OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

A DERROTA DE TODOS

            Wellington Medeiros*

 

Não dá mais para tapar o Sol com uma peneira, procurar responsáveis, insistir na lengalenga. Chega. Todos somos perdedores nas batalhas até aqui travadas contra o mosquito da dengue - o famigerado Aedes aegypti. Diante do assustador número de feridos – 20 mil somente este ano – a constatação é a de que o inimigo - tanto o mosquito municipal, estadual ou o federal - além de nos impor sucessivas baixas, se uniu e cresceu 273% nesses quatro meses em relação ao mesmo período do ano passado.

Esses números alarmantes fizeram com que o Rio Grande do Norte entrasse em estado de emergência desde o final de semana. Tem prós e contra, mas já tardava uma medida radical - como deve ser interpretado o decreto, coincidentemente no 20.514, da governadora Wilma de Faria - diante da frouxidão com que as batalhas foram sendo perdidas tendo como troféu até então cuidar precariamente dos feridos que já se amontoavam e alguns até chegando à morte.

Ao perceber a resistência em se reconhecer a inquestionável derrota do governo – e de todos -  foi preciso mais uma vez que o Ministério Público em nível estadual e federal fincasse não uma bandeira amarela de alerta, mas uma bandeira preta de luto, no exercício do seu legítimo papel de defesa da saúde e da vida das pessoas. A emergência sugerida e enfim adotada pelo governo é arma poderosa e, se bem utilizada, poderá em curto prazo reduzir esses números, embora a dengue possa até persistir, sob controle, entre as mazelas produzidas pela urbanização exagerada e desordenada.

De tudo que se disse ou escreveu sobre a dengue, um artigo do senador e escritor José Sarney, chamou atenção por fazer um histórico sobre o mosquito da dengue, usando informação da Organização Pan-Americana de Saúde de que o Aedes aegypti foi erradicado em 1958. Citava o mata-mosquito, o pessoal da Sucam (Superintendência de Campanhas de Saúde), como exército vitorioso e que deu certo.

José Sarney repetia o que disse da tribuna do Senado. Que sentia saudades daqueles homens espalhados pelo Brasil inteiro, visitando residências, furando latas, fazendo limpeza de depósitos de água e borrifando as casas com inseticidas, para eliminar os focos de mosquitos. Se ele sente saudade, imaginem quem acompanhou de perto, menino, por todo o Nordeste, muitas dessas batalhas vitoriosas.

É que meu pai (também do jornalista Walter – rnsites.com.br - e da assistente social Clemilda Medeiros) ao sair do Exército, onde serviu durante a 2ª Guerra Mundial e por isso mesmo ex-combatente José Firmino de Medeiros, trocou apenas de farda e de missão. A que assisti em dezenas de municípios da Paraíba, Pernambuco e Alagoas (Mata Grande) era a de prevenir endemias rurais, salvar vidas. Durante toda a existência, falava com orgulho dessa atividade e das verdadeiras aventuras que eles e os colegas tiveram que enfrentar.

Por isso, ao ver o Rio Grande do Norte em estado de emergência por conta da dengue, resolvi pesquisar o que de novo estava surgindo para o combate à dengue e ao que parece que a mudança está no fim da Sucam, em 1990, incorporada à Fundação Nacional de Saúde – Funasa. Ainda a reforma sanitária que deu origem ao Sistema Único de Saúde - SUS que acabou a Sucam e passou o controle das endemias para as prefeituras.. Então, está explicado.

Saudosismo à parte e como já avançamos no século XXI, leio uma entrevista do diretor do Centro Brasileiro de Bioaeronáutica, Marcos Vilela Monteiro. Ele garante que a pulverização aérea do inseticida Malathion pode eliminar em 30 dias “no máximo” – frisa - os focos do mosquito transmissor da dengue. Lembra que o serviço vem funcionando no mundo inteiro há mais de 50 anos.

Até chega a citar os casos de países como a Hungria e Cuba e estados norte-americanos, como Maryland, Califórnia, Flórida, Nova York e Massachussets, que realizariam pulverizações desse tipo de forma rotineira. Denuncia que no Brasil haveria uma “pressão medieval contra a aplicação de inseticidas”. Agrônomo há 50 anos, ele disse estar sensibilizado com a situação da dengue. Conferir: www.bioaeronautica.com.br.

A modernização fez lembrar uma graça feita por um agente de saúde bem humorado, ao ser indagado por que não se consegue acabar com a dengue. Resposta: - E a gente vai viver de quê?

 

  

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 12.05.2008

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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