Poemas desclassificados de Walter Medeiros

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ÍNDICE

Impossível

Felicidade

Noites

Melodia

Cine

Envolvimento

Havia um Sonho

Perfeição

Castanhola

Encanto

Lembrar

Mágoas de mim

Ruga

Euforia

Eterno

Romana

A Lágrima

Beijo

Dor

Reencontro

Uma noite

Pintura

Nua

O AUTOR

Poemas de Cordel

Causos

Poemas para Bagdá

Walter no PlanetaJ

Qualidade

Alcoolismo

Impressão

Poesia Circular

Câmara Brasileira de Jovens Escritores

Poesia Apreciada

Sobresites - Forum de Poesia 

Mundo Jovem 

 

 

 

 

 

 

 

Impossível

 

Eu quero o impossível.

Se não conseguir, terei lutado por ele.

Quem sabe não chego perto, e, num descuido,

A natureza o transforma em possível?

Quem sabe, chegando perto, a natureza ache

Que mereço, por ter lutado tanto?

 

Eu quero o impossível.

Se não conseguir, não terei me acomodado.

Vou em sua busca, para conquistá-lo

E trarei as respostas em minhas mãos.

Vou em sua busca, lutando por ele,

Mesmo que as mãos fiquem calejadas.

 

Eu quero o impossível.

Se não conseguir, terei mudado o mundo.

Vou mudar o mundo, pois não me conformo

Com a falta de esperança da humanidade.

Vou mudar o mundo, para que a justiça

Seja a voz do justo, seja ele forte ou fraco.

 

Eu quero o impossível.

Se não conseguir, terei regado a paz.

Vou buscar a paz em todos os lugares,

Até nas filas dos famintos e desempregados.

Vou buscar a paz  em qualquer multidão,

Pois segundo o poeta a multidão é Deus.

INÍCIO

 

Noites

 

Cadê aquelas noites tão vibrantes,

Onde nós fizemos revolução,

Onde se buscava a liberdade,

Mudando o mundo com a nossa mão?

 

Cadê aquele grito – “eu sou livre”,

Mesmo que fosse gritado em inglês;

E o mar azul, tão assanhado,

Que amávamos ao som de Elvis?

 

Cadê aquelas mesas tão pequenas,

Cadê o alpendre do Castanhola,

Cadê a música de Fon, de Lola,

Cadê o meu bolinho - bacalhau?

 

Cadê a animação de Juraneide,

Cadê Sérgio Dieb e seus desenhos,

Cadê Ceres, Manoel Vale, onde estão,

Onde estão nossas noites, anos setenta?

 

Cadê aquela ânsia de estar juntos,

Cadê aqueles rostos tão amados,

Cadê aqueles planos do passado,

Cadê nosso futuro? Diga, irmão!

 

INÍCIO

 

Cine

 

Aquela bandeira vermelha na multidão,

Naquele silêncio contido da platéia,

Que pela primeira vez via Metello,

E isso já era um ato de revolução;

 

Aquela greve de tantos perigos,

Que tinha de ser feita por alguém,

Enchia a tela e nossos olhos também;

Soava para nós tal qual um abrigo.

 

Era o melhor das manhãs de domingo,

No nosso tempo de cinema de arte,

Cada um de nós fazia a sua parte

Nenhum mais que outro eu distingo.

 

Na calçada, a banca de revistas,

Vendia um semanário proibido,

Falando de mais um crime cometido

Nos porões da ditadura fascista.

 

E a gente sonhava nossos sonhos

- a todos segundo as necessidades;

Onde foram parar essas verdades,

Que resultaram em algo tão estranho...?

 

Depois do cine,  no  Bar Pitombeira,

O encontro conferia as liberdades,

Era uma total solidariedade,

Difícil que tivesse alguma asneira.

 

Ali era  mesmo um por todos:

Dividiam até o ar que respiravam;

Nenhuma força bruta dominava,

Aqueles que lutavam com denodo.

 

 

INÍCIO

 

Havia um sonho

 

Havia um sonho bem grande

- por um mundo mais feliz:

Um sonho compartilhado,

Sonho vivido e cantado,

Que ora diz, ora não diz;

Era um sonho tão grande...

 

Havia um sonho bem grande

- sonho por melhores dias:

Muita gente ali lutava,

E na luta se entregava;

Era com amor que fazia,

Aquele sonho tão grande...

