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A
grande novidade hoje em dia, no campo da motivação, da
positividade, da chamada auto-ajuda, dissecada,
analisada, estudada, observada em palestras, encontros,
seminários, simpósios e eventos semelhantes, consiste
na tentativa de levar as pessoas a adotar em suas vidas,
entre outros comportamentos, uma postura positiva,
firme, de entusiasmo, de alegria. Nada de tristeza, de
cara amarrada, de astral para baixo, de mal-humor, dizem
os pais desse interessante ramo de atividade, por sinal
muito aplaudido nos mais diferentes segmentos. Para
empresas, times de futebol, igrejas, associações de
funcionários, repartições públicas, bancos, etc,
etc, tudo se resume a motivar seus exércitos a encarar
os desafios da vida de maneira, tchan, tchan, tchan,
tchan, de maneira, tchan, tchan, tchan, de maneira
pooooositivaaaaaaaa! Ufa! Tem de ser positivo, tem de
ser alegre, tem de está sempre legal.
E,
entre tantas coisas receitadas por tais palestrantes,
uma particularmente me chamou a atenção. Eles
aconselham você a se afastar dos mal- humorados, das
pessoas negativas, daquelas que em tudo encontram motivo
para reclamar. De fato, é muito chato você ser
obrigado, por alguma contingência da vida, a permanecer
próximo de gente assim. Não só a Medicina e a
Psiquiatria ensinam que o mal-humor é contagiante e
altamente prejudicial à saúde e ao desempenho
profissional. Outros ramos do conhecimento humano também
nos direcionam nesse sentido. Mas, aproveitando a onda
atual levantada pela turma que está por todo canto
pregando a motivação, a positividade, é chegada a
hora, então, de perguntar. Se todos os alegres se
afastarem dos mal-humorados, como ficará a rotina
destes últimos? Como operarão suas vidas diante de
tamanho isolamento?
Será
que este ideário, ao invés de solucionar os problemas
de motivação dos motiváveis, não está criando uma
onda de segregação junto àqueles que não são
catalogados como tais? Aliás, numa repartição, numa
empresa qualquer, como seria feita a divisão entre os
de bom-humor e os de mal-humor? Entre os que aderem à
positividade e os que não aderem? Por outro lado, como
você, no seu dia a dia, se afasta, se isola, de
repente, de uma hora para outra, de alguém classificado
como mal-humorado? Claro que existe uma certa dose de
exagero nesse meu raciocínio. Mas é verdade, também,
que muitos exageros já foram cometidos pela raça
humana a partir de certos conceitos, de certas conclusões
apregoadas como resposta para muitos problemas – e que
trouxeram à humanidade, tempos depois, enormes prejuízos.
Nero, Hitler, Stálin, Evo Morales, Hugo Chavez, por
exemplo, estão aí para confirmar.
Fico
preocupado sim com conclusões que excluem, que
segregam, que separam. Pois não há como separar as
realidades impostas pelo mover das catracas do mundo,
pelo inexorável passar dos dias, trazendo ansiedades,
decepções e desafios que nos afetam – por mais
fortes que sejamos. Sou, ao contrário, partidário da
compaixão, da compreensão, de ouvir pessoas com
carinho e atenção para ajudá-las diante dos traumas e
decepções da vida. Também não estou aqui para
criticar o discurso dos palestrantes que enchem auditórios
e elevam, às alturas, a auto-estima dos seus
circunstantes. Mas advogo uma segunda via: a de amar os
mal-humorados, compreendendo seus problemas, suas angústias.
Com isso, não zeraríamos, de todo, o universo dos
azedos, dos iracundos, mas, com certeza, diminuiríamos
bastante a taxa mundial do mal-humor. O que já seria
uma grande vantagem, você não acha?
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