OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

HISTÓRIA PASSADA A LIMPO

            Wellington Medeiros*

 

O jornal “A República”, ao voltar a circular dia 15 de março de 1972, graças a um trabalho de persuasão do jornalista Marcos Aurélio de Sá - hoje Diretor-Editor deste Jornal de Hoje - junto ao governador Cortez Pereira, reativava o que se convencionou chamar ao longo do tempo a “nossa melhor escola de jornalismo”. A fase – a última do jornal oficial - durou 15 anos, com circulação diária durante os governos Cortez Pereira, Tarcísio Maia, Lavoisier Maia e José Agripino, este durante o seu primeiro mandato, concluído pelo vice-governador Radir Pereira em março de 1987.

E em meio aos alunos, alguns mestres, no qual se inseriu, literalmente através do “Contexto”, o jornalista Nilson Patriota. Afastado do jornalismo há quase uma década, após presença marcante na rádio Nordeste e jornal “Correio do Povo”, entre outros, Nilson voltou a escrever com o surgimento do suplemento literário “Contexto”, em 1976, editado pelo professor Tarcísio Gurgel e sob a coordenação do jornalista Antônio Melo, então Secretário de Imprensa do Governo do Estado.

O texto de Nilson Patriota - falecido há uma semana aos 77 anos depois de escrever uma dezena de livros e tornar-se imortal da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras - era uma aula para os iniciantes e alvo de admiração pelos que passaram a conhecê-lo, pela leveza, técnica, conhecimento dos temas da atualidade e, sobretudo, pela sua cultura popular e erudita. O trabalho até então voluntário, o credenciou junto ao então governador Tarcísio Maia a ser uma das peças importantes na transição para o sucessor, médico Lavoisier Maia.

Tanto é assim que Nilson, então servidor público da Fazenda Estadual, poderia muito bem escolher o cargo que mais o atraísse na área de comunicação social. Instalado o Governo, na prática passou a acumular as funções, mas preferiu a presidência da Imprensa Oficial e em conseqüência a direção do jornal oficial “A República” cargos que exerceu nos anos de 1979-1980..

Diante da livre e espontânea escolha, estava aberta a vaga de Assessor de Imprensa. Alguns nomes foram cogitados. Todos recusaram. O governador Lavoisier Maia resolveu consultar as bases - a minha base era a própria Assessoria, onde atuava como redator desde a administração anterior e a redação da Tribuna do Norte-Rádio Cabugi – e optou pela solução caseira. Convidado, aceitei. Assessoria do Governador e Imprensa Oficial atuavam em perfeita sintonia.

Nunca ocorreu qualquer queixa de ingerência indevida de parte a parte, até que num determinado dia, começo da noite, recebi do Governador uma das missões mais espinhosas da minha vida: “sugerir” a Nilson Patriota para que pedisse exoneração da Imprensa Oficial do Estado. É que no início da tarde, ocorrera um incidente durante um almoço no Grande Hotel, envolvendo Nilson e o padre-deputado José Dantas Cortez, tendo o majó Theodorico Bezerra atuado como pacificador.

Corajoso, como bem retratou o jornalista Vicente Serejo, na “Cena Urbana” de segunda-feira, 31, Nilson reagiu à altura a um pronunciamento do parlamentar da tribuna da Assembléia Legislativa, insinuando irregularidades na administração dele, incluindo contratação de estagiários e até uma permuta de publicidade entre “A República” e a Rede Globo. Liguei, marquei e instantes depois estava no gabinete da Junqueira Aires. A tranqüilidade de sempre. Sorriso largo pediu um cafezinho e apenas disse: “já sei o que você quer”.

Não disse nada, tomamos o cafezinho com ele mostrando as gavetas em fase de arrumação e um papel com o pedido de exoneração. Conto este episódio, por um detalhe bem significante. Após o entrevero foi criada uma Comissão de Sindicância, presidida pelo Procurador do Ministério Público Especial, Carlos Roberto de Miranda Gomes e integrada pelo Promotor de Justiça de Primeira Entrância, Caio Otávio Regalado de Alencar e o jornalista Ticiano Duarte, também Auditor do Tribunal de Contas.

Tenho em meu poder cópia do relatório da Comissão nomeada pelo Governador, no dia 23 de agosto de 1980, com prazo de 30 dias para apresentar o resultado. Data da conclusão, 22 de setembro, exatos 30 dias. Em 24 páginas, foi emitido o seguinte Parecer:

Conclui a Comissão de Sindicância: - Pela desnecessidade da designação de Comissão de Inquérito, uma vez que nada foi encontrado que conduza ao aprofundamento das investigações sobre o caso, porquanto tudo o que foi sindicado, como irregularidade, não possui conotações de má fé ou de ilicitude, que determine a apuração da responsabilidade administrativa dos seus praticantes ou da tipificação de ilícito penal”.

Fatos como este devem ficar registrados, até porque um dia quando alguém escrever a História completa da Imprensa Oficial e do jornal “A República” – e se quiser enveredar nesse tipo de picuinha - sejam citados eventos que tenham começo, meio e fim. De preferência com datas e pessoas diretamente citadas ou envolvidas. Do contrário pode ser tudo, menos história.

  

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 07.04.2008

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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