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É
por demais conhecida a reação de Tomé à alegação
de que Jesus havia ressuscitado. O fato de alguém
morrer e depois voltar ao corpo físico, como estava
sendo apregoado, certamente não se encaixava na lógica
de Tomé. Daí o seu célebre comentário de que só
passaria a crer na ressurreição do Mestre se colocasse
o dedo na ferida que os cravos haviam feito nas mãos de
Jesus (ou antebraços como hoje já é aceito). Através
dos séculos essa afirmação de Tomé tomou um
significado depreciativo, tornando-se, inclusive, a
expressão maior da descrença, da incredulidade de alguém
em relação à ressurreição de Jesus. Entretanto,
passado todo esse tempo, ninguém, até os dias de hoje,
se preocupou em perguntar o motivo da reação de Tomé.
E porquê Tomé descreu? Qual a razão que o levou a
externar um sentimento que certamente era comum, senão
a todos, a quase todos os discípulos?
Ora, na lógica de Tomé, e de muitos que seguiam
a Jesus, se Ele não fora capaz de se livrar da prisão,
do julgamento e da condenação, como seria de vencer a
morte e voltar ao seu corpo natural? Esse sentimento
habitava, com certeza, os pensamentos dos apóstolos
naqueles dias. Contudo, somente Tomé o externou. Também
pudera! Num ambiente pesado, os seguidores de Jesus
estavam apavorados com as medidas que o Sinédrio
poderia tomar contra eles. Se não o Sinédrio – por
falta de autoridade para decretar a morte – pelo menos
Roma tinha todo o poder para tirar-lhes a vida. O
futuro, portanto, era obscuro. Como ficariam os negócios,
a família e o próprio ministério de cada um? Nesse
clima aparece alguém e diz que Jesus ressuscitou. Você
creria? Tomé não creu – e falou isso claramente. Seu
gesto e suas palavras vararam os séculos e repercutem
até os dias de hoje.
Além da realidade terrível que cercava os discípulos
de Jesus naqueles dias – o que levou Tomé a seu célebre
posicionamento – outras questões devem ser levadas em
consideração. Desde os tempos do Antigo Testamento, o
povo hebreu esperava pela vinda do seu Messias, o
enviado de Deus que viria libertá-los do cativeiro.
Essa promessa tinha um cunho eminentemente espiritual.
Ao longo do tempo, entretanto, o enunciado divino foi
adulterado e a libertação passou a ser encarada como
uma batalha a ser promovida contra o adversário político
e militar contemporâneo, naqueles dias o império
romano. Para o povo hebreu, a história já havia
registrado a ação de Deus contra filisteus, assírios,
babilônicos, egípcios... O fato da Sua mão livrá-los
dos romanos era, no entender judaico, tão somente uma
questão de tempo. A expectativa, assim, era de ação
militar, política. Já Jesus...
Historicamente, muitos enviados, entre aspas, se
apresentaram. Boatos eclodiam aqui e ali dando conta de
mais um Messias. Em toda esquina, de tempos em tempos,
surgia um Enviado. Até Barrabás posou de libertador, e
muitos outros espertalhões “pintaram no pedaço”.
Nesse contexto de sofrida expectativa e contida descrença,
Jesus apareceu. A todo instante tinha de tirar a dúvida
do povo, dos sacerdotes, dos doutores da lei: “És tu
o Messias?” Era natural, portanto, a reação de Tomé,
fruto do cansaço de uma espera, no tempo, alongada
demais. O lado bom desse episódio é que ele se
redimiu. Diante de um Jesus sereno e compreensivo (“Põe
aqui o dedo e olha minhas mãos”), Tomé extravasou:
“Meu Senhor, e meu Deus”, reconhecendo Jesus em sua
total dimensão. Naquele instante morreu o incrédulo.
Com a revelação, acabara de nascer um novo homem. Você
crê?
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