Poemas de Walter Medeiros

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ÍNDICE

 

Amor

Flor

Natal

O Canto

O Canto II

Rosas desbotadas

Prudente

Fome

Madrugada

A Juraneide

Dona Luizinha

Escada

Bar do Gordo

Reencontro

Coração Entristecido

El Matador

Ano Novo

Sonzão

Vontade  

Plutão

O Autor

 

 

 

 

 

 

 

Amor

                       

Aquela sensação,

no fundo do coração,

que domina todo o corpo,

como uma fisgada

violentíssima

da agulha mais afiada,

num relance confuso

entre toque de navalha ou pluma

- é o amor.

 

 

INÍCIO

 

Flor

                       

Flor menina que deslumbra a vida

esplendo irradiado das manhãs,

tece, qual relâmpago, um tom bucólico,

aos olhos surpresos do cupido.

 

Leva subitamente nas asas de um sonho

olhos e corações fisgados,

por campos de orvalho orgásmigos,

um verdadeiro paraíso.

 

Flor cuidada pacientemente

em dias tranquilos de juventude

aroma gostoso que se dá

em troca do prazer.

 

Sente o afago aquecido

que deseja manter toda vida

para viver eternamente um

entrelaçado de corpos escondidos.

 

INÍCIO

 

NATAL

 

Ouço harpas angelicais,

Que trazem um som divino,

Tocadas para um menino,

Que nasceu trazendo paz.

 

Vejo a paz nos semblantes,

Que me rodeiam cada dia,

Parece uma fantasia,

Algo bem contagiante.

 

Sinto a vontade sincera,

De ter um mundo melhor,

De amor, respeito e dó,

Fazendo uma nova era.

 

Desejo que nesta hora,

Um anjo bom te ilumine,

Que o amor nunca termine,

Haja sempre boa aurora.

 

Ouço harpas angelicais,

Sinto este som tão divino,

Vamos louvar o menino,

Num Natal cheio de paz.

 

INÍCIO

 

O canto

 

Um lugar tão único, aconchegante,

Com um belo jardim, tantas flores,

Que tem certo encanto nas cores,

E uma energia impressionante.

 

É dali que ela admira a lua,

E que sonha com um amanhã lindo,

Certa que o seu príncipe ´stá vindo,

Pela  relva onde o amor flutua.

 

Brilham tanto seus olhos pequenos,

E sorri, sai dançando, e ela canta,

Dedicada a um belo ritual.

 

Não tem forma nem prazo, ao menos,

Mas a sua certeza é tanta,

Que já formam um lindo casal.

 

INÍCIO

 

O Canto II

 

Ela sabe que haverá um momento,

Em que o esperado encontro terá,

E que quando no futuro ingressar,

Viverá todo o encantamento.

 

Na beleza da noite tão clara,

Sabe até o que irá lhe dizer,

Admirada, dirá “é você?”,

Em seguida, abraçada, se cala.

 

Vão se olhar, deslumbrados, então,

Vão se amar, bem ali, sem ter pressa,

Pois o tempo será para eles.

 

E o mundo cheio de emoção,

Ganhará uma estória como essa,

Cada um vai querer conhecê-los.

 

INÍCIO

 

Rosas desbotadas

                                     

Aquele vestido cheio de rosas desbotadas,

O cabelo assanhado, os olhos tristes,

Os sorrisos temerosos e indecidos,

A boca sem palavras, o rosto suado,

Sumiram de vez, mas não esqueço.

 

Muitas vezes recordo aquela imagem,

Aquele andar manso, que me atraía,

As mãos morenas e tão pequenas,

Seus gestos que tanto me comoviam,

Porque ela não queria ser sozinha.

 

Nas tardes de sol eu a contemplava;

Não sei se ela podia ter algum prazer,

Tudo sobre seu viver eu imaginava;

Muito pouco cheguei a lhe dizer;

A timidez sempre me controlava.

 

Não sei se ainda vive e onde estará;

Faz muito tempo que não a vejo,

Com aquela humildade dos mendigos,

A bengala feita de um cabo de vassoura,

E uma mão estendida em silêncio.

 

INÍCIO

Prudente

 

Grande avenida do progresso,

Asfalto, trânsito e sinais,

Quase não te reconheço mais,

Porém de ti nunca me despeço.

 

Avenida de areias colossais,

Crianças brincavam, era zona rural,

Tão distante do centro de Natal,

Foste tu, oh! Prudente de Morais.

 

Décadas atrás não tinhas trânsito,

Até um riacho cortava teu leito,

Sítios, mangueiras te enfeitavam.

