉ

            Wellington Medeiros*

 

A proliferação de veículos de comunicação contribuiu para quebrar um tabu sustentado pela sabedoria popular de que futebol, política e religião não se discute. O futebol, não só se discute, mas agora virou até motivo de briga - o que é condenável - através de torcidas desorganizadas ou marginais infiltrados entre os verdadeiros torcedores. Na política, cujas decisões influenciam diretamente na vida e especialmente no bolso das pessoas é até saudável que haja o debate das idéias e o acompanhamento das ações tanto do Executivo como nos legislativos. Quanto à religião, hoje a dividir espaço na mídia eletrônica com a política e o futebol é onde cada um tem a sua crença. Diferente do clube, do qual se tem raiva quando não está bem ou do político que perde o voto por não corresponder durante o mandato, na religião tais reações não entram com tanta freqüência.

Mesmo assim, em todos pode haver unanimidade – ou quase – quando se trata da Seleção brasileira, no futebol, por exemplo. Imaginem um jogo agora entre Brasil e Espanha. No campo político pode até não ser unanimidade, mas todos passaram a sentir um alívio com o fim do seqüestro compulsório de parte do seu dinheiro pela famigerada CPMF. Na religião - cristã ou não – todos de uma forma ou de outra são instados a viver o clima da Semana Santa.. É em casa, vendo pela televisão, lendo nos jornais ou ouvindo no rádio a publicidade envolvendo os “festejos da semana santa” e que vão das ofertas de ovos de páscoa, peixe e bacalhau pelos supermercados ou os pacotes oferecidos por hotéis e pousadas para o “feriadão” desta sexta-feira. Unanimidade: ninguém se queixa do fim-de-semana prolongado.

Desde ontem - Domingo de Ramos – estamos na Semana Santa em que o mundo cristão celebra a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo – o filho de Deus. Como católico - quando menino quase fui promovido a Mariano na congregação da Igreja de São Pedro levado pelo meu avô paterno – confesso que só agora percebi que a Semana Santa teve a primeira celebração em 1.682. Imaginava, embora isso não faça diferença, que esses atos datavam do início do primeiro milênio. Mas, como gosto de observar o significado dos eventos, religiosos ou não, ainda procuro explicação para o fato de a Semana Santa começar no Domingo de Ramos e na segunda-feira - hoje, no caso - a terça-feira e a quarta-feira santa passarem “in albis” como gostam de dizer os advogados. Todas as programações saltam para a quinta-feira – o Lava-pés – e a Sexta Feira da Paixão.

A quarta-feira próxima, 19, é o Dia de São José, considerado patrono universal da Igreja, dos pais, dos carpinteiros, dos agricultores e da justiça social. Mesmo assim – aí uma discussão – a Santa Sé decidiu antecipar as comemorações para o sábado passado, 15. Explicação: a Igreja suspende todas as outras atividades, para que os fiéis possam dedicar-se unicamente às reflexões da morte e ressurreição do Senhor. Como a chuva caprichosamente não apareceu, pelo menos em Angicos – ícone no RN nas comemorações do Dia de São José - é certo que nesta quarta-feira o agricultor irá manter a tradição de, com expectativa e muita fé, aguardá-la como sinal definitivo de inverno. Isso nem se discute.

Mas, sobre o Domingo de Ramos, procurei e encontrei no site da Arquidiocese de Natal, www.arquidiocesedenatal.org.br, uma mensagem bem lúcida e atual de autoria do padre João Medeiros Filho, e pinço um trecho para traduzir o significado deste dia, na visão católica: “A narração da Paixão do Senhor, que ouvimos na Liturgia da Palavra do Domingo de Ramos, mostra-nos que nela se concentraram todos os desvios da humanidade. Primeiramente, a traição de um discípulo, que O entrega a troco de dinheiro. Verificamos a dispersão assustada dos apóstolos, que, na prática, fogem e O abandonam. Constatamos a mentira dos testemunhos, a ambigüidade dos objetivos, a perplexidade e fraqueza de quem julga. Deparamo-nos com a crueldade abusiva na execução da pena, não respeitando a dignidade do condenado”.

Diz mais o religioso do clero arquidiocesano: “Vejamos o mundo de hoje: não podemos ignorar as traições e os que estão dispostos a tudo por dinheiro, a indiferença dos amigos na hora da provação, as incertezas da justiça humana. Olhemos esse mesmo mundo de frente, porque também essas fraquezas fazem parte da sociedade que queremos transformar. Observemos, não para condenar, mas para compreender à luz do drama humano, pois continua a ser importante que um homem, Jesus Cristo, tenha suportado, oferecido e vencido tudo por puro amor. Não podemos esquecer que a generosidade da sua morte continua a ser um grande testemunho do amor de Deus por nós”. Reflita.

 

  

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 17.03.2008

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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