Amor
Aquela sensação,
no fundo do coração,
que domina todo o
corpo,
como uma fisgada
violentíssima
da agulha mais afiada,
num relance confuso
entre toque de navalha
ou pluma
- é o amor.
INÍCIO
Flor
Flor menina que
deslumbra a vida
esplendo irradiado das
manhãs,
tece, qual relâmpago,
um tom bucólico,
aos olhos surpresos do
cupido.
Leva subitamente nas
asas de um sonho
olhos e corações
fisgados,
por campos de orvalho
orgásmigos,
um verdadeiro paraíso.
Flor cuidada
pacientemente
em dias tranquilos de
juventude
aroma gostoso que se dá
em troca do prazer.
Sente o afago aquecido
que deseja manter toda
vida
para viver eternamente
um
entrelaçado de corpos
escondidos.
INÍCIO
NATAL
Ouço harpas
angelicais,
Que trazem um som
divino,
Tocadas para um menino,
Que nasceu trazendo
paz.
Vejo a paz nos
semblantes,
Que me rodeiam cada
dia,
Parece uma fantasia,
Algo bem contagiante.
Sinto a vontade
sincera,
De ter um mundo melhor,
De amor, respeito e dó,
Fazendo uma nova era.
Desejo que nesta hora,
Um anjo bom te ilumine,
Que o amor nunca
termine,
Haja sempre boa aurora.
Ouço harpas
angelicais,
Sinto este som tão
divino,
Vamos louvar o menino,
Num Natal cheio de paz.
INÍCIO
O
canto
Um
lugar tão único, aconchegante,
Com
um belo jardim, tantas flores,
Que
tem certo encanto nas cores,
E
uma energia impressionante.
É
dali que ela admira a lua,
E
que sonha com um amanhã lindo,
Certa
que o seu príncipe ´stá vindo,
Pela
relva onde o amor flutua.
Brilham
tanto seus olhos pequenos,
E
sorri, sai dançando, e ela canta,
Dedicada
a um belo ritual.
Não
tem forma nem prazo, ao menos,
Mas
a sua certeza é tanta,
Que
já formam um lindo casal.
INÍCIO
O
Canto II
Ela
sabe que haverá um momento,
Em
que o esperado encontro terá,
E
que quando no futuro ingressar,
Viverá
todo o encantamento.
Na
beleza da noite tão clara,
Sabe
até o que irá lhe dizer,
Admirada,
dirá “é você?”,
Em
seguida, abraçada, se cala.
Vão
se olhar, deslumbrados, então,
Vão
se amar, bem ali, sem ter pressa,
Pois
o tempo será para eles.
E
o mundo cheio de emoção,
Ganhará
uma estória como essa,
Cada
um vai querer conhecê-los.
INÍCIO
Rosas
desbotadas
Aquele vestido cheio de
rosas desbotadas,
O cabelo assanhado, os
olhos tristes,
Os sorrisos temerosos e
indecidos,
A boca sem palavras, o
rosto suado,
Sumiram de vez, mas não
esqueço.
Muitas vezes recordo
aquela imagem,
Aquele andar manso, que
me atraía,
As mãos morenas e tão
pequenas,
Seus gestos que tanto
me comoviam,
Porque ela não queria
ser sozinha.
Nas tardes de sol eu a
contemplava;
Não sei se ela podia
ter algum prazer,
Tudo sobre seu viver eu
imaginava;
Muito pouco cheguei a
lhe dizer;
A timidez sempre me
controlava.
Não sei se ainda vive
e onde estará;
Faz muito tempo que não
a vejo,
Com aquela humildade
dos mendigos,
A bengala feita de um
cabo de vassoura,
E uma mão estendida em
silêncio.
INÍCIO
Prudente
Grande
avenida do progresso,
Asfalto,
trânsito e sinais,
Quase
não te reconheço mais,
Porém
de ti nunca me despeço.
Avenida
de areias colossais,
Crianças
brincavam, era zona rural,
Tão
distante do centro de Natal,
Foste
tu, oh! Prudente de Morais.
Décadas
atrás não tinhas trânsito,
Até
um riacho cortava teu leito,
Sítios,
mangueiras te enfeitavam.
