Públio José

22.01.2007

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A GERAÇÃO DE ELI

 

Públio José

 

Certas pessoas têm o condão de influenciar, de direcionar o pensar, o saber e o agir da geração da qual fazem parte. São os tão falados líderes, pessoas que atuam como guias na vida de outras e que se transformam em personagens marcantes durante o tempo em que vivem por aqui. Trazem consigo, por conseguinte, a capacidade de influenciar multidões e, inclusive, de pautar o viver dos contemporâneos no movediço plano da tomada de decisões. Para tanto, obrigatoriamente, precisam dar exemplo. Todos nós conhecemos a história de líderes que construíram e de outros que desconstruíram na vida dos que aceitaram, para o bem ou para o mal, a sua influência. Eli, personagem bíblico que viveu por volta do ano 1.050 a.C., foi também líder no seu tempo. Foi sumo sacerdote e juiz de Israel durante quarenta anos, além de mentor do profeta Samuel, a quem orientou e educou ainda imberbe.

Do ponto de vista histórico, podemos realçar duas características em Eli, além do fato de ter atuado como sacerdote e juiz: era muito gordo e pai de dois filhos. Estes, Hofni e Finéias, apesar de ocuparem o cargo de sacerdotes do templo, portanto auxiliares do pai, eram conhecidos mais pela vida de devassidão que levavam do que o zelo que adotavam na atividade sacerdotal. O estranho na vida de Eli é o fato dele ter se esmerado e colhido tanto êxito na educação e orientação sacerdotal que imprimiu à vida de Samuel, paralelamente ao desastre em que se constituiu o desempenho dos seus dois filhos. Hofni e Finéias são o que se costuma nominar, em linguagem de hoje, de dois barras pesadas. Não temiam a Deus nem respeitavam os homens, comportamento evidenciado pela prática de imoralidades e de sacrilégios. Além do mais, para azedar mais ainda o currículo de Eli, ressalte-se que os dois eram sacerdotes do templo.    

O que se depreende da atuação de Eli como pai é que ele foi omisso e conivente com as bandalheiras dos filhos. Tal fato manchou o seu desempenho como líder de tal forma que acarretou uma série de desastres políticos e militares na vida da comunidade hebraica de então. Em vista disso, Eli passou à história como um líder marcado pela omissão e pela sonolência na administração dos assuntos pessoais, públicos e espirituais. Aliada à indolência, uma forte obesidade passou também a marcar o seu perfil. Eli engordou – e muito. Entretanto, o que quero ressaltar, daqui por diante, não é somente o fato da gordura física ter se atrelado à sua rotina de pai, juiz e sacerdote, mas também a evidência de que a obesidade carnal aconteceu paralelamente à gordura espiritual que o acometeu. Eli engordou de bênçãos, inclusive materiais, sem tê-las repassado para benefício dos seus e para benefício do povo.

Foi, digamos assim, um homem de poder. Tanto do secular como do espiritual. E que influência legou à sua geração? E que benefício seu viver acarretou na vida do povo que liderava? O que se sabe é que, no seu tempo, Israel conheceu de perto a devassidão dos seus filhos e as derrotas no campo político e militar. Apesar de ter convivido com o poder e a fama, Eli tão somente engordou. É o que acontece com as pessoas que apenas recebem – e que não repassam nada para benefício dos seus semelhantes. Eli foi uma liderança que se beneficiou do poder, do conhecimento, das amizades que colheu, do patrimônio que certamente amealhou... E o que fez com tudo que recebeu? De proveitoso só se tem conhecimento da orientação que deu ao profeta Samuel. Em compensação, durante o seu mandato, Israel foi derrotado pelos filisteus, com a agravante de ter perdido, para os mesmos, a posse da Arca da Aliança.

É de muita responsabilidade a posição de liderança que venhamos a conquistar. Pois o líder, por menos que queira, influencia, direciona, estabelece na vida dos outros. Liderança, portanto, é uma posição para aqueles que almejam, sobretudo, servir. Servir acima de tudo – pondo em segundo lugar seus próprios interesses. É fácil? Não, não é. Já o contrário disso é o líder que engorda, amealhando tudo em favor de si. Ganhando, se não a obesidade visível, física, carnal, a gordura moral, psicológica, espiritual. E o fim de Eli? Como terminou seus dias o líder de Israel? Ao saber da derrota para os filisteus, da morte de seus filhos no campo de batalha – e da perda da Arca da Aliança – ficou tão chocado que caiu da cadeira, quebrou o pescoço e morreu. Como se vê, no seu caso, o peso da obesidade, das duas, foi fatal. Por sinal, a quantas anda a sua liderança? Obesa, gorda, cheia de vantagens só para você? 

 

 

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