Impossível
Eu
quero o impossível.
Se
não conseguir, terei lutado por ele.
Quem
sabe não chego perto, e, num descuido,
A
natureza o transforma em possível?
Quem
sabe, chegando perto, a natureza ache
Que
mereço, por ter lutado tanto?
Eu
quero o impossível.
Se
não conseguir, não terei me acomodado.
Vou
em sua busca, para conquistá-lo
E
trarei as respostas em minhas mãos.
Vou
em sua busca, lutando por ele,
Mesmo
que as mãos fiquem calejadas.
Eu
quero o impossível.
Se
não conseguir, terei mudado o mundo.
Vou
mudar o mundo, pois não me conformo
Com
a falta de esperança da humanidade.
Vou
mudar o mundo, para que a justiça
Seja
a voz do justo, seja ele forte ou fraco.
Eu
quero o impossível.
Se
não conseguir, terei regado a paz.
Vou
buscar a paz em todos os lugares,
Até
nas filas dos famintos e desempregados.
Vou
buscar a paz em
qualquer multidão,
Pois
segundo o poeta a multidão é Deus.
INÍCIO
Noites
Cadê
aquelas noites tão vibrantes,
Onde
nós fizemos revolução,
Onde
se buscava a liberdade,
Mudando
o mundo com a nossa mão?
Cadê
aquele grito – “eu sou livre”,
Mesmo
que fosse gritado em inglês;
E
o mar azul, tão assanhado,
Que
amávamos ao som de Elvis?
Cadê
aquelas mesas tão pequenas,
Cadê
o alpendre do Castanhola,
Cadê
a música de Fon, de Lola,
Cadê
o meu bolinho - bacalhau?
Cadê
a animação de Juraneide,
Cadê
Sérgio Dieb e seus desenhos,
Cadê
Ceres, Manoel Vale, onde estão,
Onde
estão nossas noites, anos setenta?
Cadê
aquela ânsia de estar juntos,
Cadê
aqueles rostos tão amados,
Cadê
aqueles planos do passado,
Cadê
nosso futuro? Diga, irmão!
INÍCIO
Cine
Aquela
bandeira vermelha na multidão,
Naquele
silêncio contido da platéia,
Que
pela primeira vez via Metello,
E
isso já era um ato de revolução;
Aquela
greve de tantos perigos,
Que
tinha de ser feita por alguém,
Enchia
a tela e nossos olhos também;
Soava
para nós tal qual um abrigo.
Era
o melhor das manhãs de domingo,
No
nosso tempo de cinema de arte,
Cada
um de nós fazia a sua parte
Nenhum
mais que outro eu distingo.
Na
calçada, a banca de revistas,
Vendia
um semanário proibido,
Falando
de mais um crime cometido
Nos
porões da ditadura fascista.
E
a gente sonhava nossos sonhos
-
a todos segundo as necessidades;
Onde
foram parar essas verdades,
Que
resultaram em algo tão estranho...?
Depois
do cine, no
Bar Pitombeira,
O
encontro conferia as liberdades,
Era
uma total solidariedade,
Difícil
que tivesse alguma asneira.
Ali
era mesmo um por todos:
Dividiam
até o ar que respiravam;
Nenhuma
força bruta dominava,
Aqueles
que lutavam com denodo.
INÍCIO
Havia
um sonho
Havia
um sonho bem grande
-
por um mundo mais feliz:
Um
sonho compartilhado,
Sonho
vivido e cantado,
Que
ora diz, ora não diz;
Era
um sonho tão grande...
Havia
um sonho bem grande
-
sonho por melhores dias:
Muita
gente ali lutava,
E
na luta se entregava;
Era
com amor que fazia,
Aquele
sonho tão grande...
Havia
um sonho bem grande
-
sonho de transformação:
Cheio
de luta e coragem,
Era
uma camaradagem,
No
meio da multidão,
Fazendo
um sonho tão grande...
Havia
um sonho bem grande
-
por uma revolução:
Para
mudar este mundo,
Todos
queriam ir fundo,
Sem
qualquer contemplação,
Buscar
o sonho tão grande...
Havia
um sonho bem grande
-
fosse noite ou fosse dia:
Tudo
que era preciso,
Enfrentando
até granizo,
Buscávamos
a alegria,
Daquele
sonho tão grande...
