OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

MEDO DE CHUVA

            Wellington Medeiros*

 

Quem acompanha atentamente o dia-a-dia da capital há pelo menos quatro décadas, vai percebendo que nesses últimos 20 anos a infra-estrutura construída pelo poder público, salvo algumas intervenções viárias, foi se tornando obsoleta. Enquanto a cidade se expande, a iniciativa privada responde com uma estrutura de serviços em nível de primeiro mundo. Basta observar a dimensão dos shoppings e supermercados, a rede hoteleira e os serviços hospitalares. Contrapondo-se em ritmo e qualidade estão os serviços essenciais e o mais criticado nesses últimos dias - o saneamento básico. Já se disse e é verdade: os governantes detestam fazer obras de saneamento. Não dão visibilidade.

Em Natal, que vai completar 409 anos dia 25 de dezembro, houve tempo em que os pontos de alagamentos eram devidamente localizados, a começar pela velha Ribeira, Paço da Pátria – construído dentro da maré - Av. Capitão-Mor Gouveia, Rua Engenheiro José Gonçalves e as proximidades das lagoas dos Potiguares e São Conrado. Hoje, choveu com alguma intensidade, a cidade entra em calamidade, com raros pontos de exceção. Fica travada. Em pânico, como ocorreu há uma semana. Os prejuízos ainda estão sendo contabilizados, enquanto o natalense reza para que não chova. Se de tudo se tira lições, das últimas chuvas surgiu uma preocupação nunca antes vista. Agora, antes de se adquirir ou alugar é recomendável procurar saber se o imóvel está localizado em área de risco.

Na última terça-feira, 1º de julho, pude sentir na pele o problema provocado pelos alagamentos. E foi logo de madrugada ao tentar chegar à sede da rádio CBN, no bairro do Tirol. Saindo da região Sul em direção ao centro, a Avenida Airton Sena completamente alagada. Depois de conseguir passar ao lado do Makro, foi na pista em frente ao Carrefour que o drama aumentou. Motoristas de automóveis refugando diante do alto volume da água e a alternativa – a Avenida Integração – já interditada ao tráfego. O jeito foi enfrentar, mesmo correndo o risco de ficar preso no aguaceiro.

Já na emissora, os telefonemas desesperados de todos os pontos da cidade e até de cidades vizinhas, Parnamirim e Macaíba. Eram mulheres chorando, dizendo terem passado a noite insone, como uma moradora da Rua Jerusalém, em Emaús e outra da Cidade da Esperança. Assumíamos o compromisso de divulgar – o que fizemos – e anotar para a pauta da TV Tropical. O mais lastimável, era quando as pessoas passavam a desancar os políticos acusando-os de nada fazer numa hora de calamidade. Na verdade, naquela hora eles não podiam mesmo fazer nada. Pode - não os políticos de forma generalizada - mas o Prefeito devidamente eleito para cuidar da cidade e consequentemente do seu povo, estruturar, para emergências, a chamada Defesa Civil, da qual se salva apenas o Corpo de Bombeiros. No mais, é um salve-se quem puder.

Nos dias seguintes, a operação rescaldo em meio a um quadro desalentador, desde os moradores da periferia, como são chamadas as áreas mais afastadas, até de áreas consideradas nobres como um que já se tornou ícone – Capim Macio – agora Tirol, Petrópolis, Neópolis, Cidade Satélite, Candelária, entre outras. Pela primeira vez, moradores amontoaram móveis danificados e utensílios domésticos e atearam fogo, em protesto contra o descaso a que foram relegados. Uns, renegando morar em casas antes vistas como verdadeiras mansões confortáveis e seguras. E outros, no limite do desespero ao perderem instrumentos de trabalho ou móveis e eletrodomésticos adquiridos com algum sacrifício.

Todo esse preâmbulo é para dizer que durante todo esse tempo, foi a primeira vez que tive medo de chuva. E lembrei a Ribeira, onde nos anos 60/70 também amanhecia – para trabalhar, esclareço – na rádio Cabugi e Tribuna do Norte. Muitas vezes chegando com as calças pelos joelhos e os sapatos na mão. Mas, a Prefeitura andou por lá no começo dos anos oitenta e sanou o problema. O prefeito era o engenheiro e hoje senador José Agripino e a lembrança agora - que também é de muitos outros natalenses - contradiz a estória de que drenagem não fica na memória do povo. Vale lembrar que não existia a propaganda como nesses últimos anos. E que depois de tantos slogans desgastados pelo tempo, agora as placas contém apenas a frase: A Prefeitura está aqui. Em alguns locais – quase submersas – servem apenas para o povo mangar.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 07.07.2008

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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