Públio José

15.02.2007

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CRIANÇA É PRIORIDADE?

 

            Públio José 

 

Há uma comoção no ar diante do tenebroso episódio, ocorrido no Rio de Janeiro, que motivou a morte do menino João Hélio Fernandes. É claro que, por conta de fato tão marcante, muita gente vai se pronunciar a respeito. Textos, muitos textos serão escritos; entrevistas, muitas entrevistas serão exibidas; cenas, muitas cenas serão mostradas diante de telespectadores chorosos e emocionados. Discussões, muitas discussões serão promovidas; sugestões, muitas sugestões serão apresentadas. Por sinal, uma questão já começa a colocar o foco central do problema em segundo plano. É a que envolve, de um lado, os que acham que o momento é oportuno para o país discutir a alteração nas leis – e seu conseqüente endurecimento. Outra banda acha que o momento de comoção coletiva não é propício para a discussão e análise de temas que envolvam os já rotineiros crimes hediondos que abalam o país.

Enquanto se discute se a hora é chegada ou não o impasse permanece e a pergunta que todos fazem, e que certamente ficará sem resposta, é uma só: o que fazer para encontrar a solução? Do jeito que a carruagem vai, sei, de antemão, que uma das sugestões apresentadas, será, com certeza, aprovada – devido ao paroxismo coletivo que se alastra país afora. É exatamente a que institui a diminuição, para 16 anos, da responsabilidade penal para jovens infratores. Os defensores desta idéia crêem que a simples diminuição da idade penal resolverá a questão. Será? E quando os terríveis infratores forem os de 15, de 14, de 13, de 12 anos, o que se fará? Diminuir-se-á a idade penal mais ainda? O que ocorre, na verdade, é que está se perdendo a oportunidade – mais uma, por sinal – para uma ampla análise que direcione o foco da discussão para a raiz do problema. E onde está a raiz do problema?

Basta se dar uma olhadinha nos números, nas estatísticas. E estas deixam nossos governantes inteiramente nus. Os números duros, crus, nefastos até, deixam bem clara, no Brasil, a falta de prioridade à criança. Em 2003, por exemplo, o gasto social por criança no país foi de 53,5 dólares, enquanto o gasto por idoso foi de 207 dólares. Entendeu? E essa realidade é restrita ao Brasil apenas? Não. Em outros países, por sinal ditos desenvolvidos, a realidade é bem parecida. No Japão os valores gastos no subsídio por vaca, em 2003, foram de 1.193 dólares. Nos Estados Unidos o mesmo subsídio custou 904 dólares por animal. Já a criança... Segundo levantamento feito pela revista Ultimato, em sua edição de dezembro/2006, as obras de infra-estrutura também não contemplam as áreas onde vivem os casais que têm mais filhos em relação àquelas regiões com casais com menos filhos. Dá para entender?

São absurdos os contrastes que os números apresentam. Dos lares brasileiros, com crianças de 0 a 14 anos, 45% não têm água encanada, enquanto o mesmo problema atinge apenas 34% dos lares que não têm crianças! Esgoto: 28% dos lares com crianças de 0 a 14 anos não têm o benefício. Já a mesma deficiência atinge apenas 16% dos lares que não têm crianças. Coleta de lixo: os lares com crianças que não contam com o serviço atingem 36% e os sem crianças 28%. A mortalidade infantil, por sua vez, não fica atrás. Ela é de 34,9 mortes por mil entre os 20% mais pobres da população, enquanto entre os 20% mais ricos ela é de 15,8 por mil. A conclusão a que se chega, com base nos números, é que no Brasil os investimentos públicos continuam beneficiando o lado mais rico da população. E a prioridade à criança é conversa pra boi dormir. Enquanto isso, o carnaval... Lá vem Mangueira! Lindo, maravilhoso!

 

 

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