Hoje
pouco lembra o teu passado,
Mas
bate uma saudade em meu peito,
Ao
rever alguns pedaços conservados.
INÍCIO
Fome
Humoristas
conversando
sobre
a estréia do espetáculo
no
outro dia.
Não
percebem
o
que se passa ao lado,
enquanto
falam de tanta alegria.
Lentamente,
emocionado,
passado de dor,
um
desempregado conta o seu triste drama,
chocando
um amigo, com tanta desgraça.
Uma
história nova, pior do que as outras.
Coisas
de redação de jornal.
Cada
um preocupado com as suas matérias,
mas
assistindo e vivendo as misérias.
O
desempregado, havia meses
também
compunha o ambiente,
e,
como vive a acontecer com muita gente,
passava
o drama do qual mais tinha medo.
Seu
filho menor
morreu
de fome.
Busca
ajuda
para
ver se enterra,
contando
da mãe e do que sobreviveu,
este
indagando quando o irmão volta.
Consegue
a ajuda
para
fazer o enterro.
Sai,
com fome, para o barraco.
E
continua sua vida, já fraco,
pelas
ruas da cidade
procurando
emprego.
INÍCIO
Madrugada
Na madrugada boêmia da Ribeira,
corpos sedentos vagam e se consomem;
nunca saciam a sede nem a fome,
é curto o tempo de uma noite inteira.
Na vitrola a ficha anima as putas,
que dançam e bebem e amam e choram,
algumas, pelo amor, até imploram,
outras enfrentam mesmo a força bruta.
Nunca escreverão completa a história
de belas noites chuvosas, embriagadas,
de festas bregas, de tombos nas calçadas,
gritos e brigas por coisas irrisórias.
Olhos cansados das noites perdidas
mãos perfumadas pelo álcool feroz,
palavras de amor do cantor sem voz,
abraços e beijos, sempre despedidas.
Os corpos vendidos sem qualquer prazer
transpiram o horror da sociedade
Oh! Deus, como apelar pela caridade,
e perdão dos pecados para cada ser...
Desperto tão sóbrio que me surpreendo,
agora a Ribeira não existe mais,
as putas mudaram para outro cáis,
O caso agora é ainda mais horrendo.
INÍCIO
A
Juraneide
--- Walter Medeiros
1989
Distante dos entes
queridos,
Solitária sob o Céu
aberto,
Ao pé daquele grande
cajueiro,
Permaneces onde a
natureza te pôs:
Ante o morro milenar
erguido,
A quem tinhas tanto
afeto,
Em teu viver tão
ligeiro.
INÍCIO
Dona
Luizinha
Se
eu voltar a Mata Grande,
Não
verei Dona Luizinha;
Disseram
que ela morreu.
Dona
Luizinha, a vizinha
Mais
amiga e amável
Que
esta vida nos deu.
Eu
ainda a vi, velhinha,
Lembrando
os belos tempos
Em
que eu era vizinho seu.
Não
por mim, por minha mãe,
A
sua grande amiga,
Que
também está com Deus.
Ela
lembrava dos dias
Que
a cidade começou
E
que à noite era um breu.
Em
meio às pedras da serra
Onde
a cidade se encerra
Onde
achou água e bebeu.
Depois,
um dia, fazia,
Aquele
pão com manteiga
Que
a gente nunca esqueceu.
Se
eu voltar a Mata Grande,
Não
verei Dona Luizinha,
Nem
pra lhe dizer adeus.
INÍCIO
ESCADA
O amor, quando chega
às vezes leva a gente
(com os sonhos que traz)
por uma escada de tantos batentes
pela qual se sobe, sobe e se quer subir mais
e se termina subindo até o fim.
De repente, no fim da escada
não se tem por onde seguir.
Econtra-se uma parede fechada.
Não se entende por quê
(Como é que se faz uma escada dessas?)
Não se quer descer de volta.
Cada batente é uma lágrima,
uma saudade,
uma decepção,
uma resignação,
o fim indesejado.
Tem de se abrir uma porta,
nem que seja com as próprias mãos,
sacrifícios,
perseverança,
paciência,
fé,
pois não é de se acreditar que o amor
nos leve a nada ruim
e depois da parede tem de estar o que se procura:
a felicidade,
que terá ido para lá, não se sabe por onde,
depois de passar tantas vezes por nós
enquanto subíamos.
