Públio José

11.01.2007

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UM PRESIDENTE DE 46 HECTARES

 

Públio José

 

Dias desses, me meti a escarafunchar livros velhos e dei de cara com a biografia de ilustres figuras brasileiras, e do exterior, que há muito tempo eu não manuseava. Tinha de tudo. Gente que viveu há muitos séculos atrás e também gente quase de hoje, que deixou este mundo há pouco tempo. É claro que tem muita coisa interessante em suas histórias. Fatos pitorescos, episódios que sinalizam atos de coragem, ousadia, perspicácia, malandragem, covardia. Algumas dessas atitudes até se guarda na cachola para (quem sabe?) delas fazer uso algum dia. Outras se joga na lata do lixo em função do seu alto teor antiético, de matreirice e picaretagem. Mas é sempre produtivo observar, com olhar crítico e imparcial (na medida do possível), o mover dessas criaturas durante o período em que permaneceram na crista da onda, na garupa muitas vezes larga, outras nem tanto, do cavalo do sucesso.

De todos os episódios que revi, um me atiçou a curiosidade e me causou particular impressão. Diz respeito a Getúlio Vargas. Na biografia de Juscelino, vários fatos narrados são comuns aos dois, se entrelaçam, se cruzam, se interpenetram, haja vista Juscelino ser governador de Minas Gerais quando Getúlio estava na presidência, em plena fase ditatorial. E é de lá que vem a informação. Foi uma descoberta a respeito do patrimônio do ditador. Getúlio viveu o seu segundo governo exercendo o pleno poder, impondo leis, nomes, e as idiossincrasias que bem quis. Até o momento em que veio à tona o envolvimento de amigos e auxiliares seus no atentado à vida de Carlos Lacerda. Aí foi um Deus nos acuda. O teto acabou de desabar. Embora a oposição udenista azucrinasse a vida do governo o tempo todo, criticando e combatendo todos os seus atos, o atentado realmente passou das medidas.

E deu à oposição um elemento inteiramente novo, com alto teor de combustão. Veio o suicídio e as sucessivas investigações para a comprovação de que o regime getulista “vivia num mar de lama”, como apregoava Carlos Lacerda. De grave nada ficou comprovado, a não ser o que já era do conhecimento de todos, visível através dos atos ditatoriais praticados pelo finado presidente. Foi aí que um dado novo impressionou a quem dele tomou conhecimento, embora pouca ou quase nenhuma divulgação tenha sido dada à época. Do patrimônio de Getúlio Vargas se contava uma fazenda, no Rio Grande do Sul, com 46 hectares, e um apartamento em final de construção, no Rio de Janeiro! Para quem viveu com todo poder como ele... Quando se observa, nos dias de hoje, dois ou três advogados se reunirem para dar um tombo na Previdência de mais de 500 milhões;

Quando se observa um juiz, durante a construção de um tribunal, dar um baque nas finanças públicas de 134 milhões; quando se observa dois ou três meninos fedendo a mijo darem um golpe de milhões e milhões, vendendo ao governo ambulâncias superfaturadas; quando se observa as diabruras de deputados e senadores sangrando os cofres públicos em bilhões de reais, o conteúdo do patrimônio de Getúlio nos deixa boquiabertos. E nos causa maior admiração ainda o fato do movimento trabalhista nunca ter dado divulgação à tão alentada descoberta. Afinal, uma fazenda de 46 hectares e um apartamento em final de construção são posses, hoje em dia, de chefete político de meia tigela. Em se tratando de um homem de poder como Getúlio Vargas o fato deve servir de exemplo.  Pena que os atuais homens públicos, com honrosas exceções, pratiquem comportamento tão diverso. Ou estou enganado?

 

 

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