 

Hoje pouco lembra o teu passado,

Mas bate uma saudade em meu peito,

Ao rever alguns pedaços conservados.

INÍCIO

 

Fome

                                   

Humoristas conversando

sobre a estréia do espetáculo

no outro dia.

Não percebem

o que se passa ao lado,

enquanto falam de tanta alegria.

 

Lentamente,

emocionado, passado de dor,

um desempregado conta o seu triste drama,

chocando um amigo, com tanta desgraça.

Uma história nova, pior do que as outras.

Coisas de redação de jornal.

 

Cada um preocupado com as suas matérias,

mas assistindo e vivendo as misérias.

O desempregado, havia meses

também compunha o ambiente,

e, como vive a acontecer com muita gente,

passava o drama do qual mais tinha medo.

 

Seu filho menor

morreu de fome.

Busca ajuda

para ver se enterra,

contando da mãe e do que sobreviveu,

este indagando quando o irmão volta.

 

Consegue a ajuda

para fazer o enterro.

Sai, com fome, para o barraco.

E continua sua vida, já fraco,

pelas ruas da cidade

procurando emprego.

 

INÍCIO

Madrugada


Na madrugada boêmia da Ribeira,
corpos sedentos vagam e se consomem;
nunca saciam a sede nem a fome,
é curto o tempo de uma noite inteira.

Na vitrola a ficha anima as putas,
que dançam e bebem e amam e choram,
algumas, pelo amor, até imploram,
outras enfrentam mesmo a força bruta.

Nunca escreverão completa a história
de belas noites chuvosas, embriagadas,
de festas bregas, de tombos nas calçadas,
gritos e brigas por coisas irrisórias.

Olhos cansados das noites perdidas
mãos perfumadas pelo álcool feroz,
palavras de amor do cantor sem voz,
abraços e beijos, sempre despedidas.

Os corpos vendidos sem qualquer prazer
transpiram o horror da sociedade
Oh! Deus, como apelar pela caridade,
e perdão dos pecados para cada ser...

Desperto tão sóbrio que me surpreendo,
agora a Ribeira não existe mais,
as putas mudaram para outro cáis,
O caso agora é ainda mais horrendo.

 

INÍCIO

 

A Juraneide

 

--- Walter Medeiros 

 

1989 

 

Distante dos entes queridos,

Solitária sob o Céu aberto,

Ao pé daquele grande cajueiro,

Permaneces onde a natureza te pôs:

Ante o morro milenar erguido,

A quem tinhas tanto afeto,

Em teu viver tão ligeiro.

 

 

INÍCIO

 

Dona Luizinha

 

Se eu voltar a Mata Grande,

Não verei Dona Luizinha;

Disseram que ela morreu.

 

Dona Luizinha, a vizinha

Mais amiga e amável

Que esta vida nos deu.

 

Eu ainda a vi, velhinha,

Lembrando os belos tempos

Em que eu era vizinho seu.

 

Não por mim, por minha mãe,

A sua grande amiga,

Que também está com Deus.

 

Ela lembrava dos dias

Que a cidade começou

E que à noite era um breu.

 

Em meio às pedras da serra

Onde a cidade se encerra

Onde achou água e bebeu.

 

Depois, um dia, fazia,

Aquele pão com manteiga

Que a gente nunca esqueceu.

 

Se eu voltar a Mata Grande,

Não verei Dona Luizinha,

Nem pra lhe dizer adeus.

 

INÍCIO

 

ESCADA


O amor, quando chega
às vezes leva a gente
(com os sonhos que traz)
por uma escada de tantos batentes
pela qual se sobe, sobe e se quer subir mais
e se termina subindo até o fim.

De repente, no fim da escada
não se tem por onde seguir.
Econtra-se uma parede fechada.
Não se entende por quê
(Como é que se faz uma escada dessas?)

Não se quer descer de volta.
Cada batente é uma lágrima,
uma saudade,
uma decepção,
uma resignação,
o fim indesejado.

Tem de se abrir uma porta,
nem que seja com as próprias mãos,
sacrifícios,
perseverança,
paciência,
fé,
pois não é de se acreditar que o amor
nos leve a nada ruim
e depois da parede tem de estar o que se procura:
a felicidade,
que terá ido para lá, não se sabe por onde,
depois de passar tantas vezes por nós
enquanto subíamos.

INÍCIO

Bar do Gordo


Chegado da Chuva
O homem de paletó e pés descalços
Quis saber quando.
O dono do bar respondeu
Prontamente – de tarde: duas horas.
E era de manhã.
Ele achou ótimo
E ficou sob a marquise, esperando
Restos de comida.

