Públio José

28.11.2006

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PORQUE O AÇU NÃO DECOLA?

 

Públio José

Tem certos fatos na vida que se inserem no rol de seus pensamentos, de suas preocupações e não saem mais. É como se diz em linguagem popular: você fica inculcado com alguma coisa. Por mais que você queira se desligar daquele assunto ele não se desliga de você. E o Brasil nos fornece farto material nesse sentido. De coisas que acontecem e para as quais você não encontra explicação – por mais que se esforce.  Aquilo fica lá no seu cérebro batendo, latejando, incomodando, certamente em busca de uma resposta, de uma solução. É luta! No Brasil, por exemplo, os bancos têm lucros estratosféricos mesmo com os demais integrantes do sistema produtivo carregando nas costas taxas irrisórias de crescimento. Tem explicação? O país inteiro cresce a taxas ridículas, algo em torno de 3,5%, enquanto os bancos, anos após anos, alcançam índices inimagináveis de crescimento e expansão.

De tanto ganhar dinheiro, de tanto lucrar, de tanto levar vantagem, os bancos vêm se tornando numa inexpugnável ilha de prosperidade, imunes aos solavancos que acodem, de tempos em tempos, a nossa travada economia. O Bradesco, por exemplo, de tanto ganhar dinheiro, e em volumes cada vez mais inalcançavéis, é capaz de se habilitar, sozinho, qualquer dia desses, a comprar o Brasil inteiro. Por sinal, já é dono de um montão de coisas por aqui. Ativos que adquire em função de seus lucros astronômicos e em razão, também, da fragilidade dos demais segmentos empresariais. Claro, se um lado lucra demais e o outro lucra de menos, é lógico que o segundo seja comprável pelo primeiro, sacou? Do jeito que a coisa vai, é capaz de, a qualquer dia desses, ser anunciado, com pompas e circunstâncias, pelo Jornal Nacional: o Brasil agora é, é, éééééééééééé do Bradescoooooooooo! Já pensou?

Mas, e o Açu, o que o Açu tem a ver com essa história? Tem. E muito. Tenho conversado com lideranças da região, pessoas com raízes fincadas em vários tipos de negócios por lá, com tradições empresariais, familiares, políticas, e a pergunta é uma só: porque o Açu não decola, não progride, não alcança um patamar de desenvolvimento, de crescimento condizente com a sua excelência geográfica, com sua excelência hídrica, com sua excelência em terras irrigáveis? De folclore, de boas lembranças do passado, o Açu está cheio. A região quer crescer, quer acontecer, quer se emancipar economicamente. Já foi reconhecida como a terra dos poetas – e não ganhou dinheiro com isso; já foi reconhecida como terra de uma efervescente atividade artística – e não ganhou dinheiro com isso; é reconhecida como detentora de uma das melhores terras do mundo – e não ganha dinheiro com isso. E agora?

Em se tratando de agricultura irrigável, falam que o preço da energia elétrica inviabiliza a atividade. O chamado Projeto Baixo Açu, por sua vez, se debate em questões burocráticas que dificultam a liberação dos títulos de terras, fato que inviabiliza e encarece, também, a negociação com o sistema financeiro, por parte dos proprietários dos lotes, na busca por melhores condições de crédito. A política de juros do governo voltada para a atividade também é apontada como uma grande vilã desse enredo. Outras questões, de menor porte, certamente também abalam a consecução do projeto. E aí? Será que estes problemas, por si só, inviabilizam, travam, conseguem impedir o desenvolvimento de toda uma região? Ou será que outros interesses, outras questões se inserem também nesse contexto? Mistério... Cá no meu canto, a pergunta não pára de martelar: porque o Açu não decola?

 

 

 

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