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Dias
desses, me meti a escarafunchar livros velhos e dei de
cara com a biografia de ilustres figuras brasileiras, e
do exterior, que há muito tempo eu não manuseava.
Tinha de tudo. Gente que viveu há muitos séculos atrás
e também gente quase de hoje, que deixou este mundo há
pouco tempo. É claro que tem muita coisa interessante
em suas histórias. Fatos pitorescos, episódios que
sinalizam atos de coragem, ousadia, perspicácia,
malandragem, covardia. Algumas dessas atitudes até se
guarda na cachola para (quem sabe?) delas fazer uso
algum dia. Outras se joga na lata do lixo em função do
seu alto teor antiético, de matreirice e picaretagem.
Mas é sempre produtivo observar, com olhar crítico e
imparcial (na medida do possível), o mover dessas
criaturas durante o período em que permaneceram na
crista da onda, na garupa muitas vezes larga, outras nem
tanto, do cavalo do sucesso.
De
todos os episódios que revi, um me atiçou a
curiosidade e me causou particular impressão. Diz
respeito a Getúlio Vargas. Na biografia de Juscelino, vários
fatos narrados são comuns aos dois, se entrelaçam, se
cruzam, se interpenetram, haja vista Juscelino ser
governador de Minas Gerais quando Getúlio estava na
presidência, em plena fase ditatorial. E é de lá que
vem a informação. Foi uma descoberta a respeito do
patrimônio do ditador. Getúlio viveu o seu segundo
governo exercendo o pleno poder, impondo leis, nomes, e
as idiossincrasias que bem quis. Até o momento em que
veio à tona o envolvimento de amigos e auxiliares seus
no atentado à vida de Carlos Lacerda. Aí foi um Deus
nos acuda. O teto acabou de desabar. Embora a oposição
udenista azucrinasse a vida do governo o tempo todo,
criticando e combatendo todos os seus atos, o atentado
realmente passou das medidas.
E
deu à oposição um elemento inteiramente novo, com
alto teor de combustão. Veio o suicídio e as
sucessivas investigações para a comprovação de que o
regime getulista “vivia num mar de lama”, como
apregoava Carlos Lacerda. De grave nada ficou
comprovado, a não ser o que já era do conhecimento de
todos, visível através dos atos ditatoriais praticados
pelo finado presidente. Foi aí que um dado novo
impressionou a quem dele tomou conhecimento, embora
pouca ou quase nenhuma divulgação tenha sido dada à
época. Do patrimônio de Getúlio Vargas se contava uma
fazenda, no Rio Grande do Sul, com 46 hectares, e um
apartamento em final de construção, no Rio de Janeiro!
Para quem viveu com todo poder como ele... Quando se
observa, nos dias de hoje, dois ou três advogados se
reunirem para dar um tombo na Previdência de mais de
500 milhões;
Quando
se observa um juiz, durante a construção de um
tribunal, dar um baque nas finanças públicas de 134
milhões; quando se observa dois ou três meninos
fedendo a mijo darem um golpe de milhões e milhões,
vendendo ao governo ambulâncias superfaturadas; quando
se observa as diabruras de deputados e senadores
sangrando os cofres públicos em bilhões de reais, o
conteúdo do patrimônio de Getúlio nos deixa
boquiabertos. E nos causa maior admiração ainda o fato
do movimento trabalhista nunca ter dado divulgação à
tão alentada descoberta. Afinal, uma fazenda de 46
hectares e um apartamento em final de construção são
posses, hoje em dia, de chefete político de meia tigela. Em se tratando de um homem de poder como Getúlio
Vargas o fato deve servir de exemplo.
Pena que os atuais homens públicos, com honrosas
exceções, pratiquem comportamento tão diverso. Ou
estou enganado?
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