Havia
um sonho bem grande
-
uma têmpera bem forjada:
De
buscar nova jornada,
Contra
a desigualdade,
No
campo e na cidade,
Era
um sonho tão grande...
Havia
um sonho bem grande
-
sonho que não acabou:
Da
vida minha e da sua,
Um
sonho que continua,
Um
sonho feito de amor,
Que
é um sonho tão grande...
INÍCIO
Castanhola
A
praia ´inda recebe as mesmas ondas,
Onde
minha mãe sempre me levou,
Onde
eu olhava, embriagado,
Cenas
que o tempo em mim guardou.
Oh!
grande alpendre de belas tardes,
Fins-de-semana
de revolução,
De
tantas lutas pelas liberdades,
Sonhos
e lutas que não foram em vão.
Mas
não te olho nem mais te vejo,
Só
mesmo uma brisa me faz lembrar,
Tão
belas tardes diante do mar,
No
Castanhola, quanto desejo...
INÍCIO
Lembrar
Lembra
daquele sonho
Que
sonhamos juntos
Ouvindo
MPB...?
Ninguém
podia nos ver
Nem
escutar os assuntos
Era
um penar medonho.
A
gente sonhava tanto
Com
nossa revolução
Pregada
em cada esquina,
Inda
eras quase menina
Mas
além da aflição
Não
esquecias o canto.
Cantavas
como acinte
Pelo
fim da ditadura,
Falavas
em sala escura,
Sem
perder tua candura,
Nossa
causa era tão pura,
Tinha
o melhor requinte.
Aquele
sonho valeu,
Ficou
no ar da cidade
Pra
nunca mais se acabar
Quando
se realizar
Vai
virar a liberdade
Que
o tempo não perdeu.
Lembra...?
Em
cada rua a ditadura estava.
Em
cada esquina ela tinha um olho.
Mas
o que ela não imaginava,
Era
que o povo tinha argúcia.
E
era então usando a astúcia,
Que
liberdade desenhava;
Foi
pro passado o trambolho,
Que
tanto mal nos causava.
Lembra...?
Eram
uns gestos bem jovens,
Que
alegremente esboçava
A
turma que se formava,
E inda hoje me comovem.
Eram
uns gestos sentidos,
Carregados
de emoção,
Do
fundo do coração,
Em
dias tão bem vividos.
Eram
gestos verdadeiros,
Refletindo
a realidade
Da
falta de liberdade
No
amor aos companheiros.
Eram
gestos de coragem,
Para
uns, idealismo,
Para
outros, comunismo,
Só
não eram mesmo pajens.
Eram
gestos de rebeldia,
Buscando
um mundo melhor;
Ninguém
se sentia só,
Por
crer em um novo dia.
INÍCIO
Ruga
Aquela
ruga no olhar,
Que
o tempo pôs,
Em
noite mal dormida,
Da
mágoa de amor,
Não
mudou o rosto
Manteve
a beleza
Que
reflete até mesmo
Na
expressão de dor.
Aquela
ruga do rosto,
Registra
uma saudade,
De
uma felicidade,
De
um tempo que passou,
Para
olhar no espelho
Lembrando
singelos
Dias
que na mente
O
coração guardou.
Aquela
ruga da alma,
Que
não mostra a ninguém,
É
algo que vai além
Daquela
face tão calma,
Guarda
toda uma tristeza
A
saudade ali tão presa
Que
só lhe cabe sentir
No
tempo e na natureza.
INÍCIO
Eterno
Eterno
seja
O
encontro dos passos que não quebram o silêncio,
Das mãos dadas que
enfrentam os males,
Das tardes serenas e
ternas de amor.
Eterna
seja
A
resistência à resignação, que deplora a natureza,
Ao esquecimento do que se
quer lembrar,
Aos caprichos implacáveis
do tempo.
Eterno
seja
O
tremor nos corações que sentem a realidade,
Nos lábios doces que
dizem o não,
Nos braços sensuais que
se apertam.
Eterna
seja
A
paisagem da praia, do rio, da chuva forte,
Da noite amena e aflita,
Da rua onde se vive as ânsias.
