OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

Os decanos

            Wellington Medeiros*

 

Durante algum tempo era comum os jornalistas mais novos chamarem os mais antigos de decanos. Uns gostavam, outros faziam que não ouviam. Era sinal de longevidade na profissão. Recordo alguns, dentre eles um que até se autodenominava assim, nas colunas ou programas de rádio: Adalberto Rodrigues, já falecido. Quem começou na profissão nos anos 60, certamente não conhecia um só decano, pelo menos em nível local, formado em curso de Jornalismo. Todos se formavam no batente, isto é, praticando e, se tivessem vocação, talento, competência - principalmente oportunidade, diante do restrito mercado de trabalho – seguia em frente.

Ainda nos anos 60, com a criação das faculdades de Jornalismo, abriu-se o debate que rola desde então, embora até 1969 quem tivesse carteira assinada nos veículos da época – a maioria jornal e rádio – obtinha o registro de jornalista profissional, com a chancela do Ministério do Trabalho, através da Delegacia local. A minha primeira carteira profissional, assinada em 1º de fevereiro de 1965, como redator da rádio Cabugi, contém na página 31 a anotação, assinada pela Sra. Celene Lobato Galvão, sob o número 158, do livro número 1, folhas 80, com data de 30 de outubro de 1970.

A partir de então, para todos os efeitos, era esta a minha profissão, como a de tantos outros amparados pela legislação federal. Embora não tenha me acomodado e seis anos depois ingressado no curso de Comunicação Social da UFRN – turma Berilo Wanderley, que em 2009 está completando 30 anos – convivi nesse período com profissionais, cujo talento e desempenho dispensavam qualquer apresentação de registro, diploma ou coisa que o valha como diria João Cláudio de Vasconcelos Machado, incluindo entre os mais competentes, apesar de bacharel em Direito. Quem o conheceu, hoje pode imaginar a reação que externaria diante da possibilidade da demolição do estádio que ainda ostenta o seu nome.

Toda essa preliminar é para registrar um e-mail da presidente do Sindicato dos Jornalistas, Nelly Carlos, informando que nesta quarta-feira deverá entrar na pauta do Supremo Tribunal Federal, um recurso que questiona a constitucionalidade da regulamentação da profissão do jornalista. Para a Federação Nacional dos Jornalistas, trata-se não só de um ataque à profissão, mas às liberdades sociais, cujo objetivo fundamental é desregulamentar as profissões em geral e aumentar as barreiras à construção de um mundo mais pluralista, democrático e justo.

Segundo uma campanha da Fenaj, com o tema “Jornalistas por formação / Melhor para o Jornalismo / Melhor para a Sociedade”, o ofício de levar informação à sociedade já existe há quatro séculos. E para dar conta do seu papel, nestes 400 anos, o Jornalismo se transformou e precisou desenvolver habilidade técnicas e teóricas complexas e específicas, explica o presidente da Federação, Sérgio Murillo de Andrade. Acabou a improvisação e o amadorismo.

Por isso, a formação superior para o exercício do Jornalismo há muito é uma necessidade defendida não só pela categoria dos jornalistas. A própria sociedade, recentemente, deixou bem claro que quer o jornalista com diploma. Foi uma pesquisa do Instituto Sensus, ao mostrar que 74,3% dos brasileiros são a favor da exigência do diploma de Jornalismo.

Mesmo assim, há quem imagine que o STF mantendo a obrigatoriedade do curso, irá impedir que outras pessoas escrevam em jornal. Não irá mudar nada, pois o jornal e o rádio podem ter os seus colaboradores, não somente em seus artigos, como em opiniões ou trabalhos acerca de temas específicos. O que se faz há alguns anos é uma confusão entre liberdade de expressão e liberdade de publicar. Nenhuma delas sofre ameaça com a exigência do diploma de jornalista.

É claro que por si só um diploma universitário não melhora uma profissão, seja qual for. Mas, um médico humano ou veterinário sem diploma de Medicina é certamente um charlatão e um perigo para seres humanos e animais. Quem se sentiria seguro consultado sobre um problema de saúde com sociólogo mesmo que tenha muita leitura sobre Medicina.

Qualquer que seja a decisão do Supremo nada deverá mudar na rotina das redações, uma vez que as empresas vão continuar a dar preferência a jornalistas formados, em geral mais bem qualificados para a profissão. Mas, abolindo o diploma, é mais um desestímulo para os estudantes que saem das faculdades e encontram dificuldades de vagas no mercado de trabalho e agora ter que assistir dizerem que seus diplomas têm pouco ou quase nenhum valor.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado também no Jornal de Hoje, edição de 08.06.2009

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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