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Quase diariamente eu vejo pessoas
chorarem. Manifestando, através das lágrimas, os
sentimentos dilacerados que carregam dentro de si. Na
maioria das vezes são pessoas hipersensíveis, de um
lastro de princípios extremamente rigoroso, convictas de
suas posições e detentoras de muitos sonhos. Também são
cheias de boa vontade, de um desejo imenso de
contribuir, de influenciar, de fazer parte do dia a dia
dos outros, do próximo, de sua cidade, de sua região, de
seu país. Destas, muitas têm os nervos sempre à flor da
pele, a sensibilidade exacerbada, o ponto de equilíbrio
normalmente estourado, semelhante a um correntista de
banco que tem feito, de forma exagerada, o uso do cheque
especial. Estão sempre no vermelho, expostas demais às
intempéries da vida, às agressões naturais que grassam
do meio ambiente social. E choram, e sentem – e declaram
sua dor abertamente através das lágrimas.
Outras não sabem chorar. Estão
esterilizadas por dentro, trancadas em si. De uma forma
ou de outra, foram induzidas a não se manifestar nunca,
a não declarar, diante dos outros, o que se passa em seu
íntimo. A vida atual, pela sua extrema competitividade,
tem muito a ver com essa postura. Para essas pessoas o
chorar é uma demonstração de fraqueza, de vacilo, de
pequenez de atitudes diante do enorme desafio que a vida
requer de todos nós. Chorar, então, passa a ser um gesto
menor, de gente desqualificada, despreparada para os
embates do cada vez mais exigente mundo globalizado de
hoje. Indiferentes ao que se passa à sua volta, essas
pessoas seguem em frente, muitas vezes sem levar em
conta o rastro de dor que estão deixando atrás de si.
Não sabem chorar. E isso lhes acarreta uma postura de
vida carregada de insensibilidade, dureza de coração e a
relativização de conceitos e valores.
Para que chorar, imaginam, se o choro
nada resolve? Na sua insensibilidade não vislumbram que,
junto com o choro – ou na ausência dele – desabrocha
todo um estilo de vida, um direcionamento em relação ao
meio em que vivem, à sociedade como um todo, e ao
próximo em particular. E que, ao vir, o choro traz em
sua manifestação uma tomada de consciência, um “cair em
si” que muitas vezes altera radicalmente o curso de uma
vida. Um terrorista, por exemplo, não sabe chorar. Um
corrupto que rouba o leite de crianças, o remédio dos
idosos, que desvia recursos públicos para seus projetos
pessoais e que, com isso, alastra dentro de si, mais
ainda, o fogo da insensibilidade, uma pessoa assim, com
certeza, não sabe chorar. E, com seu “modus operandi”
agride, maltrata, adultera, fere – e muitas vezes, por
conseqüência, mata. Insensível, egoísta, árido, seco –
sem nem sentir.
Grandes personagens da história
choraram. Fraqueza ou demonstração de grandeza? Pedro
negou Jesus. Depois chorou – amargamente. E o choro
reacendeu nele “a palavra que o Mestre lhe ensinara”. A
partir daí nunca mais foi o mesmo. Jesus também chorou
em inúmeras ocasiões, principalmente por sentir,
momentos antes da sua prisão, a que ponto chega a
avareza de homens voltados tão somente para seus
próprios interesses. Mas, para os que não choram, ou
desaprenderam a chorar, há sempre a oportunidade do
reaprendizado. Acompanhado sempre, lamentavelmente, de
um grande sofrimento, de uma grande dor. É o preço, por
exemplo, que corruptos arrependidos têm que pagar para
se reencontrar com o lado benéfico do choro. Limpando-se
por dentro e redescobrindo a prática do sentimento de
respeito para com os outros. Alegre-se se você ainda
sabe chorar. Por sinal, você ainda sabe?
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