No balcão de pedra
Uma mulher bebe uma dose de cachaça
E parece tão cedo.
Ela vê o jornal:
Amigos na página policial,
- presos de novo!
Chega uma amiga
Para tomar café com pão, fiado:
Ninguém lhe quis na noite.

Na mesa do canto
Outro dorme entre copos e garrafas
Abandonado;
Cansado da noite
Em que quis mandar na zona
E se arriou.
À sua espera
Uma conta desse tamanho
Na mão do gordo.

 

INÍCIO

 

Reencontro

 

Quantos rostos não vieram

Comemorar esta data...

Onde estão aqueles rostos,

Cuja lembrança arrebata?

 

Que destino eles seguiram

Pela estrada da vida...

Onde estão aqueles rostos

Daquela era tão querida?

 

Algo nosso assim sumiu

Junto com aqueles rostos

Algo que a nós uniu

Na vida de tantos gostos.

 

Vamos buscar a nós mesmos

Onde quer que estejamos

Pois vêm do peito reclamos

nalgumas súplicas a esmo.

 

Pode ser na multidão

Quem sabe o seu destino?

Talvez tocando um sino

Ou fazendo uma oração.

 

Ao menos eu pensamento

Precisamos resgatar

O brilho de cada olhar

Mesmo que por um momento.

 

Vamos fazer isto agora

Num silencioso instante

Que uma luz bem brilhante

Ilumine-me esta hora.

INÍCIO

 

Coração Entristecido

 

Convivi com um coração entristecido,

Mas não via tristeza em seus olhos,

Nunca vi tristeza em seu rosto,

Nunca vi tristeza em seus lábios.

 

Coração entristecido, um paradoxo,

Irradiava alegria em nosso meio,

O brilho dos seus olhos animava,

A vida do seu rosto transbordava.

 

Mas coração entristeceu sem eu saber,

E a tristeza consumiu as suas forças,

Algo implacável derrotou,

Levou de nós aquele coração.

 

Mas na lembrança ele ficará

Para sempre em nosso coração

Agora também entristecido

Nessa nossa severa solidão.

 

 

INÍCIO

 

 

El Matador

 

--- Walter Medeiros

 

Que tempos vivemos!

Tempos de matadores que surgem do nada; que não têm história.

Tempos de gente sem objetivo, que sai matando, tramando, esfolando.

Tempo de gente que age sem motivo.

Tempo sem mensagem a deixar para ninguém.

Tempo de linguajar e gíria sem sentido.

Tempo de final nunca programando.

Tempo sem opinião.

 

Onde anda a criatividade que nos impediria de fazer algo tão banal?

Cidade Alerta mostra o pesadelo do povo;

Rede TV mostra o pesadelo do povo;

Repórter Cidadão mostra o pesadelo do povo.

Patrulha Policial mostra o pesadelo do povo.

Jornal Nacional mostra o pesadelo do povo.

Aliás, não devia mostrar, pois finda transformando-se na apologia do crime.

                                                            na apologia da marginalidade.

Aliás, não devia mostrar, pois finda transformando-se na apologia da violência.

                                                            na apologia da trama.

 

Por quê ação só é entendida como movimento e atitudes de violência?

Por quê tanta coisa que nos rodeia tem de ser do mal?

Por quê tanta coisa tem de levar para o lado negativo da vida?

Será que ser criativo,

justo,

honesto,

delicado, é feio?

Será que ser amoroso,

amigo,

educado,

caridoso, é feio?

Será que ser compassivo,

fraterno,

religioso,

crente, é feio?

 

Será que ser carinhoso é feio?

Será que para ser másculo é preciso ser violento?

Será que para ser forte tem de ser marginal?

Será que para ser macho tem de andar com a boca cheia de palavrões?

Esse é o perigo do caminho!

 

Aproveitemos para mudar enquanto é tempo.

Brincadeira tem hora.

Aula é coisa séria.

Polícia também.

Crime leva para a cadeia.

Inda bem que foi apenas um pesadelo...

INÍCIO

Ano Novo

 

--- Walter Medeiros

 

Umas nuvens branco-rosa passam no fim da tarde,

Enquanto os passarinhos voam alvoroçados,

Em meio ao colorido das flores dos jardins.

 

Na esquina, um carro caridoso, de mala aberta,

Sacia a fome dos miseráveis dos canteiros,

Que mostram a injustiça social oficializada.

 

O Ano Novo já chegou em alguns lugares,

Talvez levando novas esperanças aos lares,

Apesar de ameaçarem tanto à paz.

