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A narração jornalística nos diz que
uma menina de nome Ana Beatriz morreu em Natal, no
último dia 22 de abril, vítima de atropelamento por
trem. Até aí nada demais com a notícia, afora o fato
doloroso em si da morte de uma criança que no próximo
dia 20 de junho estaria completando 11 anos. Doloroso,
muito doloroso. No mais, o que dizer? A lamentar a
realidade que, em seguida, emergirá do acontecimento. A
morte de Ana Beatriz escorregará para a vala comum dos
acontecimentos que acometem rotineiramente a periferia
com sua farta crônica de fatos tristes como este,
principalmente na periferia das grandes e médias cidades
que contam em sua malha viária com os serviços coletivos
do trem, a preencher, com seu resfolegar medonho e com
seu enorme e pesado corpanzil, os anseios e necessidades
de transporte de massa dos seus habitantes mais
humildes.
A reportagem conta, nos mínimos
detalhes, sobre como tudo se passou. Inclusive dos
desesperados esforços do maquinista para chamar a
atenção da menina. Em vão. Enleada com o seu caminhar
para a escola, e certamente com tudo de bom que ali lhe
aconteceria, ela não prestou atenção no elemento mortal
que vinha em sua direção. Outro fato na reportagem
acende a nossa curiosidade, em função de sua singeleza,
de sua aparente desimportância. Segundo o relato
jornalístico, a morte de Ana Beatriz foi causada pela
sua chinela. Conforme está escrito, ao atravessar a
linha do trem, sua chinela ficou presa nos trilhos.
Momentaneamente aflita pela perda do calçado, a menina
decidiu voltar – e com este gesto construiu o momento de
sua morte. Com toda certeza, para Ana Beatriz, a chinela
era um elemento importante em seu dia a dia. Tanto assim
que, aflita com sua possível perda, voltou para
apanhá-la.
Ah, os tesouros que agregamos em
nossas vidas! Para uns eles se traduzem em posses
materiais, títulos nobiliárquicos, conquistas
acadêmicas, esportivas, intelectuais... Para outros seus
tesouros se manifestam pelo volume da conta bancária,
pelo sucesso empresarial, pelo carro importado, pela
adega impecavelmente mantida. A conclusão a que se chega
é que cada um entroniza seus próprios tesouros segundo a
visão de vida, valores, anseios, ambições. Já para Ana
Beatriz, no momento em que o trem esmagava seu frágil
corpo, arrastando, por longos e tenebrosos instantes,
sonhos e desejos com certeza acalentados na consonância
da sua pouca idade, seu tesouro se constituía numa
simples chinela. E, no seu desespero no sentido de
resgatá-la, de tê-la de volta, teve apagada a chama da
vida. Quanta infelicidade! Ah, Ana, por que voltar? Era
uma simples chinela!
Momentos, instantes, circunstâncias,
ocasiões... Quem há de analisá-los para, assim,
vertê-los do campo do possível, do tangível para o
imensurável terreno das ações cometidas sobre forte e
inescapável pressão? Quem pode julgá-los, observando
suas particularidades, suas motivações, suas
idiossincrasias? A cada um os seus momentos. E, por
extensão, os seus tesouros, com suas imprevisíveis e
insondáveis conseqüências. Agora, me permita a pergunta:
você voltaria por seus tesouros? Um pouco mais sobre Ana
Beatriz. Acabara de ser eleita líder de sua classe, numa
escola que não ficava distante de sua casa. Filha de
pais separados, morava com a mãe, por sua vez empregada
doméstica em casa de um bairro chique da cidade. Ana
Beatriz pesava pouco mais de 30 quilos e foi atropelada
por um gigante metálico que atingia, só na cabine, a
marca das 60 toneladas. Ah, Ana, por que voltar? Voltar
pra quê?
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