INÍCIO
Bar do Gordo
Chegado da Chuva
O homem de paletó e pés descalços
Quis saber quando.
O dono do bar respondeu
Prontamente – de tarde: duas horas.
E era de manhã.
Ele achou ótimo
E ficou sob a marquise, esperando
Restos de comida.
No balcão de pedra
Uma mulher bebe uma dose de cachaça
E parece tão cedo.
Ela vê o jornal:
Amigos na página policial,
- presos de novo!
Chega uma amiga
Para tomar café com pão, fiado:
Ninguém lhe quis na noite.
Na mesa do canto
Outro dorme entre copos e garrafas
Abandonado;
Cansado da noite
Em que quis mandar na zona
E se arriou.
À sua espera
Uma conta desse tamanho
Na mão do gordo.
INÍCIO
Reencontro
Quantos
rostos não vieram
Comemorar
esta data...
Onde
estão aqueles rostos,
Cuja
lembrança arrebata?
Que
destino eles seguiram
Pela
estrada da vida...
Onde
estão aqueles rostos
Daquela
era tão querida?
Algo
nosso assim sumiu
Junto
com aqueles rostos
Algo
que a nós uniu
Na
vida de tantos gostos.
Vamos
buscar a nós mesmos
Onde
quer que estejamos
Pois
vêm do peito reclamos
nalgumas
súplicas a esmo.
Pode
ser na multidão
Quem
sabe o seu destino?
Talvez
tocando um sino
Ou
fazendo uma oração.
Ao
menos eu pensamento
Precisamos
resgatar
O
brilho de cada olhar
Mesmo
que por um momento.
Vamos
fazer isto agora
Num
silencioso instante
Que
uma luz bem brilhante
Ilumine-me
esta hora.
INÍCIO
Coração
Entristecido
Convivi
com um coração entristecido,
Mas
não via tristeza em seus olhos,
Nunca
vi tristeza em seu rosto,
Nunca
vi tristeza em seus lábios.
Coração
entristecido, um paradoxo,
Irradiava
alegria em nosso meio,
O
brilho dos seus olhos animava,
A
vida do seu rosto transbordava.
Mas
coração entristeceu sem eu saber,
E
a tristeza consumiu as suas forças,
Algo
implacável derrotou,
Levou
de nós aquele coração.
Mas
na lembrança ele ficará
Para
sempre em nosso coração
Agora
também entristecido
Nessa
nossa severa solidão.
INÍCIO
El
Matador
---
Walter Medeiros
Que
tempos vivemos!
Tempos
de matadores que surgem do nada; que não têm história.
Tempos
de gente sem objetivo, que sai matando, tramando, esfolando.
Tempo
de gente que age sem motivo.
Tempo
sem mensagem a deixar para ninguém.
Tempo
de linguajar e gíria sem sentido.
Tempo
de final nunca programando.
Tempo
sem opinião.
Onde
anda a criatividade que nos impediria de fazer algo tão banal?
Cidade
Alerta mostra o pesadelo do povo;
Rede
TV mostra o pesadelo do povo;
Repórter
Cidadão mostra o pesadelo do povo.
Patrulha
Policial mostra o pesadelo do povo.
Jornal
Nacional mostra o pesadelo do povo.
Aliás,
não devia mostrar, pois finda transformando-se na apologia do
crime.
na apologia da marginalidade.
Aliás,
não devia mostrar, pois finda transformando-se na apologia da violência.
na apologia da trama.
Por
quê ação só é entendida como movimento e atitudes de violência?
Por
quê tanta coisa que nos rodeia tem de ser do mal?
Por
quê tanta coisa tem de levar para o lado negativo da vida?
Será
que ser criativo,
justo,
honesto,
delicado,
é feio?
Será
que ser amoroso,
amigo,
educado,
caridoso,
é feio?
Será
que ser compassivo,
fraterno,
religioso,
crente,
é feio?
Será
que ser carinhoso é feio?
Será
que para ser másculo é preciso ser violento?
Será
que para ser forte tem de ser marginal?
Será
que para ser macho tem de andar com a boca cheia de palavrões?
