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Quem acompanha atentamente o dia-a-dia da capital há
pelo menos quatro décadas, vai percebendo que nesses
últimos 20 anos a infra-estrutura construída pelo poder
público, salvo algumas intervenções viárias, foi se
tornando obsoleta. Enquanto a cidade se expande, a
iniciativa privada responde com uma estrutura de
serviços em nível de primeiro mundo. Basta observar a
dimensão dos shoppings e supermercados, a rede hoteleira
e os serviços hospitalares. Contrapondo-se em ritmo e
qualidade estão os serviços essenciais e o mais
criticado nesses últimos dias - o saneamento básico. Já
se disse e é verdade: os governantes detestam fazer
obras de saneamento. Não dão visibilidade.
Em Natal, que vai completar 409 anos dia 25 de dezembro,
houve tempo em que os pontos de alagamentos eram
devidamente localizados, a começar pela velha Ribeira,
Paço da Pátria – construído dentro da maré - Av.
Capitão-Mor Gouveia, Rua Engenheiro José Gonçalves e as
proximidades das lagoas dos Potiguares e São Conrado.
Hoje, choveu com alguma intensidade, a cidade entra em
calamidade, com raros pontos de exceção. Fica travada.
Em pânico, como ocorreu há uma semana. Os prejuízos
ainda estão sendo contabilizados, enquanto o natalense
reza para que não chova. Se de tudo se tira lições, das
últimas chuvas surgiu uma preocupação nunca antes vista.
Agora, antes de se adquirir ou alugar é recomendável
procurar saber se o imóvel está localizado em área de
risco.
Na última terça-feira, 1º de julho, pude sentir na pele
o problema provocado pelos alagamentos. E foi logo de
madrugada ao tentar chegar à sede da rádio CBN, no
bairro do Tirol. Saindo da região Sul em direção ao
centro, a Avenida Airton Sena completamente alagada.
Depois de conseguir passar ao lado do Makro, foi na
pista em frente ao Carrefour que o drama aumentou.
Motoristas de automóveis refugando diante do alto volume
da água e a alternativa – a Avenida Integração – já
interditada ao tráfego. O jeito foi enfrentar, mesmo
correndo o risco de ficar preso no aguaceiro.
Já na emissora, os telefonemas desesperados de todos os
pontos da cidade e até de cidades vizinhas, Parnamirim e
Macaíba. Eram mulheres chorando, dizendo terem passado a
noite insone, como uma moradora da Rua Jerusalém, em
Emaús e outra da Cidade da Esperança. Assumíamos o
compromisso de divulgar – o que fizemos – e anotar para
a pauta da TV Tropical. O mais lastimável, era quando as
pessoas passavam a desancar os políticos acusando-os de
nada fazer numa hora de calamidade. Na verdade, naquela
hora eles não podiam mesmo fazer nada. Pode - não os
políticos de forma generalizada - mas o Prefeito
devidamente eleito para cuidar da cidade e
consequentemente do seu povo, estruturar, para
emergências, a chamada Defesa Civil, da qual se salva
apenas o Corpo de Bombeiros. No mais, é um salve-se quem
puder.
Nos dias seguintes, a operação rescaldo em meio a um
quadro desalentador, desde os moradores da periferia,
como são chamadas as áreas mais afastadas, até de áreas
consideradas nobres como um que já se tornou ícone –
Capim Macio – agora Tirol, Petrópolis, Neópolis, Cidade
Satélite, Candelária, entre outras. Pela primeira vez,
moradores amontoaram móveis danificados e utensílios
domésticos e atearam fogo, em protesto contra o descaso
a que foram relegados. Uns, renegando morar em casas
antes vistas como verdadeiras mansões confortáveis e
seguras. E outros, no limite do desespero ao perderem
instrumentos de trabalho ou móveis e eletrodomésticos
adquiridos com algum sacrifício.
Todo esse preâmbulo é para dizer que durante todo esse
tempo, foi a primeira vez que tive medo de chuva. E
lembrei a Ribeira, onde nos anos 60/70 também amanhecia
– para trabalhar, esclareço – na rádio Cabugi e Tribuna
do Norte. Muitas vezes chegando com as calças pelos
joelhos e os sapatos na mão. Mas, a Prefeitura andou por
lá no começo dos anos oitenta e sanou o problema. O
prefeito era o engenheiro e hoje senador José Agripino e
a lembrança agora - que também é de muitos outros
natalenses - contradiz a estória de que drenagem não
fica na memória do povo. Vale lembrar que não existia a
propaganda como nesses últimos anos. E que depois de
tantos slogans desgastados pelo tempo, agora as placas
contém apenas a frase: A Prefeitura está
aqui. Em alguns locais – quase submersas –
servem apenas para o povo mangar.
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