 

Aqui bem perto uns tantos brinquedos,

Uma mesa bem posta para o jantar,

Que vai reunir aqueles que vierem.

 

Outros já tiveram de jantar aqui,

Mas o tempo muda e não vêm mais,

Pois para tão longe tiveram de ir.

 

Quando o novo dia despontar, festivo,

Quero que um sino venha anunciar,

Uma nova vida, com grande motivo.

 

E que um mistério venha dominar,

Para que então surja o mundo melhor,

Onde a paz e o amor estejam bem vivos.

 

INÍCIO

Sonzão

 

--- Walter Medeiros

 

Manhã, bem cedo, um som estridente,

muito além do que seria o normal, usual,

vem trazendo uma mensagem triunfal,

de alguém que vai passando, alegremente.

 

Não sei se está sóbrio ou embriagado,

mas sente-se que é uma loucura de amor,

daquelas que tanta gente já ousou,

quando se sentiu feliz e apaixonado.

 

E lá se vai o carro, que eu nem vejo,

deixando o som cá no meu jardim,

seguindo no sol d´uma segunda-feira.

 

A música fala de paixão, amor e beijo,

“que ninguém vai tirar você de mim”,

só quem ama entende essa zueira.

 

INÍCIO

 

Vontade

 

--- Walter Medeiros

 

(A meu pai, José Firmino)

 

Tenho vontade de ler Drummond,

Aquele Drummond que falava de José:

“Você é duro, José...”

 

Vontade de ouvir Moacir Franco,

Falando de um louco que vinha

“Das calçadas que o tempo não guardou”.

 

Vontade de sentir o perfume

Daquelas plantas silvestres,

Nos sítios de Mata Grande.

 

Vontade de rever aquelas mangueiras,

Que davam tantas sombras e frutos;

E deram lugar a edifícios, no Tirol.

 

Vontade de reler aquelas revistas

Que o tempo fez sumirem;

E que talvez nem existam mais.

 

Tenho vontade de ler Drummond,

Aquele Drummond que falava de José:

“Você é duro, José...”.

 

INÍCIO

 

Plutão

 

--- Walter Medeiros - 25.08.2006

 

O sentimento do mundo

Numa única emoção

Hoje está em Plutão,

Em seu desgosto profundo.

 

Não, não, eu não sou lunático,

Hoje sou um ser plutônico,

E estou muito atônito,

Com tamanho choque fático.

 

Roubaram a paz da Lua,

Festejaram o Corrouteck,

Puseram o Harley em xeque,

No ar cada um flutua.

 

Já tem Pinterfinder em Marte

Com um samba de Aragão

Universo de ilusão

Por quê não te revoltaste?

 

Ato tão autoritário

De homens sem coração

Agora cassam Plutão

No fim do nosso cenário.

 

Setenta e seis anos olhando,

Agora que descobriram

Astro que tantos já viram:

Seu corpo não é redondo.

 

Pois agora tem só um

No meu sistema solar:

Só Plutão vai povoar

A minha lente sem zoom.

 

A terra vai esperar

Que um dia de Plutão

Se olhe seu cinturão

Contornado pelo mar.

 

Quero ir para Plutão,

Defender o seu status

Não me renderei aos fatos

De tamanha aberração.

 

Como vão me convencer

Que só tem oito planetas

Se vejo em qualquer luneta

Que Plutão ‘stá a crescer?

 

 

O AUTOR

WALTER BEZERRA DE MEDEIROS - Nasceu no dia 17 de julho de 1953, em Natal-RN. É escritor, poeta, Jornalista Profissional e Bacharel em Direito. Trabalhou em diversos veículos de comunicação do país, entre eles a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, Rádios Cabugi e Planalto, TV Cabugi, Tribuna do Norte e Dois Pontos, tendo colaborado no jornal Movimento. Foi um dos fundadores do jornal cultural "O Galo", da Fundação José Augusto. Participou do jornal "O Letreiro", do curso de Letras da UFRN (1976) e do fanzine poético "A Margem". Publicou em 1990, o livro ABELARDO, O ALCOÓLATRA, trabalho que mostra o dia-a-dia de uma clínica de recuperação de dependentes químicos. Exerceu a Presidência da CERN, hoje Departamento Estadual de Imprensa  e a Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal de Natal. No Movimento Estudantil, foi presidente do Diretório Acadêmico do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFRN, em 1976. Exerceu também vários atividades sindicais, entre elas os cargos de vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RN e Diretor da Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ. Trabalha atualmente na Secretaria da Saúde do RN. e-mail: walterm.nat@terra.com.br    

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INÍCIO

 

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