INÍCIO
A
lágrima
Na
manhã chuvosa,
Uma
lágrima fria
Rola
no meu rosto,
Riscando
a tristeza
Da
minha saudade.
E a
face percorre,
Sem
a fantasia
Que
fez o meu gosto,
Com
sua beleza
Sem
realidade.
Abstrata
prosa
Da
minha alegria,
Sempre
absorto
Pela
singeleza
Da
felicidade.
Lágrima
formosa,
Como
eu queria
Sentir-te
maroto,
Mas
a natureza
Não
tem piedade.
Rasga
carinhosa
Minha
teimosia,
De
menino afoito
Com
tua leveza,
Busca
caridade.
Bolhinha
amorosa
Lentamente
esfria
O
semblante exposto
De
minha pureza
Cheia
de verdade
Corrias
sigilosa
Mas
eu te sentia,
Pois
não estou morto
E
tua surpresa
Deixa-me
passado.
Lágrima
famosa
Eu
te adoraria,
Mas
fizeste-me outro
Lembrando
na chuva
A
mulher amada.
INÍCIO
Dor
Eu
seguro uma dor
Em
forma de coração;
Na
bela noite de lua,
Véspera
da primavera.
Nas
mãos sinto seu formato,
Segurando
sem querer
Sem
vontade de soltar
Sem
saber o que fazer.
É
uma dor que me domina,
Dor
que faz parte de mim,
De
começo e de fim,
De
casa e da esquina.
A
vontade que me dá
É
de pegar essa dor
E
para longe atirar
Sem
mágoa e sem rancor.
Livrar-me
dela pra sempre,
Seria
melhor pra mim
Mas
isso não é assim
Ela
é muito insistente.
Como
faz parte de mim
Tenho
mais que carregar
Gemer,
sofrer, suportar,
Fica,
dor! Dói, dói assim!
INÍCIO
Uma
noite
Havia
barulho do mar,
Atravessando
a vidraça,
Havia
um par de taças,
E
um desejo de amar.
Havia
olhares felizes,
Pela
penumbra da noite,
E
muitos gestos afoitos,
Alguns
até sem matrizes.
Era
o primeiro encontro
De
um amor alimentado
Desde
os dias da infância.
O
desejo era tanto,
Que
findaram entregados,
Na
alcova, sem distâncias.
INÍCIO
Nua
Nua
se alisa;
Correm
essências
Na
água morna.
Nua
se sente;
Esquece
tudo,
Pensando
o mundo.
Nua
sozinha,
Brilham
os olhos,
Sem
perceber.
Nua
vaga,
Entre
paredes,
Molhada.
Nua
se vai
Para
o espelho,
Seu
retrato.
Nua
deixa a sala, e
O
mundo empolga
Toda
vestida.
INÍCIO
Felicidade
Fiz
um balanço de belos momentos
que
em minha vida eu pude encontrar;
onde
fui feliz eu posso afirmar,
mesmo
que somando seja pouco tempo.
Passei
na infância e encontrei minha mãe
,
Minha
professora - tão bela e ditosa,
Meu
pais, meus avós - tanta prosa,
E
a convivência com os meus irmãos.
Jovem,
fui soldado - que poder eu tinha!
Que
garbo, que honra depunha na farda
...
Foi
um grande tempo que a memória guarda:
Guarnecia
a Pátria, andava na linha,
Inda
jovem, ia pros bailes da vida;
De
tudo fazia, tive meus amores
;
Em
meio a eles alguns dissabores
,
Pois
até nestes a felicidade é contida
.
Fui
seguindo e vivendo essa história,
Somando
emoções que nem lembro mais
;
Feliz
eu saía até nos jornais
,
Eram
mesmo dias de grandes vitórias
.
Hoje
vejo tudo cheio de saudade,
Não
sei aonde eu fui mais feliz
,
Nem
sei onde anda muito do que quis
,
Mas
tenho um saldo de felicidade.
INÍCIO
Melodia
Lanço um olhar ao Céu
e vejo
Legião de notas
musicais;
Do, ré, mi, fá e
outras mais,
Descendo qual belo
lampejo.
Lembro o som de meus
corais,
Que falam de
beija-flor,
De janela, lua, amor,
E da amada Edelweiss.
Cada nota traz o amor,
Que grita desesperado;
Um sonido abafado,
Cheio de raro pudor.
