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Alguém
já falou numa certa ocasião que “ninguém se perde
nos caminhos da volta”. A expressão se refere a uma
rota trilhada por alguém ao longo de um determinado período
de sua vida que não deu certo. É também uma expressão
que pretende tirar dos ombros dos que voltam o ranço do
fracasso, do desacerto, da não conquista. É claro que
ninguém se perde ao empreender o retorno a um lugar, a
um posto, a uma situação deixada para trás em busca
de um novo sonho. É claro que ninguém se perde.
Entretanto, em que estado serão encontradas as
realidades antigas, as amizades, os relacionamentos, se
por acaso rompidos, esgarçados? Difícil o retorno, não
é verdade? Muitas vezes acontece de a partida ser até
festiva, entranhada de abraços, de efusivas comemorações.
Será que a volta dar-se-á no mesmo diapasão, com o
mesmo estrépito, a mesma intensidade?
Ah, a volta e seus mistérios....
Certa
ocasião mantive contato, através de um dos meus
artigos, com uma pessoa cuja volta estava se afigurando
extremamente traumática. Era uma senhora, solteira, que
decidira tentar a vida nos Estados Unidos. Para
conseguir tal intento explodira quase todas as pontes
que a ligavam ao Brasil. Indispôs-se com a família,
com os amigos, largou o trabalho numa situação
praticamente conflituosa – e partiu em busca de novos
horizontes profissionais. Os relacionamentos? Ah, estes
ficaram ao léu, esperando, quem sabe um dia, o seu
retorno vitoriosa ou com o rabo entre as pernas. Sua
chegada aos Estados Unidos aconteceu uma semana após o
atentado às torres gêmeas, no fatídico 11 de
setembro. De cara, pegou a ressaca de toda a onda de
rejeição aos estrangeiros que varreu o país. De tons
rosados no início, seus sonhos, após a chegada,
passaram a ter um matiz enegrecido, violáceo.
Noites
mal dormidas, promessas de emprego não cumpridas,
horizonte nebuloso.... Começou a temer pelo futuro.
Dinheiro escasseando, amigos envolvidos com suas próprias
angústias e o contato com os americanos a cada dia mais
seco, mais duro, mais árido, enfim. Certamente deve ter
sentido saudade de papai, de mamãe, do aconchego dos
amigos, da compreensão dos patrões. Seria hora de
voltar? Mas como voltar? Como ultrapassar o terreno da
humilhação e admitir o fracasso? Nesse momento, deu de
cara, pela Internet, com um artigo meu que tratava do
sucesso – e o preço, algumas vezes extremamente
salgado, de se chegar a ele. Segundo suas palavras, a
leitura do texto foi um verdadeiro refrigério, um
grande alento naqueles momentos de amargura. A leitura,
se não deu para sugerir uma atitude de imediato, pelo
menos lhe restaurou a segurança interior e criou condições
para refletir com serenidade.
Se voltou ao Brasil ou se permaneceu em solo americano
não sei, não fui notificado. No mínimo se apercebeu,
com a leitura, que a busca do sucesso cria, muitas
vezes, situações difíceis de contornar – e deixa a
volta, se necessária, e mesmo sendo possível,
envolvida num carrascal de emoções de complexa
operacionalidade. Isso acontece em outras plagas também.
No casamento, nos negócios, numa sociedade e
principalmente na política. Agora mesmo, com o fim dos
embates eleitorais, tem muita gente se perguntando como
empreender o rumo do retorno se as posições tomadas no
caminho da ida tornaram quase impraticáveis as articulações
na direção da volta. Ah, o retorno, a volta. As ruas,
com certeza, estão no mesmo lugar; os móveis, as
pessoas, os utensílios... Mas tudo está mesmo do jeito
que era? Ou não será melhor seguir em frente e
esquecer de onde se partiu? Ah, a volta e seus mistérios....
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