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Começou
o festival de falsa piedade que todo ano, nesse período,
infesta nossas caixas de correio e ocupa preciosos espaços
da mídia. Refiro-me a essa onda que ocorre no período
natalino de se fazer caridade a favelados, desvalidos,
desempregados, aos mais necessitados, enfim, através da
distribuição de roupas, alimentos, brinquedos, remédios
e outras coisas mais. Alguém, aí no seu canto, poderá
indagar “mas não é essa a essência do espírito
natalino?” Não, não é. O espírito natalino é
muito mais profundo e muito mais duradouro. Aliás, quem
restringiu, quem convencionou adotar essa postura de
voltar-se ao próximo com mais intensidade somente nesse
tempo foi o homem. Pois isso, com certeza, não é coisa
de Deus. Ao contrário, aproveitar-se de um momento, de
uma época, para praticar solidariedade a necessitados
é a mais pura demonstração de falsa piedade.
Ou
será que a ausência de suprimentos, de empregos, de
roupas, de dignidade, enfim, só ocorre no período
natalino? E o restante do ano como fica? Isso tudo é
uma hipocrisia generalizada, uma onda de falsa piedade
que acomete principalmente a classe média nessa época.
É como se todos quisessem se livrar, na virado do ano,
dos remorsos, das crises de consciência, ocasionadas
pelo que deixou de fazer em benefício do próximo ao
longo do ano. Miséria, fome, ausência de suprimento
ocorre o tempo todo. Além do mais, o tal “espírito
natalino” serve, sob medida, para esconder o principal
culpado disso tudo: o governo federal. Que incentiva
essas campanhas para, com isso, acobertar sua omissão,
sua falta de planejamento sério, maduro, em relação
às carências dos mais humildes. Aproveitando-se,
inclusive, da boa vontade dos ingênuos, dos
desavisados, daqueles agem no emocional.
Pois
a falsa piedade opera, principalmente, na falta de
conhecimento e se concretiza nas pessoas, por excelência,
no campo emocional. Aí, quando chega o período
natalino, a um estalar de dedos da mídia,
impulsivamente, todo mundo corre a tentar alegrar a vida
dos que não têm nada para comemorar, integrando essa
corrente demagógica, hipócrita, carregada de dissimulação
que todos estamos acostumados a ver. Com isso, não
quero dizer que seja maléfico, prejudicial ou anticristão
fazer caridade no Natal. E que não tenha gente de boa
vontade envolvida nessas campanhas. Tem. Tem, sim, gente
bem intencionada na parada. Mas tem também aqueles que
agem mais em função dos holofotes do que das carências
reais e autênticas dos necessitados. A esses é hora de
perguntar: a caridade feita agora tem o mesmo ímpeto, a
mesma ênfase durante os meses de janeiro, fevereiro,
março, abril?
O
espírito cristão, traduzido em amor e respeito ao próximo,
é coisa muito séria, pois é matéria prima gestada no
coração de Deus. Não é à toa que o próprio Jesus
classificou como o segundo maior mandamento “o amar ao
próximo como a ti mesmo”. O primeiro, logicamente, é
amar a Deus sobre todas as coisas, embora os dois
preceitos estejam tão interligados e intrinsecamente tão
associados um ao outro, que um não subsiste sem o outro
– e vice-versa. Porque é impossível amar-se a Deus
sem amar ao próximo. Como, igualmente, é impossível
amar ao próximo sem amar a Deus. Assim, faça caridade
nesse Natal – também. Distribua alimentos, roupas,
amor, atenção, sabendo que estará, com isso,
alegrando, em muito, o coração de Deus (se essas ações
forem também repetidas em janeiro, fevereiro, março......)
Aí, sim, estará sendo praticado o verdadeiro espírito
cristão. Certo?
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