Chega junto uma
saudade,
Uma lágrima incontida,
Numa face já sofrida,
Distante da mocidade.
Se pareciam perdidas,
Tudo muda de repente,
E vejo em minha frente,
Agora as notas unidas.
Com um toque excelente,
Formam uma bela valsa,
Sem nenhuma nota falsa,
Fico a ouvi-la,
silente.
Sinto-me só numa praça,
Troco alguns passos na
dança,
Distraído qual criança,
Nem ligo para quem
passa.
Mas esse som contagia,
Vejo mais gente dançando,
Fico quase meditando,
Tomado pela alegria.
Seguimos p’ro
meio-dia
Do Céu, as nuvens me
olham,
Aos poucos se
desenrolam,
Ouvindo a melodia.
Somem as nuvens e as
notas,
Deixando-me adormecido,
Acordei, já tinham
ido,
Perdi sozinho a rota.
INÍCIO
Envolvimento
Na
tarde verde de chuva
Os
amantes vivem,
Levados
pelo amor natural:
Dos
olhos, o carinho;
Passos
iguais entre as árvores,
Como
nunca imaginaram.
Vozes
embargadas no querer dizer,
Peitos
cortados, palavras fortes,
Gestos
falando mais que esperavam.
Na
expiração sagrada, param;
Tocam-se
as mãos, trêmulas e frias;
Coincide,
brusca, a idéia de ter.
Abraçam-se
e apertam os olhos,
Beijam-se
e alisam-se
Dos
cabelos às costas;
Sem
pressa e com que pressa...
Tresloucadamente,
Pensando
naquela energia.
Rápido
entregam-se para sempre:
Juras,
desejo, paixão;
A
respiração excitando a pele.
Os
corpos felizes e rijos,
Desatinados,
murmurando amor,
Gemendo
ao vento frio.
No
querer e no sentir,
Envolvem-se
no (in)esperado
Que
jamais saberão descrever.
INÍCIO
Perfeição
Teus
joelhos dobrados,
Brilho
do bronze quente,
Rosa
que reflete e toca,
Sem
saber, meu coração.
Faz
trêmulos os lábios,
A
voz que nada diz,
Os
olhos que disfarçam,
As
mãos cheias de ânsia.
Dobrados
e juntos
Provocando
desejo,
Sonhos
e planos
De
toda uma vida.
Joelhos
expostos,
Amostra
tão bela
Das
pernas perfeitas
Que
sempre quis.
INÍCIO
Encanto
Quero
levar o meu amor
Para
um lugar tão bom;
Que
não exista
Um
mundo igual,
E
lá nos guardaremos.
Quero
o seu peito tão macio,
Para
me afagar;
Todos
os dias,
Despreocupados,
Sonhando
acordado.
Quero
que nesse nosso encanto
Exista
só nós dois
e
mais ninguém.
E
que nunca apareça
Sombra
do dissabor.
INÍCIO
Mágoas
de mim
Sinto
uma vontade imensa
De
voltar à infância,
À
juventude, àqueles anos;
Porque
faltou algo
Que
devia ter feito.
Sinto
que não percebi
O
valor de tudo que tive
Naqueles
tempos de sonho.
Hoje
tudo me faz ver
O
quanto eu fui feliz.
Sinto
pelo que passou;
A
cada dia vou perdendo
Muito
do que tanto amei.
E
procuro entender tudo
Quando
meu coração aperta.
Sinto
que tudo me diz
Um
pouco do que sempre amei
Assim
lembro cada momento
Nos
versos dos meus poetas
E
em belíssimas melodias.
Sinto
a saudade, que doe,
O
amor, que nunca morrerá,
Os
momentos incomparáveis,
O
que quis e nunca tive,
O
que não mais posso querer.
Sinto
a beleza que não enxerguei,
A
angústia do tarde demais.
Porém
não me arrependo,
Apenas
sofro e procuro
Sufocar
estas mágoas de mim.
INÍCIO
Euforia
Havia
uma vontade quente
De
comemorar,
De
demonstrar a alegria
Que
invadia,
E
de orar
Num
cantinho, silente.
Havia,
ao lado, muita gente
A
passar.
Ninguém
sabia
Que
queria
Festejar
De
forma diferente.