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Tem
muita gente que ainda faz beicinho ou torce o nariz para
a Internet como instrumento divulgador de culturas, de
idéias, de informações. Confesso que durante um bom
tempo eu também pensei assim. Mas depois de comprovar
que, ao lado de muito porcaria, você pode colher também
verdadeiras preciosidades no campo do conhecimento,
passei a encarar a rede de modo totalmente diferente. O
que é bom eu guardo e o que me desagrada eu deleto
imediatamente. Aliás, a Bíblia já nos ensina que
devemos ouvir o que os outros têm a nos dizer
“retendo o que é bom”. Do contrário você se torna
um chato, um pernóstico, um arrogante, chegando até a
ser um escravo de suas próprias idéias e convicções.
Ou seja, aquele que só aceita e consome o que vem de si
próprio. A essa demência os entendidos dão o nome de
“cárcere intelectual” – você preso a você
mesmo, ao seu próprio conjunto de conhecimentos.
Será
que consegui, com esse arrazoado, vender a Internet
direitinho? Porque tudo o que falei até agora foi para
lastrear o conteúdo, muito interessante, que recebi
através da rede dias atrás. Era uma matéria mostrando
os projetos de autoria de alguns deputados na Câmara
Federal. Projetos, por sinal, ridículos, estapafúrdios
– para não dizer coisa pior. Estava lá, por exemplo,
a idéia de um parlamentar tentando criar o Dia do
Macarrão. Outro defendia com unhas e dentes a criação
do Dia da Esperança. E mais um outro, imbuído talvez
do desejo de disputar com os companheiros o Campeonato
Nacional da Idiotice e da Inutilidade, lutava bravamente
para instituir o Dia do Sono. Estes eram os itens
principais da matéria que recebi pela Internet. Outros
absurdos integravam também o teor da mensagem. Preferi
me ater a esses três para efeito do espaço que temos
para este artigo.
De
início, uma curiosidade me assaltou com relação ao
projeto que tenta estabelecer a data comemorativa ao
macarrão. Como seria essa celebração? O produto seria
distribuído nas ruas para o povo? Grandes macarronadas
seriam promovidas para distribuição gratuita nas
periferias das cidades? E nas favelas como seriam as
comemorações? Por acaso não haveria eventos festivos
nas favelas? E nas escolas como o macarrão teria seu
dia comemorado? Certamente um hino ao macarrão seria
composto. Por quem? A quem se encarregaria tal façanha?
Outra questão importante se impõe: quem coordenaria as
comemorações? Uma data cívica de tal magnitude
deveria contar, com certeza, com um lastro institucional
muito forte para coordená-la. O prefeito de cada
cidade, o governador de cada estado ou a própria presidência
da república tomaria para si a tarefa de coordenar o
evento?
Muitas
perguntas, não é verdade? Como, para tais perguntas, não
existem respostas, conclui-se, então, pela total
inutilidade do tão acalentado projeto do nobre
deputado. Passemos, assim, ao outro, o do Dia da Esperança.
Como seria isso? Nessa data aumentaríamos nossa esperança
ou passaríamos o dia totalmente desesperançados? Ou
grandes multidões seriam conclamadas a sair às ruas
para renovarem, unidas, as suas esperanças? Mas em quê?
Em quem? O que se conclui é que devemos manter a
esperança para os eleitores desses deputados
despertarem para a não renovação dos seus mandatos.
Ou que a esperança nos embale o sonho de vermos tais
figuras ocupando o tempo com projetos que contemplem a
nossa realidade. Dia
do Macarrão, Dia do Sono. De tanto me ocupar com essas
besteiras, faltou espaço hoje para coisas sérias. Dia
da Esperança, do Macarrão, do Sono, zzzzzzzz...
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