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O
mundo da moda ficou chocado, dias atrás, com a morte de
uma modelo brasileira. Diagnóstico: anorexia. Segundo o
dicionário, anorexia é a perda total de apetite, ou
seja, o patamar que a pessoa alcança, sem volta, na
maioria das vezes, por total inapetência alimentar.
Conseqüência: a morte. Além dos viventes do mundo
fashion, o fato gerou perplexidade mundo afora. Como
pode alguém que já estava beliscando os calcanhares do
sucesso, do reconhecimento internacional no deslumbrante
ambiente das casas internacionais da alta costura,
cometer um ato de tal magnitude? E o que é pior: dar
cabo da vida pela via da fome tendo dinheiro, acessos,
posição social para comer do bom e do melhor? Que
explicação se encontra para essa morte? É difícil,
realmente, analisar os verdadeiros motivos que levam
pessoas do alto extrato social a marcar um encontro com
a morte de forma tão sem explicação.
A
única saída que me vem à mente é a nomeação, por
essas pessoas, da sua escala de valores. A moça já era
bastante magra, mas a sua escala de valores indicava –
ou as normas da alta costura exigiam (o que dá no
mesmo) – que ela se tornasse mais magra ainda. Tudo
bem que na vida profissional você tenha que se
confrontar com desafios e obstáculos a toda hora e que
tenha de enfrentá-los e vencê-los para continuar
singrando os mares do sucesso. Mas tomar tal medida
pondo em risco a própria vida? A conclusão a que se
pode chegar é que, de fato, a escala de valores foi
virada de cabeça para baixo. Basta se ver o que fizeram
com o Natal. De evento constituído para se comemorar o
nascimento de Jesus foi transformado em mera, volúvel e
frenética operação para elevar, às alturas, o desejo
exacerbado de consumo inoculado no interior de cada um
de nós. Resistir? Quem há de?
Anorexia
é um termo sofisticado para um sofrimento que acompanha
a humanidade desde os tempos pré-históricos: a fome.
É notoriamente sabido que o homem sempre enfrentou
circunstâncias difíceis para cumprir o simples ato de
se alimentar. A História tem registrado enormes
movimentos migratórios ocorridos em função da
escassez de alimentos. Mas tudo girava em torno da
pobreza do que ter para se alimentar; da falta real,
palpável, física, do que comer. Inclusive,
recentemente, fatos têm chegado ao conhecimento geral
de populações inteiras sendo destruídas pelo
sofrimento aterrador imposto pela fome. Quem não se
lembra das famosas fotos das crianças de Biafra, esqueléticas,
raquíticas ao extremo, em razão do não terem o que
comer? Entretanto, de uns certos tempos para cá, a
anorexia deu uma cambalhota espetacular e foi colher
suas vítimas num extrato social antes inatacável.
Criando,
com isso, mais uma preocupação para as autoridades. Se
antes a fome tinha de ser combatida no segmento restrito
dos miseráveis, agora terá de ser cuidada também
entre pessoas que podem reclamar da falta de outros
itens nas suas vidas, nunca o da falta de alimentos.
Imaginem, daqui a alguns dias, o Ministério da Saúde
lançando em todo o país, e inclusive no exterior,
campanha de propaganda com o tema “Milionários, por
favor, não morram de fome!” Já pensou?
Ou, por outra: “Milionários, antes de morrerem
de fome, doem a comida que não querem ao Lar do Ancião,
situado à rua...” (Esta última é boa, né não?)
Mas, brincadeiras à parte, o certo é que o homem
moderno está enfrentando problemas difíceis
em função do que ele mesmo fez com sua escala
de valores. Por sinal, como está a sua? Não está na
hora de fazer uma oportuníssima reflexão? Feliz Natal!
O verdadeiro. O de Jesus.
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