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A circulação deste vespertino nesta
segunda-feira coincide com o início de mais uma reunião
no auditório da Secretaria Estadual da Saúde para,
segundo o chamamento, somar esforços no combate à
dengue. Convocada para as 15 horas, a intenção do
Governo do Estado é reunir representantes da sociedade
civil e militar, uma vez que estão listados sindicato da
construção civil, secretarias de Estado, forças armadas,
entre outros órgãos, visando reforçar a campanha que há
12 anos tenta, sem êxito, diminuir a proliferação do
mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença que se
alastra.
Os números de casos de dengue em
Natal são cada vez mais preocupantes. Cerca de dois mil
registros de dengue clássico somente nestes três
primeiros meses do ano, contra cinco mil em todo o ano
passado. Quanto à dengue hemorrágica já são 163
notificações, número equivalente ao ano de 2007 – 176.
Até agora, um óbito ocorreu em Natal provocado pela
doença, enquanto no Estado - onde 28 municípios detêm
90% dos casos - já são oito mortes, entre os 40 casos
confirmados. São doze anos de uma luta que hoje leva
especialista a reconhecer que o mosquito veio para ficar
e, junto com ele - a dengue.
Catastrófico ou realista é o alerta
do professor da Unicamp Luiz Jacintho da Silva, da
Sociedade Brasileira de Infectologia. Ensina que cabe
agora aprender a conviver com a dengue, mantendo-a sob
controle. Segundo ele, o controle é complexo e difícil,
a exemplo de doenças que são fruto da problemática
urbana atual, como a AIDS, o diabetes e a hipertensão,
entre outras. Demanda profundas transformações
econômicas, sociais e culturais numa população hoje
predominantemente urbana. Lembra que da AIDS surgiu o
conceito de sexo seguro, o diabético evita o açúcar e o
hipertenso o consumo do sal. Para a dengue, aponta o
conceito a ser incutido na população: a busca de
ambiente seguro.
O professor da Unicamp afirma que
devemos acabar com a ilusão de que a dengue é passível
de eliminação em curto prazo. Defende que os médicos
estejam preparados para desempenhar também o papel de
formadores de opinião e incluir as recomendações sobre o
controle de Aedes aegypti nas orientações à sociedade
visando uma mudança de atitude em relação ao ambiente
que criamos nas nossas cidades. É esse cenário que
mostra a necessidade de alterações significativas no
ambiente urbano onde o mosquito está excepcionalmente
bem adaptado. Sabe-se que a única maneira de se evitar a
dengue é não deixar o mosquito nascer. Para tanto, é
necessário acabar com os criadouros, basicamente não
deixando água, mesmo limpa, ficar parada em qualquer
tipo de recipiente aberto e que são desde a tampinha de
garrafa à caixa d´água. Depois de mais de uma década,
percebe-se também que não adianta mais fazer campanha
para informar a população. Todos já sabem onde está o
mosquito. A solução são campanhas educativas nas
indústrias, igrejas, clubes, centros comunitários e
principalmente nas escolas.
Subproduto da urbanização desordenada
e exagerada, a dengue literalmente se incorpora ao rol
das mazelas de difícil controle, como a criminalidade,
tráfico de drogas, corrupção, poluição, vírus na
Internet, trânsito desordenado. A toda hora são
exemplos de batalhas perdidas, enquanto no caso do
mosquito, uma constatação foi feita pelo presidente do
Conselho Nacional de Saúde, o norte-rio-grandense
Francisco Batista Júnior - “O Brasil já perdeu a guerra
contra a dengue”. Curiosamente, é o CNS que reúne os
representantes dos três níveis do Sistema Único de
Saúde, onde ocorre a discussão surrealista se o mosquito
é federal, estadual ou municipal. E deixa em dúvida a
instituição que faz a defesa do cidadão, o Ministério
Público. É tarefa do federal do estadual, ou dos dois?
A reunião desta tarde será a
repetição de tantas outras realizadas ao longo de mais
de uma década. Vale lembrar que no começo a discussão
era se o nome era o dengue ou a dengue.
Depois, se ficou sabendo que a doença é transmitida pela
picada de uma fêmea Aedes aegypti contaminada. Mesmo com
dezenas, centenas de homens e mulheres tendo caído em
campo na batalha contra a dengue (ou o dengue), o
trabalho se mostra ineficaz, pois realizado em meio à
falta de saneamento básico, educação, limpeza urbana,
moradia decente, qualidade de vida e até resistência de
parte da população aos carros fumacê. E então fica a
pergunta: A culpa é do governo? – Certamente, a
maior parcela da culpa, mas a população tem a sua parte.
Basta conversar com um agente do combate ao mosquito
vencedor. E até laureado como bem retratou a charge do
cartunista Brum, inserida nesta página na edição do
fim-de-semana.
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