 

Havia um sonho bem grande

- sonho de transformação:

Cheio de luta e coragem,

Era uma camaradagem,

No meio da multidão,

Fazendo um sonho tão grande...

 

Havia um sonho bem grande

- por uma revolução:

Para mudar este mundo,

Todos queriam ir fundo,

Sem qualquer contemplação,

Buscar o sonho tão grande...

 

Havia um sonho bem grande

- fosse noite ou fosse dia:

Tudo que era preciso,

Enfrentando até granizo,

Buscávamos a alegria,

Daquele sonho tão grande...

 

Havia um sonho bem grande

- uma têmpera bem forjada:

De buscar nova jornada,

Contra a desigualdade,

No campo e na cidade,

Era um sonho tão grande...

 

Havia um sonho bem grande

- sonho que não acabou:

Da vida minha e da sua,

Um sonho que continua,

Um sonho feito de amor,

Que é um sonho tão grande...

 

INÍCIO

 

Castanhola

 

A praia ´inda recebe as mesmas ondas,

Onde minha mãe sempre me levou,

Onde eu olhava, embriagado,

Cenas que o tempo em mim guardou.

 

Oh! grande alpendre de belas tardes,

Fins-de-semana de revolução,

De tantas lutas pelas liberdades,

Sonhos e lutas que não foram em vão.

 

Mas não te olho nem mais te vejo,

Só mesmo uma brisa me faz lembrar,

Tão belas tardes diante do mar,

No Castanhola, quanto desejo...

 

INÍCIO

Lembrar

 

Lembra daquele sonho

Que sonhamos juntos

Ouvindo MPB...?

Ninguém podia nos ver

Nem escutar os assuntos

Era um penar medonho.

 

A gente sonhava tanto

Com nossa revolução

Pregada em cada esquina,

Inda eras quase menina

Mas além da aflição

Não esquecias o canto.

 

Cantavas como acinte

Pelo fim da ditadura,

Falavas em sala escura,

Sem perder tua candura,

Nossa causa era tão pura,

Tinha o melhor requinte.

 

Aquele sonho valeu,

Ficou no ar da cidade

Pra nunca mais se acabar

Quando se realizar

Vai virar a liberdade

Que o tempo não perdeu.

 

Lembra...?

 

Em cada rua a ditadura estava.

Em cada esquina ela tinha um olho.

 

Mas o que ela não imaginava,

Era que o povo tinha argúcia.

 

E era então usando a astúcia,

Que liberdade desenhava;

 

Foi pro passado o trambolho,

Que tanto mal nos causava.

 

Lembra...?

 

Eram uns gestos bem jovens,

Que alegremente esboçava

A turma que se formava,

E  inda hoje me comovem.

 

Eram uns gestos sentidos,

Carregados de emoção,

Do fundo do coração,

Em dias tão bem vividos.

 

Eram gestos verdadeiros,

Refletindo a realidade

Da falta de liberdade

No amor aos companheiros.

 

Eram gestos de coragem,

Para uns, idealismo,

Para outros, comunismo,

Só não eram mesmo pajens.

 

Eram gestos de rebeldia,

Buscando um mundo melhor;

Ninguém se sentia só,

Por crer em um novo dia.

INÍCIO

 

Ruga

 

Aquela ruga no olhar,

Que o tempo pôs,

Em noite mal dormida,

Da mágoa de amor,

Não mudou o rosto

Manteve a beleza

Que reflete até mesmo

Na expressão de dor.

 

Aquela ruga do rosto,

Registra uma saudade,

De uma felicidade,

De um tempo que passou,

Para olhar no espelho

Lembrando singelos

Dias que na mente

O coração guardou.

 

Aquela ruga da alma,

Que não mostra a ninguém,

É algo que vai além

Daquela face tão calma,

Guarda toda uma tristeza

A saudade ali tão presa

Que só lhe cabe sentir

No tempo e na natureza.

INÍCIO

 

Eterno

 

Eterno seja

O encontro dos passos que não quebram o silêncio,

                        Das mãos dadas que enfrentam os males,

                        Das tardes serenas e ternas de amor.  

Eterna seja

A resistência à resignação, que deplora a natureza,

                        Ao esquecimento do que se quer lembrar,

                        Aos caprichos implacáveis do tempo.

