Públio José

09.04.2007

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O DILEMA DE TOMÉ

 

            Públio José 

 

 

É por demais conhecida a reação de Tomé à alegação de que Jesus havia ressuscitado. O fato de alguém morrer e depois voltar ao corpo físico, como estava sendo apregoado, certamente não se encaixava na lógica de Tomé. Daí o seu célebre comentário de que só passaria a crer na ressurreição do Mestre se colocasse o dedo na ferida que os cravos haviam feito nas mãos de Jesus (ou antebraços como hoje já é aceito). Através dos séculos essa afirmação de Tomé tomou um significado depreciativo, tornando-se, inclusive, a expressão maior da descrença, da incredulidade de alguém em relação à ressurreição de Jesus. Entretanto, passado todo esse tempo, ninguém, até os dias de hoje, se preocupou em perguntar o motivo da reação de Tomé. E porquê Tomé descreu? Qual a razão que o levou a externar um sentimento que certamente era comum, senão a todos, a quase todos os discípulos?

            Ora, na lógica de Tomé, e de muitos que seguiam a Jesus, se Ele não fora capaz de se livrar da prisão, do julgamento e da condenação, como seria de vencer a morte e voltar ao seu corpo natural? Esse sentimento habitava, com certeza, os pensamentos dos apóstolos naqueles dias. Contudo, somente Tomé o externou. Também pudera! Num ambiente pesado, os seguidores de Jesus estavam apavorados com as medidas que o Sinédrio poderia tomar contra eles. Se não o Sinédrio – por falta de autoridade para decretar a morte – pelo menos Roma tinha todo o poder para tirar-lhes a vida. O futuro, portanto, era obscuro. Como ficariam os negócios, a família e o próprio ministério de cada um? Nesse clima aparece alguém e diz que Jesus ressuscitou. Você creria? Tomé não creu – e falou isso claramente. Seu gesto e suas palavras vararam os séculos e repercutem até os dias de hoje.

            Além da realidade terrível que cercava os discípulos de Jesus naqueles dias – o que levou Tomé a seu célebre posicionamento – outras questões devem ser levadas em consideração. Desde os tempos do Antigo Testamento, o povo hebreu esperava pela vinda do seu Messias, o enviado de Deus que viria libertá-los do cativeiro. Essa promessa tinha um cunho eminentemente espiritual. Ao longo do tempo, entretanto, o enunciado divino foi adulterado e a libertação passou a ser encarada como uma batalha a ser promovida contra o adversário político e militar contemporâneo, naqueles dias o império romano. Para o povo hebreu, a história já havia registrado a ação de Deus contra filisteus, assírios, babilônicos, egípcios... O fato da Sua mão livrá-los dos romanos era, no entender judaico, tão somente uma questão de tempo. A expectativa, assim, era de ação militar, política. Já Jesus...      

            Historicamente, muitos enviados, entre aspas, se apresentaram. Boatos eclodiam aqui e ali dando conta de mais um Messias. Em toda esquina, de tempos em tempos, surgia um Enviado. Até Barrabás posou de libertador, e muitos outros espertalhões “pintaram no pedaço”. Nesse contexto de sofrida expectativa e contida descrença, Jesus apareceu. A todo instante tinha de tirar a dúvida do povo, dos sacerdotes, dos doutores da lei: “És tu o Messias?” Era natural, portanto, a reação de Tomé, fruto do cansaço de uma espera, no tempo, alongada demais. O lado bom desse episódio é que ele se redimiu. Diante de um Jesus sereno e compreensivo (“Põe aqui o dedo e olha minhas mãos”), Tomé extravasou: “Meu Senhor, e meu Deus”, reconhecendo Jesus em sua total dimensão. Naquele instante morreu o incrédulo. Com a revelação, acabara de nascer um novo homem. Você crê?   

 

 

 

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