Públio José

26.12.2006

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O PARADOXO DA ANOREXIA

 

Públio José

 

O mundo da moda ficou chocado, dias atrás, com a morte de uma modelo brasileira. Diagnóstico: anorexia. Segundo o dicionário, anorexia é a perda total de apetite, ou seja, o patamar que a pessoa alcança, sem volta, na maioria das vezes, por total inapetência alimentar. Conseqüência: a morte. Além dos viventes do mundo fashion, o fato gerou perplexidade mundo afora. Como pode alguém que já estava beliscando os calcanhares do sucesso, do reconhecimento internacional no deslumbrante ambiente das casas internacionais da alta costura, cometer um ato de tal magnitude? E o que é pior: dar cabo da vida pela via da fome tendo dinheiro, acessos, posição social para comer do bom e do melhor? Que explicação se encontra para essa morte? É difícil, realmente, analisar os verdadeiros motivos que levam pessoas do alto extrato social a marcar um encontro com a morte de forma tão sem explicação.

A única saída que me vem à mente é a nomeação, por essas pessoas, da sua escala de valores. A moça já era bastante magra, mas a sua escala de valores indicava – ou as normas da alta costura exigiam (o que dá no mesmo) – que ela se tornasse mais magra ainda. Tudo bem que na vida profissional você tenha que se confrontar com desafios e obstáculos a toda hora e que tenha de enfrentá-los e vencê-los para continuar singrando os mares do sucesso. Mas tomar tal medida pondo em risco a própria vida? A conclusão a que se pode chegar é que, de fato, a escala de valores foi virada de cabeça para baixo. Basta se ver o que fizeram com o Natal. De evento constituído para se comemorar o nascimento de Jesus foi transformado em mera, volúvel e frenética operação para elevar, às alturas, o desejo exacerbado de consumo inoculado no interior de cada um de nós. Resistir? Quem há de? 

Anorexia é um termo sofisticado para um sofrimento que acompanha a humanidade desde os tempos pré-históricos: a fome. É notoriamente sabido que o homem sempre enfrentou circunstâncias difíceis para cumprir o simples ato de se alimentar. A História tem registrado enormes movimentos migratórios ocorridos em função da escassez de alimentos. Mas tudo girava em torno da pobreza do que ter para se alimentar; da falta real, palpável, física, do que comer. Inclusive, recentemente, fatos têm chegado ao conhecimento geral de populações inteiras sendo destruídas pelo sofrimento aterrador imposto pela fome. Quem não se lembra das famosas fotos das crianças de Biafra, esqueléticas, raquíticas ao extremo, em razão do não terem o que comer? Entretanto, de uns certos tempos para cá, a anorexia deu uma cambalhota espetacular e foi colher suas vítimas num extrato social antes inatacável.

Criando, com isso, mais uma preocupação para as autoridades. Se antes a fome tinha de ser combatida no segmento restrito dos miseráveis, agora terá de ser cuidada também entre pessoas que podem reclamar da falta de outros itens nas suas vidas, nunca o da falta de alimentos. Imaginem, daqui a alguns dias, o Ministério da Saúde lançando em todo o país, e inclusive no exterior, campanha de propaganda com o tema “Milionários, por favor, não morram de fome!” Já pensou?  Ou, por outra: “Milionários, antes de morrerem de fome, doem a comida que não querem ao Lar do Ancião, situado à rua...” (Esta última é boa, né não?) Mas, brincadeiras à parte, o certo é que o homem moderno está enfrentando problemas difíceis  em função do que ele mesmo fez com sua escala de valores. Por sinal, como está a sua? Não está na hora de fazer uma oportuníssima reflexão? Feliz Natal! O verdadeiro. O de Jesus.

 

 

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