Esse
é o perigo do caminho!
Aproveitemos
para mudar enquanto é tempo.
Brincadeira
tem hora.
Aula
é coisa séria.
Polícia
também.
Crime
leva para a cadeia.
Inda
bem que foi apenas um pesadelo...
INÍCIO
Ano
Novo
--- Walter Medeiros
Umas nuvens branco-rosa
passam no fim da tarde,
Enquanto os passarinhos
voam alvoroçados,
Em meio ao colorido das
flores dos jardins.
Na esquina, um carro
caridoso, de mala aberta,
Sacia a fome dos miseráveis
dos canteiros,
Que mostram a injustiça
social oficializada.
O Ano Novo já chegou
em alguns lugares,
Talvez levando novas
esperanças aos lares,
Apesar de ameaçarem
tanto à paz.
Aqui bem perto uns
tantos brinquedos,
Uma mesa bem posta para
o jantar,
Que vai reunir aqueles
que vierem.
Outros já tiveram de
jantar aqui,
Mas o tempo muda e não
vêm mais,
Pois para tão longe
tiveram de ir.
Quando o novo dia
despontar, festivo,
Quero que um sino venha
anunciar,
Uma nova vida, com
grande motivo.
E que um mistério
venha dominar,
Para que então surja o
mundo melhor,
Onde a paz e o amor
estejam bem vivos.
INÍCIO
Sonzão
---
Walter Medeiros
Manhã,
bem cedo, um som estridente,
muito
além do que seria o normal, usual,
vem
trazendo uma mensagem triunfal,
de
alguém que vai passando, alegremente.
Não
sei se está sóbrio ou embriagado,
mas
sente-se que é uma loucura de amor,
daquelas
que tanta gente já ousou,
quando
se sentiu feliz e apaixonado.
E lá
se vai o carro, que eu nem vejo,
deixando
o som cá no meu jardim,
seguindo
no sol d´uma segunda-feira.
A música
fala de paixão, amor e beijo,
“que
ninguém vai tirar você de mim”,
só
quem ama entende essa zueira.
INÍCIO
Vontade
--- Walter Medeiros
(A meu pai, José
Firmino)
Tenho vontade de ler
Drummond,
Aquele Drummond que
falava de José:
“Você é duro, José...”
Vontade de ouvir Moacir
Franco,
Falando de um louco que
vinha
“Das calçadas que o
tempo não guardou”.
Vontade de sentir o
perfume
Daquelas plantas
silvestres,
Nos sítios de Mata
Grande.
Vontade de rever
aquelas mangueiras,
Que davam tantas
sombras e frutos;
E deram lugar a edifícios,
no Tirol.
Vontade de reler
aquelas revistas
Que o tempo fez
sumirem;
E que talvez nem
existam mais.
Tenho vontade de ler
Drummond,
Aquele Drummond que
falava de José:
“Você é duro, José...”.
INÍCIO
Plutão
---
Walter Medeiros - 25.08.2006
O
sentimento do mundo
Numa
única emoção
Hoje
está em Plutão,
Em
seu desgosto profundo.
Não,
não, eu não sou lunático,
Hoje
sou um ser plutônico,
E
estou muito atônito,
Com
tamanho choque fático.
Roubaram
a paz da Lua,
Festejaram
o Corrouteck,
Puseram
o Harley em xeque,
No ar
cada um flutua.
Já
tem Pinterfinder em Marte
Com
um samba de Aragão
Universo
de ilusão
Por
quê não te revoltaste?
Ato tão
autoritário
De
homens sem coração
Agora
cassam Plutão
No
fim do nosso cenário.
Setenta
e seis anos olhando,
Agora
que descobriram
Astro
que tantos já viram:
Seu
corpo não é redondo.
Pois
agora tem só um
No
meu sistema solar:
Só
Plutão vai povoar
A
minha lente sem zoom.
A
terra vai esperar
Que
um dia de Plutão
Se
olhe seu cinturão
Contornado
pelo mar.
Quero
ir para Plutão,
Defender
o seu status
Não
me renderei aos fatos
De
tamanha aberração.
Como
vão me convencer
Que só
tem oito planetas
Se
vejo em qualquer luneta
Que
Plutão ‘stá a crescer?