Eterno seja

O tremor nos corações que sentem a realidade,

                        Nos lábios doces que dizem o não,

                        Nos braços sensuais que se apertam.

Eterna seja

A paisagem da praia, do rio, da chuva forte,

                        Da noite amena e aflita,

                        Da rua onde se vive as ânsias.

 

INÍCIO

 

A lágrima

 

Na manhã chuvosa,

Uma lágrima fria

Rola no meu rosto,

Riscando a tristeza

Da minha saudade.

 

E a face percorre,

Sem a fantasia

Que fez o meu gosto,

Com sua beleza

Sem realidade.

 

Abstrata prosa

Da minha alegria,

Sempre absorto

Pela singeleza

Da felicidade.

 

Lágrima formosa,

Como eu queria

Sentir-te maroto,

Mas a natureza

Não tem piedade.

 

Rasga carinhosa

Minha teimosia,

De menino afoito

Com tua leveza,

Busca caridade.

 

Bolhinha amorosa

Lentamente esfria

O semblante exposto

De minha pureza

Cheia de verdade 

 

Corrias sigilosa

Mas eu te sentia,

Pois não estou morto

E tua surpresa

Deixa-me passado.

 

Lágrima famosa

Eu te adoraria,

Mas fizeste-me outro

Lembrando na chuva

A mulher amada.

 

INÍCIO

 

Dor

 

Eu seguro uma dor

Em forma de coração;

Na bela noite de lua,

Véspera da primavera.

 

Nas mãos sinto seu formato,

Segurando sem querer

Sem vontade de soltar

Sem saber o que fazer.

 

É uma dor que me domina,

Dor que faz parte de mim,

De começo e de fim,

De casa e da esquina.

 

A vontade que me dá

É de pegar essa dor

E para longe atirar

Sem mágoa e sem rancor.

 

Livrar-me dela pra sempre,

Seria melhor pra mim

Mas isso não é assim

Ela é muito insistente.

 

Como faz parte de mim

Tenho mais que carregar

Gemer, sofrer, suportar,

Fica, dor! Dói, dói assim!

 

INÍCIO

 

Uma noite

 

Havia barulho do mar,

Atravessando a vidraça,

Havia um par de taças,

E um desejo de amar.

 

Havia olhares felizes,

Pela penumbra da noite,

E muitos gestos afoitos,

Alguns até sem matrizes.

 

Era o primeiro encontro

De um amor alimentado

Desde os dias da infância.

 

O desejo era tanto,

Que findaram entregados,

Na alcova, sem distâncias.

INÍCIO

 

Nua

           

Nua se alisa;

Correm essências

Na água morna.

 

Nua se sente;

Esquece tudo,

Pensando o mundo.

 

Nua sozinha,

Brilham os olhos,

Sem perceber.

 

Nua vaga,

Entre paredes,

Molhada.

 

Nua se vai

Para o espelho,

Seu retrato.

 

Nua deixa a sala, e

O mundo empolga

Toda vestida.

 

INÍCIO

 

Felicidade

 

Fiz um balanço de belos momentos

que em minha vida eu pude encontrar;

onde fui feliz eu posso afirmar,

mesmo que somando seja pouco tempo.

 

Passei na infância e encontrei minha mãe ,

Minha professora - tão bela e ditosa,

Meu pais, meus avós - tanta prosa,

E a convivência com os meus irmãos.

 

Jovem, fui soldado - que poder eu tinha!

Que garbo, que honra depunha na farda ...

Foi um grande tempo que a memória guarda:

Guarnecia a Pátria, andava na linha,

 

Inda jovem, ia pros bailes da vida;

De tudo fazia, tive meus amores ;

Em meio a eles alguns dissabores ,

Pois até nestes a felicidade é contida .

 

Fui seguindo e vivendo essa história,

Somando emoções que nem lembro mais ;

Feliz eu saía até nos jornais ,

Eram mesmo dias de grandes vitórias .

 

Hoje vejo tudo cheio de saudade,

Não sei aonde eu fui mais feliz ,

Nem sei onde anda muito do que quis ,

Mas tenho um saldo de felicidade.

INÍCIO

 

Melodia

 

Lanço um olhar ao Céu e vejo

Legião de notas musicais;

Do, ré, mi, fá e outras mais,

Descendo qual belo lampejo.

 

Lembro o som de meus corais,

Que falam de beija-flor,

De janela, lua, amor,

E da amada Edelweiss.

 

Cada nota traz o amor,

Que grita desesperado;

Um sonido abafado,

Cheio de raro pudor.

 

Chega junto uma saudade,

Uma lágrima incontida,

Numa face já sofrida,

Distante da mocidade.

 

Se pareciam perdidas,

Tudo muda de repente,

E vejo em minha frente,

Agora as notas unidas.

 

Com um toque excelente,

Formam uma bela valsa,

Sem nenhuma nota falsa,

Fico a ouvi-la, silente.

 

Sinto-me só numa praça,

Troco alguns passos na dança,

Distraído qual criança,

Nem ligo para quem passa.

 

Mas esse som contagia,

Vejo mais gente dançando,

Fico quase meditando,

Tomado pela alegria.

 

Seguimos p’ro meio-dia

Do Céu, as nuvens me olham,

Aos poucos se desenrolam,

Ouvindo a melodia.

 

Somem as nuvens e as notas,

Deixando-me adormecido,

Acordei, já tinham ido,

Perdi sozinho a rota.

 

INÍCIO

Envolvimento

 

Na tarde verde de chuva

Os amantes vivem,

Levados pelo amor natural:

Dos olhos, o carinho;

Passos iguais entre as árvores,

Como nunca imaginaram.

Vozes embargadas no querer dizer,

Peitos cortados, palavras fortes,

Gestos falando mais que esperavam.

 

Na expiração sagrada, param;

Tocam-se as mãos, trêmulas e frias;

Coincide, brusca, a idéia de ter.

Abraçam-se e apertam os olhos,

Beijam-se e alisam-se

Dos cabelos às costas;

Sem pressa e com que pressa...

Tresloucadamente,

Pensando naquela energia.

 

Rápido entregam-se para sempre:

Juras, desejo, paixão;

A respiração excitando a pele.

Os corpos felizes e rijos,

Desatinados, murmurando amor,

Gemendo ao vento frio.

No querer e no sentir,

Envolvem-se no (in)esperado

Que jamais saberão descrever.

 

INÍCIO

 

Perfeição

                       

Teus joelhos dobrados,

Brilho do bronze quente,

Rosa que reflete e toca,

Sem saber, meu coração.

 

Faz trêmulos os lábios,

A voz que nada diz,

Os olhos que disfarçam,

As mãos cheias de ânsia.

 

Dobrados e juntos

Provocando desejo,

Sonhos e planos

De toda uma vida.

 

Joelhos expostos,

Amostra tão bela

Das pernas perfeitas

Que sempre quis.

 

INÍCIO

 

Encanto

 

Quero levar o meu amor

Para um lugar tão bom;

Que não exista

Um mundo igual,

E lá nos guardaremos.

 

Quero o seu peito tão macio,

Para me afagar;

Todos os dias,

Despreocupados,

Sonhando acordado.

 

Quero que nesse nosso encanto

Exista só nós dois

e mais ninguém.

E que nunca apareça

Sombra do dissabor.

 

INÍCIO

 

Mágoas de mim

                                   

Sinto uma vontade imensa

De voltar à infância,

À juventude, àqueles anos;

Porque faltou algo

Que devia ter feito.

 

Sinto que não percebi

O valor de tudo que tive

Naqueles tempos de sonho.

Hoje tudo me faz ver

O quanto eu fui feliz.

 

Sinto pelo que passou;

A cada dia vou perdendo

Muito do que tanto amei.

E procuro entender tudo

Quando meu coração aperta.

 

Sinto que tudo me diz

Um pouco do que sempre amei

Assim lembro cada momento

Nos versos dos meus poetas

E em belíssimas melodias.

 

Sinto a saudade, que doe,

O amor, que nunca morrerá,

Os momentos incomparáveis,

O que quis e nunca tive,

O que não mais posso querer.

 

Sinto a beleza que não enxerguei,

A angústia do tarde demais.

Porém não me arrependo,

Apenas sofro e procuro

Sufocar estas mágoas de mim.

 

INÍCIO

 

Euforia

 

Havia uma vontade quente

De comemorar,

De demonstrar a alegria

Que invadia,

E de orar

Num cantinho, silente.

 

Havia, ao lado, muita gente

A passar.

Ninguém sabia

Que queria

Festejar

De forma diferente.